A história do Holocausto é a história de um regime feito de homens e mulheres comuns. É a história daqueles que se opuseram, que puseram a sua vida e segurança em perigo. Mas é também a história dos que se conformaram, por medo ou indiferença.

Na semana de celebração do dia de Yom Hashoah, em que recordamos as vítimas do Holocausto, é importante lembrar que este não foi nunca apenas a obra de monstros maquiavélicos, de seres distintos, estranhos e distantes. Foi também o fruto da obediência cega e da imoralidade das pessoas comuns, quando deixam de conseguir distinguir a fronteira entre o bem e o mal, ou quando um ou outro lhes parecem indiferentes pelo medo ou pelo conforto.

Na verdade, quais de nós se oporiam, quantos de nós se conformariam? Quando se banaliza o mal e quando o bem é a exceção à regra, o que resta de nós enquanto Humanidade?

Reportando o julgamento, iniciado em Jerusalém em 1961, de Adolf Eichmann, apelidado pela História como um dos principais “orquestradores” do Holocausto, Hannah Arendt descreveu um julgamento que não o era verdadeiramente, mas antes um acerto de contas com a História e com o povo judeu.

Apercebeu-se ainda, lucidamente, da incapacidade dos juízes daquele tribunal em Israel, de compreender a incapacidade de Eichmann para assimilar a natureza criminosa dos seus atos. É que aquela pessoa “era, de facto, normal, no sentido em que não era «uma excepção no seio do regime nazi». Contudo, dada a especificidade do Terceiro Reich, só as «excepções» poderiam reagir «normalmente»”.

Num tempo em que se apaga a História, em que se banalizam vis comportamentos, em que se menospreza todos aqueles, que, de uma forma ou outra, vão minando a democracia, devemos constantemente lembrar-nos disto mesmo: não são apenas os monstros que cometem atrocidades, são muitas vezes aqueles que, num estado de exceção, não são – ou não podem ser – “excecionais”.

Esta nunca é uma discussão infrutífera ou desnecessária, mas menos ainda se torna quando vivemos um período excecional, com o decretamento do primeiro Estado de Emergência da nossa Democracia, vendo as nossas liberdades tão restringidas em nome de outros valores também importantes, como a saúde e a segurança de todos.

Nada disso nos pode ou deve impedir de continuar a lembrar. Sobretudo não nos perdendo em discussões infrutíferas e superficiais sobre o quórum necessário ou suficiente para uma celebração. Porque lembrar é mais do que os convidados na sala, mais do que a celebração física.

E porque é lembrando que nos vamos impedindo de “normalizar” os maiores atropelos à nossa Democracia e às nossas liberdades. Porque um dia podemos acordar e o novo normal não ser já o que imaginávamos.