Há um ano, ninguém supunha que estariam para vir tempos tão desoladores… Para além da lamentável e irreparável perda de vidas humanas, a pandemia veio acentuar as preexistentes lacunas sociais, económicas e na saúde, já de si tão preocupantes. E ninguém passou incólume. Ao longo dos últimos meses, de uma forma mais directa ou menos directa, umas pessoas mais, outras menos, toda a gente foi afectada pelo vírus SARS-CoV-2.

No processo de vacinação agora iniciado, não obstante não serem expectáveis efeitos indesejáveis fora do comum, importa que estejamos atentos; sabemos, hoje, que a administração da vacina contra a Covid-19 nas pessoas com tendência para desencadearem reacções anafilácticas graves deverá ser devidamente ponderada. Em boa verdade, sejamos realistas, não existe a vacina perfeita. Tampouco, o que habitualmente designamos por medicamento é totalmente isento de riscos. Ambos, num dado momento e em determinadas circunstâncias, podem ter efeitos indesejáveis. Estes, felizmente, são, regra geral, passageiros. Recordam-se, certamente, os caros leitores do aforismo: “A sociedade exige segurança e quere-a absoluta, embora esta nunca exista.” Todavia, as vantagens das vacinas são, sem qualquer dúvida, muito superiores aos seus inconvenientes. De facto, a História da Medicina tem demonstrado que os benefícios, quer dos medicamentos, quer das vacinas, superam largamente os riscos que, porventura, deles possam advir.

Lograr disponibilizar uma vacina de qualidade, segura e eficaz contra a Covid-19, num tão curto intervalo de tempo, foi um feito notável. Atente-se no facto de que o desenvolvimento de uma vacina demora, em média, 8 a 10 anos.

A rapidez com que a vacina ficou disponível é uma das razões pelas quais muitas pessoas têm dúvidas acerca da sua segurança. Porém, nada indica que essas dúvidas tenham fundamento. Desde logo, porque quando a investigação para a descoberta da vacina teve início, há cerca de um ano, existia um longo trabalho desenvolvido previamente, que se desenrolou durante vários anos, realizado no âmbito do estudo de outros vírus da mesma família do SARS-CoV-2; existia já, também, experiência relacionada com a tecnologia mRNA, na qual se baseiam as vacinas da Pfizer/BioNTech e da Moderna. Além disso, o forte impacto desta pandemia gerou uma congregação de esforços nunca antes alcançada; havia um enorme interesse comum, que resultou num conjunto de acções sinérgicas inéditas. Quando várias instituições e entidades, embora de sectores diversos, rumam num mesmo sentido, tudo se torna mais fácil e aumenta a probabilidade de sucesso. Factor determinante para confiarmos na nova vacina, é a idoneidade das entidades reguladoras, designadamente a Agência Europeia de Medicamentos (EMA), cujo rigor de análise, na base de cada parecer, lhes confere credibilidade inquestionável.

O facto de ter sido possível iniciar a vacinação contra a Covid-19 não traduz a cessação da actividade de investigação ou o seu abrandamento. Muito pelo contrário, a evolução é permanente. Deste processo dinâmico faz parte a Farmacovigilância, que, em particular no contexto da Covid-19, permite identificar, avaliar e prevenir reacções adversas, visando consolidar activamente a segurança das vacinas, promovendo e protegendo a saúde.

Efeito indesejável ou reacção adversa é, por definição, qualquer resposta nociva e não intencional que ocorre após a toma de um medicamento ou vacina. Na maioria dos casos, os efeitos indesejáveis são passageiros, como febre ligeira, cefaleias (dor de cabeça) ou cansaço… É da máxima importância que estas ou outras reacções adversas, menos ligeiras, sejam comunicadas às entidades competentes – a chamada notificação de reacção adversa –, pois, ao fazê-lo, estaremos a dar um contributo inestimável para aperfeiçoar, melhorar ainda mais a qualidade, a segurança e a eficácia das vacinas existentes, e que, de resto, reuniram todas as condições para a sua aprovação, ou seja, cujo benefício é superior ao risco.

Com a administração em massa da vacina, indubitavelmente entramos num outro patamar de controlo da pandemia. Não teremos o problema resolvido de um dia para o outro, levará o seu tempo, mas podemos doravante encarar o futuro com redobrado optimismo.

Entretanto, convém não esquecermos que é altamente recomendável, diria imprescindível, mantermos as regras preventivas do contágio, mormente distanciamento entre pessoas, uso de máscara e lavagem frequente das mãos, até alcançarmos a tão almejada imunidade de grupo.

No dealbar do Ano Novo, com o coração repleto de esperança, não desperdicemos a oportunidade de enriquecermos como pessoas, como seres humanos, contribuindo com tudo o que está ao nosso alcance no sentido de debelar esta pandemia.