Findo o Verão, apesar de todas as incertezas desenhadas na linha do horizonte, as presidenciais de Janeiro de 2021 começam a mexer. No meio da disrupção da nossa vida colectiva trazida pelo vírus, agudizados por uma classe política ensimesmada – principalmente quando brinca às “crises políticas” –, momentos como as eleições são importantes faróis de normalidade numa sociedade em convulsão. Apesar de tudo, as regras do jogo continuam a funcionar. Seremos novamente chamados a eleger o Presidente da República dentro de uns meses.

Ana Gomes apresenta amanhã a sua candidatura à Presidência da República. Creio que é de louvar o esforço cívico e político que Ana Gomes faz ao prestar novamente um serviço ao seu país, num momento difícil em que corríamos o risco de ter uma corrida eleitoral disputada por dois populistas, Marcelo Rebelo de Sousa e André Ventura.

Ana Gomes é tudo aquilo que Marcelo Rebelo de Sousa, o vencedor pré-anunciado, não é. Isto, claro, para quem tem a felicidade de ver o país para além do ângulo debitado pelo Expresso. Em primeiro lugar, é uma cosmopolita, com vasta experiência internacional, acumulada em cargos diplomáticos em Londres e Tóquio e, durante mais de quinze anos, enquanto deputada ao Parlamento Europeu em Bruxelas. Durante esse tempo, o Professor Marcelo espalhava o seu “génio” entre Cascais, a Faculdade de Direito, o comentário político na TSF – no qual dava notas aos políticos — e, mais tarde, a TVI.

Em segundo lugar, Ana Gomes é uma mulher corajosa e com espinha vertebral. Tem um conjunto de princípios de que não abdica, nomeadamente, a lisura na coisa pública e o combate à corrupção. Quem não se lembra quando Ana Gomes chamou ladra a Isabel dos Santos em directo na SIC Notícias, dizendo, de resto, aquilo que o senso comum de qualquer português medianamente informado sabe? Ou, por exemplo, o facto de ter sido a única militante no Congresso do PS, em 2018, que assumiu a necessidade de o partido reconhecer os erros do passado? Não concordo com todas as posições de Ana Gomes, nomeadamente em matéria europeia. No entanto, gabo-lhe a coragem de enunciar as suas posições publicamente e com clareza. Alguém conhece as posições de Marcelo Rebelo de Sousa sobre o que quer que seja? Apesar de ser uma presença mediática há décadas, o “Professor”, persona pública criada no seio da mais fina elite mas que consegue o milagre de fazer o povo acreditar que é um dos seus, não tem coragem para afirmar as suas posições sobre nada. É um caso clássico do dictum atribuído a Groucho Marx: estas são as minhas posições, se não gostarem tenho outras.

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