A moção de censura é um direito reconhecido no artigo 194.º da Constituição. No entanto, trata-se de uma figura constitucional que os portugueses aprenderam a desvalorizar. Perceberam que se trata de uma guerra interna no reino da partidocracia. Uma luta da oposição pela visibilidade. Uma reação face ao exagerado tempo de antena de que o Governo dispõe.

O povo compreendeu que não passa de um jogo. Com a agravante de o resultado ser conhecido antes do encontro. O exibir do cartão vermelho ao Governo sem que tal se traduza em expulsão. Algo que só não se verificou uma vez. Foi em 1987.

O Partido Renovador Democrático (PRD), um passo em falso que ensombra os altos serviços prestados a Portugal pelo general Eanes, conseguiu derrubar o Governo de Cavaco Silva. Contou com o apoio do Partido Socialista liderado por Vítor Constâncio. Uma decisão que Mário Soares não compreendeu. Tinha partido para o Brasil com a certeza de que Constâncio não embarcaria naquela “irresponsabilidade suspeita”.

Soares, Presidente, sentiu-se enganado. As suas relações com Constâncio esfriaram. O PS não tardaria a mudar de líder.

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Quanto ao primeiro-ministro destituído, voltaria ao Governo na sequência de eleições antecipadas. Numa posição bem mais confortável. Tinha maioria absoluta. Os eleitores decidiram penalizar o proponente e o apoiante da moção. O tiro saiu pela culatra. O PRD esfumou-se. O PS iniciou uma longa travessia no deserto até encontrar Guterres. Uma revisitação de Moisés. Que sorte um partido marxista contar com tal cristão!

Esta foi a exceção com que a regra admitiu conviver. Todas as outras moções de censura não surtiram efeito. Tal como irá acontecer com a atual moção apresentada pelo CDS-PP.

Assunção Cristas sabe que a sua moção de censura está condenada. A disciplina de voto falará mais alto do que as chamas dos incêndios e o número de vidas queimadas. Palavra dura. Não pode haver eufemismo para esconder a incúria oficial.

Os partidos que apoiam a geringonça governamental vão unir-se. Mesmo o PCP, sempre tão disponível para censurar em nome dos interesses dos trabalhadores. Desta vez é diferente. Apoia o Governo. Mesmo reforçando a ideia de que é o possível e não o desejável. Por isso não sairá reforçado pelo chumbo da moção.

O PCP, o Bloco de Esquerda e um envergonhado PS vão acusar o CDS-PP de aproveitamento partidário da tragédia. Uma tentativa de influenciar a opinião pública. Virá-la contra quem se quer aproveitar do sofrimento alheio. Assunção Cristas, embalada pelo resultado próprio em Lisboa, quer voltar a marcar terreno. Apostou em nova antecipação ao PSD. Um partido em gestão. Uma fase de transição. Para onde e liderado por quem em breve se verá.

A troika que sustenta a geringonça não vai aceitar esse aproveitamento. Mesmo desconfiando do condutor. E de várias peças da engrenagem.

Afinal, o primeiro-ministro até já aceitou a demissão da ministra da Administração Interna. Com quatro meses de atraso. Responsabilidade de Marcelo. Podia ter exigido antes. Tal como não colocou entraves a que o Presidente da Proteção Civil deixasse o cargo. Deveria ter sido após Pedrógão Grande. Porém, não foi tão grande assim a demora.

Mais importante ainda. António Costa até pediu desculpa pelo sucedido. Por insistência de um deputado, mas pediu.

A geringonça tem direito a continuar a caminhada. Agora batizada de novo ciclo. Como exigiu o Presidente da República. Segura de que ao CDS-PP já não restará nova oportunidade para a censurar. A Constituição só permite a cada proponente uma moção de censura por legislatura.

Só que a Constituição não limita o direito à censura por parte dos cidadãos. É a essa censura – e revolta indignada – que nenhum Governo pode fugir.

Face à censura coletiva, a discussão da moção nada adianta. O País sabe que já perdeu. A vida não é passível de indemnização. Não foi tida em apreço. Não tem preço.