Uma boa medida para o insucesso do plano europeu de vacinação é o facto de ter sido notado em Portugal. Não é novidade que nos costuma escapar o que acontece “na Europa”, especialmente quando não se trata da hipótese de amealhar parte do erário estrangeiro, mas é mais difícil um assunto captar a nossa atenção e acabar numa crítica à competência e benevolência intrínsecas da União Europeia – um dos raros consensos nacionais, num país em que até os partidos tentam camuflar o euroceticismo latente. Os erros, entretanto reconhecidos, resultaram num falhanço difícil de sobrestimar na proteção de vidas e economias, mas também fragilizaram decisivamente a credibilidade da União e dos políticos nacionais.

Longe da nossa atenção, há governos europeus a soçobrar com a pandemia. Se pensarmos aleatoriamente num qualquer país europeu, é provável que o seu governo esteja a passar mal. Em Itália, o primeiro-ministro Conte experimentou a perfídia do “maquiavélico” Matteo Renzi (a comparação é do próprio) e acabou substituído, mesmo depois de se ter tornado muito popular no combate pandémico, para que o regime melhor pudesse distribuir os dinheiros europeus. Na Eslováquia, a coligação de governo esteve um mês numa crise existencial, depois de se ter conhecido um acordo secreto para comprar vacinas russas, e a solução foi a troca de cargos entre o primeiro-ministro e o ministro das Finanças. Em França, algumas sondagens mostram que as presidenciais do próximo ano podem ser muito mais disputadas do que as de 2017, com a hipótese plausível de uma vitória de Marine Le Pen e a suposição de que chegar à segunda volta pode tornar-se inesperadamente difícil para o presidente Macron.

Em vez da cura, 2021 trouxe uma profunda fadiga pandémica, com governos que parecem mais incapazes do que nunca. E em nenhum lugar essa dinâmica se tem sentido com maior surpresa do que na Alemanha. Suspeitas de corrupção, problemas na distribuição de vacinas e a inabilidade para gerir a nova vaga de casos transformaram o governo que ainda há meses era exemplo, numa história de aviso sobre a fragilidade destes tempos.

Com eleições no final do ano e a promessa do abandono de Angela Merkel, muito do futuro da União Europeia vai passar pela sua sucessão. O momento é sensível e a estratégia era a evolução na continuidade para o partido, o país e a Europa: um líder parecido com Merkel para a Alemanha, uma ministra leal para a União Europeia. Na turbulência do novo ano, o plano encontra-se ameaçado pela incapacidade do governo e o crescimento do partido Os Verdes, que teve importantes vitórias nas recentes eleições regionais e se adiantou nas sondagens nacionais, tomando o segundo lugar aos sociais-democratas e ameaçando a liderança da CDU.

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A hipótese de um chanceler verde é inusitada e é demasiado cedo para a tomar como provável, mas importa medir-lhe os riscos. Formalizado em 1980, o partido tem um passado ligado ao protesto, das universidades à energia, mas rapidamente adotou uma perspetiva pragmática e devidamente distante dos seus princípios, que permitiu a colaboração em governos com o SPD, na viragem do século, com a colorida dupla Gerhard Schröder e Joschka Fischer. O partido sofreu com esses anos, que acabaram mal, e precisou de tempo para se reapresentar como alternativa.

Na última década, os partidos da social-democracia acabaram castigados por toda a Europa, mas nenhum, como o SPD, se viu obrigado a governar com o seu maior adversário durante oito anos. Ao mesmo tempo, a popularidade das causas ambientais fez com que os partidos verdes parecessem uma alternativa moderna e urbana onde o centro-esquerda tinha desiludido (é difícil não associar este arrastamento do centro ao que aconteceu noutros países com a direita, mas o eleitorado é diferente e os partidos não podem ser exatamente simétricos), com a promessa de várias “ondas verdes” depois de resultados surpreendentes.

A onda nunca chegou verdadeiramente e os caminhos verdes para o poder continuaram a passar por coligações, como acontece desde a década de 70. Poder governar a Alemanha seria uma vitória notável para uma corrente política light, muitas vezes tida como pouco séria e ideologicamente superficial. No entanto, se a curta história verde no governo alemão se conta em episódios de desapego ao seu programa, o que se pode esperar da recuperação económica, do futuro nas relações com a China, a Rússia e a América, ou da coesão na União Europeia senão o regresso da dúvida permanente num tempo especialmente difícil?

Os últimos anos levaram os interesses e a governação alemã a confundir-se com os interesses e a governação europeia. Já não faz sentido falar de uma liderança relutante e a influência alemã tornou-se até um vício no processo de decisão europeu, que parece depender da sua intervenção sempre que há um bloqueio.

Pode um partido que ainda nem escolheu o candidato a chanceler substituir a influência da CDU dentro e fora do país? Dificilmente. Mas mesmo falhando a liderança do governo, é provável que os Verdes venham a integrar a próxima maioria e possam voltar a moldar e ser moldados pela experiência, o que é uma novidade a ter em conta numa altura em que não há governos seguros, a União está ferida e continua a apostar na continuidade. O maior risco de uma grande vitória verde não é o fim do bife, mas o fim dos frágeis equilíbrios que nos rodeiam.

João Diogo Barbosa, jurista (@jdiogospbarbosa no Twitter), é um dos comentadores residentes do Café Europa na Rádio Observador, juntamente com Henrique Burnay, Madalena Meyer Resende e Bruno Cardoso Reis. O programa vai para o ar todas as segundas-feiras às 14h00 e às 22h00. 

As opiniões aqui expressas apenas vinculam o seu autor.

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