A Europa respira de alívio. Ainda que haja trâmites legais a considerar e que Trump possa impor demoras por litigância, já restam poucas dúvidas de que Joe Biden é o presidente eleito dos Estados Unidos. São boas notícias para o lado de cá do Atlântico, até porque o novo presidente fez duas promessas no artigo-manifesto da Foreign Affairs, que deixam os europeus muito mais descansados: o apoio à relação “sagrada” com a NATO e o compromisso de que os EUA voltarão a liderar, senão o mundo – é capaz de ser um bocadinho ambicioso, tendo em conta a presença estrondosa da China –, pelo menos o mundo livre.

Até aqui parece tudo muito bem. Mas uma leitura mais atenta do documento levanta-me um conjunto de dúvidas quanto à eficácia do plano da nova Administração. É que Biden quer uma ordem internacional liberal muito robusta, que envolva todas as democracias do mundo na defesa e expansão dos valores democráticos que, como referimos aqui, não são necessariamente só liberais, são também norte-americanas. Por outras palavras, Biden parece querer voltar aos “gloriosos” anos de 1990, em que unipolaridade norte-americana permitiu um conjunto de excessos universalistas que não se coadunam com um mundo em transição de poder.

Senão vejamos: o novo presidente “convida” os líderes democráticos de todo o mundo a “pôr o fortalecimento da democracia como prioridade na agenda global”. Para isso chama-os, já no primeiro ano do seu mandato, a participarem numa cimeira de democracias que serve, não só para “confrontar as nações que estão a retroceder”, como a “forjar uma agenda comum”. Essa agenda terá de ser reforçada pelo “compromisso dos Estados” em “lutar contra a corrupção, defenderem-se contra o autoritarismo e assegurar o cumprimento dos direitos humanos interna e externamente”.

Esta agenda tem, pelo menos, três problemas: em primeiro lugar, parece retomar a ideia de que a democracia liberal é o único regime interno legítimo, conceito, aliás, que levou os norte-americanos a cometerem erros estratégicos graves que os conduziram à sobre-extensão, ao consequente declínio relativo e à rejeição, por parte de muitos Estados, – alguns deles democráticos – da ordem liberal internacional. Cometer o mesmo erro duas vezes (mesmo que seja ao nível dos princípios, que a geopolítica é caprichosa), é meio caminho andado para que a liderança americana corra mal. E, com a China à espreita, não estamos em tempo disso.

O que nos leva ao segundo ponto. A Europa tem uma convivência pacífica com a evolução ideológica liberal dos Estados Unidos. Têm um convívio social estreito desde, pelo menos, os anos de 1940. Mas há Estados, que por mais democráticos que sejam – e há muitos assim, na Ásia, começando pela Índia, fulcral para o objetivo de Biden em conter a China – não aceitam ingerências nos assuntos de outros Estados, seja de que forma for. Nem retórica.

Assim, chegamos ao terceiro ponto. Este tipo de liderança internacional vem com o sério risco de separar em vez de unir. As democracias asiáticas têm uma longa tradição de soberania como valor essencial e de autonomia estratégica. Sentem-se desconfortáveis com grandes declarações de princípios, alianças permanentes, hierárquicas e altamente visíveis internacionalmente, com multilateralismos de sabor liberal. Não querem, necessariamente, estar fora da ordem. Mas preferem parcerias discretas, pragmáticas e eficazes.

O mundo livre precisa de liderança. Mas não uma liderança impositiva ou prescritiva. Uma que perceba que há um capital político, geopolítico e de legitimidade enorme neste tipo de regime que é o nosso. Mas que lidere as democracias na sua diversidade e num espírito de defesa das muitas agressões exteriores que vêm aí. É que entrámos numa longa transição de poder sem vencedor nem fim à vista. E qualquer estratégia de liderança, seja ela qual for, tem de se adaptar ao mundo em que vivemos, sob pena de ruir antes de produzir qualquer efeito.