No dia após a primeira volta das eleições no Brasil, estava a ver o telejornal e fez-me confusão a forma como as notícias estavam a ser conduzidas. As pessoas entrevistadas, os termos usados, o tom seguido, tudo tinha uma conotação negativa! Desde o tom de alarme com a possibilidade do Bolsonaro ganhar, catalogando-o como sendo de extrema direita/fascista, a só entrevistarem brasileiros que diziam que isto era um “escândalo” e o “fim do mundo” (uma amostra interessante, visto que quase 50% da população votou nele). Comecei, então, a ter mais atenção às notícias nos jornais: desde artigos de opinião, a notícias informativas, todas tinham a mesma linguagem: “o fim da democracia!”, “frases polémicas de Bolsonaro”, “como o Brasil vai perder todos os frutos do seu crescimento recente”, …

Não creio que Bolsonaro seja uma solução nem seria capaz de votar nele. O meu objectivo não é defendê-lo, mas olhar para um conjunto de problemas que, para mim, são muito mais gritantes que a eleição de Bolsonaro:

  • A falta de imparcialidade dos media: é claro como a água as ideias que os media em Portugal defendem. Isto é um problema? Não seria se as pessoas soubessem claramente o quadrante político com que os diferentes jornais e televisões se identificam (se assumissem que eram de direita/esquerda, republicanos/democratas,… como acontece, por exemplo, nos EUA). O problema é que isso não acontece! Qual a consequência? Os meios que nos deviam informar de forma verdadeira e transparente estão, no fundo, a moldar a nossa opinião e a direccioná-la para um caminho único. Sou sincero: se não fosse capaz de parar para pensar e discernir, se não tivesse ideias próprias, tomava como irrefutável tudo o que os meios de comunicação social nos vendem.
  • Não deixa de ser curioso: os políticos, os meios de comunicação social e a sociedade muito mais rapidamente se escandalizam com uma possibilidade de radicalismo mais conotado à direita do que com o oposto. E se quem estivesse para ganhar as eleições fosse de extrema esquerda? Se fosse um Maduro? A resposta para isso está na falta de cobertura aos problemas e ao terror na Venezuela. Recentemente, um dos mais importantes opositores ao governo “suicidou-se” após ter sido preso. De que maneira foi coberta esta notícia?
  • A falta de noção de culpa e vergonha: já parámos para pensar porque é que o Bolsonaro está tão perto da vitória? Porque é que os movimentos de extrema-direita estão a crescer? Talvez seja um indicativo das coisas não estarem bem. Corrupção, incapacidade de resolver os problemas, políticas e ideologias cada vez mais individualistas e indiferentes… O mundo e a política estão cada vez mais enrolados nos seus próprios vícios. Talvez fosse mais proveitoso que nos deixássemos de colocar num pedestal, de falar como se fossemos donos da razão e do saber, olhando para todos os outros como se fossem inferiores. Talvez fosse melhor assumir que estes problemas que tanto nos chocam mais não são do que uma consequência dos nossos erros.
  • Falamos como se soubéssemos o que se passa no Brasil e no mundo: já se parou para pensar que o PT (partido que, supostamente, defendia os trabalhadores e era anticorrupção) está completamente descredibilizado e de baixo de fogo especialmente por questões de corrupção? Já se parou para tomar consciência dos gravíssimos problemas de criminalidade e segurança que o Brasil enfrenta? E se fossemos nós? Se fossem os nossos filhos a terem de ir para a escola com o risco de serem raptados? Se fossemos nós que, ao andar tranquilamente na rua, pudéssemos ser surpreendidos por uma chuva de tiros de lutas entre gangs? Se fossemos nós a ver uma pessoa a cair morta ao nosso lado semana a semana? É sempre importante lembrarmo-nos que não temos os dados todos (este é, aliás, um excelente critério para nos acompanhar na vida).
  • Olhemos para o mundo, não vamos a lado nenhum: para onde vamos? Paremos para pensar o futuro que nos espera se tudo continuar a evoluir desta maneira: desigualdades cada vez maiores, mais exploração de pessoas frágeis, mais desemprego, ambiente cada vez mais destruído, aquecimento global, estagnação económica…. O que queremos do mundo? Que respostas estamos dispostos a dar? Que sacrifícios faremos para preservar o que é de todos? Sinceramente, parece-me que pouco importava se ganhasse ou não o Bolsonaro. Preocupante é a nossa falta de capacidade de olhar e enfrentar o futuro com caridade, pobreza, humildade e partilha. Chega de politicamente correcto, de aceitar que poucos tenham muito, que poucos decidam egoisticamente o que diz respeito a todos. E termino citando Rosi Braidotti, num excerto retirado do terceiro episódio da série televisiva da RTP “2077 – 10 Segundos Para o Futuro” (vale muito a pena ver!): “Porque não começar a desejar pobreza? Porque não começar a desejar crescimento nulo? (…) Porque não desejar sustentabilidade ecológica? Porque não desejar paz?”.

Nota: as frases em parêntesis no primeiro parágrafo não dizem respeito a notícias específicas nem a citações concretas. Referem-se apenas ao tom que sinto que muitas das notícias acabam por passar.

Estudante de Economia