Nota: 7

Devo estar seguramente a pecar por excesso, mas só me lembro de uma única intervenção digna desse nome da ministra do Mar nesta legislatura. Mas isso não lhe retira o mérito: quando teve de intervir a sério, Ana Paula Vitorino agiu de forma a resolver o problema de forma eficaz. Sacou de uma fórmula já gasta, mas que não comporta riscos e resulta sempre: dizer sim aos sindicatos.

A coisa é simples e funciona, como se viu mais uma vez no caso da greve dos estivadores. O que pode pois um ministro querer (ou fazer) mais?

Aliás, os exemplos passados são muitos e bons. Por isso, como se diz na bola, em tática que ganha não se mexe. Vitorino aprendeu-a seguramente no primeiro governo de Sócrates, quando era secretária de Estado dos Transportes.

O engenheiro (ainda com título), recorde-se, começou o seu primeiro e grandioso mandato anunciando que ia pôr fim aos grandes lóbis e corporações nacionais. E listou-os no discurso de posse. Primeiro era o das farmácias. João Cordeiro assustou-se tanto que acabou vereador do PS na Câmara de Cascais. Depois o dos professores. Mário Nogueira, que continua feliz à frente da Fenprof e agora na coliderança do Ministério da Educação, nem lhe ligou. Aliás, pelo caminho conseguiu colocar 200 mil a descer a Avenida da Liberdade, fez cair Maria de Lurdes Rodrigues e ainda usou as suas capacidades de slalom para evitar qualquer arremesso de avaliação que lhe tentaram impingir. E depois houve os médicos, os enfermeiros, num rol de exemplos de que sou incapaz de lembrar na totalidade.

Ou seja, inspiração não faltou a Ana Paula Vitorino. Que depois teve tempo para estudar bens os dossiers. Afinal, desde que saiu desse Governo PS e passou para a oposição, a sua principal tarefa foi zurzir no executivo PSD/CDS. Assim, quando António Costa montou a ‘geringonça’ e a convidou para tutelar a pasta do Mar, estava mais que preparada. Daí ter dito logo em janeiro, sem hesitações, que com ela tinham “acabado as greves no Porto de Lisboa”.

Às vezes as palavras saem um pouco extemporâneas, mas isso no mundo da política é absolutamente inócuo. É verdade que ainda houve greves em fevereiro, em março, em abril e mesmo em maio. E uns problemazitos, como coisas a apodrecer nos contentores bloqueados no cais em vez de chegarem aos supermercados. E até uma aborrecida falta de medicamentos nas ilhas. Tudo coisas de somenos. O importante é que três meses depois, com reuniões de muito trabalho e negociações demoradas e complicadas, nas palavras da própria ministra, a solução de sempre impôs-se.

Sim aos progressos na carreira pedidos pelos estivadores, com progressões automáticas e por mérito. Sim a uma nova tabela salarial com dez níveis. Sim à existência de tarefas que só podem ser exercidas por eleitos com certa experiência. Sim à proibição a que uma outra empresa de trabalho portuário pudesse exercer funções. Sim a que alguns dos trabalhadores dessa empresa reforçassem o grupo de trabalho portuário monopolista que dá corpo ao sindicato. Sim, sim.

É a chamada política dos ‘simdicatos’.