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A crise entre a Polónia e a Comissão Europeia sobre a supremacia do direito europeu está a consolidar a internacional nacionalista na Europa. Depois do Brexit, a direita nacionalista desistiu da saída da União Europeia e está cada vez mais unida em redor de uma fórmula alternativa para a Europa: a Europa da Nações. A retirada das instituições europeias deixou de estar na moda: agora, o último grito é transformar a União Europeia por dentro e desafiar os seus princípios fundadores. A nova internacional nacionalista é anti-liberal, opõe-se às autoridades supranacionais – como a Comissão e o Parlamento, posiciona-se contra a imigração e defende a tradição Cristã contra a invasão Islamista, mas quer transformar a Europa por dentro, não de fora.

Nas últimas semanas, a articulação entre os vários líderes da direita nacionalista ganhou uma nova agilidade e dimensão. Agora, não é só Viktor Órban a defender Varsóvia. O assunto saltou para a linha da frente do debate francês nas vésperas das eleições presidenciais da próxima primavera. Éric Zemmour, a estrela ascendente da direita radical francesa, faz bandeira do direito de a Polónia defender a sua soberania e obriga Marine Le Pen a viajar até Budapeste para prestar homenagem a Viktor Órban, o papa da nova Europa das Nações.

A direita radical apropriou-se da defesa do Ocidente cristão contra os seus inimigos para mobilizar o eleitorado conservador, nomeadamente entre os Católicos. Contudo, Órban e os seus correligionários não só purgaram o universalismo de inspiração cristã desta nova Europa, mas também colocaram o cristianismo em oposição à democracia liberal. Para a Igreja Católica – que se alinhou no pós-guerra com a democracia liberal e a integração europeia, esta posição é indefensável. Em Paris, é Zemmour, de origem judaica e argelina, que reclama a herança gaullista de defesa da soberania francesa e da tradição Católica de França, anunciando que o seu objetivo é impedir que a França veja as suas igrejas serem substituídas por mesquitas. “Será que queremos tornar-nos uma terra islâmica? Ou será que queremos continuar a ser uma terra greco-romana?” Na Hungria, a oposição unida aposta no exemplar verdadeiro para desmascarar Órban. Nas primárias internas, a nova coligação de partidos escolheu Márki-Zay um católico praticante e pai de sete filhos, liberal, democrata e europeu, como candidato único às eleições gerais do próximo ano.

Por último, a crescente relevância política da Europa da Nações nos debates nacionais torna mais complexa a resposta dos governos europeus aos desvios da Polónia e da Hungria. Merkel e Macron, apercebendo-se de que a Polónia está, mais uma vez, a tornar-se na mártir da direita radical, ensaiam uma abordagem cautelosa ao conflito sobre o estado de direito. Enquanto Merkel reitera a sua herança de mediação na Europa, para Emmanuel Macron a cautela em relação à Polónia parece ser uma questão de cálculo político: apesar de ter historicamente uma posição dura sobre estas questões, Macron receia que a Polónia seja utilizada contra ele por soberanistas de esquerda e de direita.

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O que parece certo, é que tal como nos anos 30 do século passado, o internacionalismo demo-liberal pela unificação da Europa é desafiado por um internacionalismo de direita nacionalista e reacionária, que cada vez mais usa um novo projeto para a Europa como elemento agregador do seu eleitorado. As causas da direita nacionalista duma ponta da Europa tornam-se elementos da luta política noutros contextos eleitorais. A europeização da política europeia está mais completa, mas esta não é uma boa notícia.

Madalena Meyer Resende (no twitter: @ResendeMeyer) é um dos comentadores residentes do Café Europa na Rádio Observador, juntamente com Henrique Burnay, João Diogo Barbosa e Bruno Cardoso Reis. O programa vai para o ar todas as segundas-feiras às 14h00 e às 22h00.

As opiniões aqui expressas apenas vinculam o seu autor.

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