Os menos atentos eventualmente ignorarão que existem dois Estados Judaicos no mundo. Aquele que todos conhecemos, independente, representado nas Nações Unidas e designado por Israel e aquele outro, de que provavelmente poucos ouviram falar, designado por República Hebraica Autónoma (com a capital em Birobidzhan) que foi criado após a Revolução Bolchevique, como uma região autónoma, onde os judeus aspiravam construir um abrigo seguro, longe dos Pogrom que os haviam dizimado nos últimos anos do regime do Czar.

Não é, portanto, de admirar que usufruindo de direitos civis muito limitados e desejando um maior grau de autonomia e emancipação, um número desproporcionado de Judeus tenha dado o seu contributo à implantação do regime dos sovietes na velha Rússia Imperial.

A erradicação do velho Estado Russo, implicava a criação de uma União de nacionalidades soviéticas em que os judeus encontrariam, à semelhança dos restantes povos do Império, a sua autodeterminação.

Foi assim concedido, em 1928, um pedaço de estepe na fronteira Sino-Soviética, nas margens do rio Amur, servido pelo Transiberiano, infestado por mosquitos, impossível de habitar e ainda menos de cultivar, tendo sido outorgado o estatuto de Região Autónoma Judaica em 1934.

Rapidamente a experiência social se transformou em pesadelo real para as dezenas de milhar de expatriados que haviam recebido um só bilhete de ida.

Segundo a jornalista Russo-Americana Masha Gensen que habitou o local, nada existia. Casas, estradas, assistência sanitária, nada. Transportados em vagões de gado, idênticos aos usados nos campos de concentração nazi, milhares de judeus que nada mais possuíam para além dos andrajos que traziam vestido, foram despejados num descampado em pleno Inverno, sendo-lhes fornecida uma pá ou uma picareta que usavam para escavar, no solo gelado, um abrigo precário do frio siberiano. Dos primeiros colonos, só cerca de metade sobreviveu aos primeiros seis meses no local.

Os comunistas eslavos sempre olharam para os judeus de uma forma ambígua. Os intelectuais revolucionários judaicos bebiam fraternalmente da causa revolucionária e ocuparam os cargos mais destacados da nova administração. Porém, os pobres camponeses judeus da Ucrânia “beneficiaram” desde logo de uma discriminação racial pouco conforme com os princípios da revolução.

A 21 de Novembro de 1919, Lenine fazia aprovar pelo Partido Comunista Russo (Bolchevique), uma Tese sobre “Política Ucraniana”, onde se referia que: “Judeus e habitantes das cidades ucranianas devem ser inventariados e deslocados… salvo uma percentagem insignificante, em casos excepcionais, que devem ser  submetidos a uma supervisão especial de classe.” [1]

Das dezenas de milhar de judeus que por degredo ou idealismo foram deslocados para o Oblast Autónomo Judaico nada resta actualmente. Segundo dados recentes, apenas 0,2%  dos cerca de 180 000 habitantes pratica o Judaísmo, sendo os restantes de etnia russa, ucraniana ou chinesa.

Shoah a Leste

Durante a maioria do seu consulado, Estaline não manifestou mais do que uma displicente indiferença pela origem étnica daqueles que o rodeavam, nomeadamente para com os Judeus. Apesar das suas origens georgianas que nunca renegou, pode dizer-se que o ditador vestiu como suas, as roupagens dos russos eslavos que constituíam na sua perspectiva a “alma mater” do império soviético. No entanto, não deixou de manifestar o seu descontentamento para com a sua filha Svetlana quando primeiramente esta se apaixonou pelo realizador cinematográfico judeu soviético Aleksei Kapler e mais tarde, após ingentes pedidos, acabou por aceitar que esta se casasse com o judeu Grigori Morozov, sem, ainda assim, aceder a estar presente na cerimónia.

Contudo, até 1948 Estaline, seguindo a sua visão pragmática de apoiar tudo e todos os que pudessem afrontar as potências capitalistas, tinha sustentado a criação do Estado de Israel. Os Judeus que haviam emigrado para a Palestina após o final da II Guerra Mundial, criaram toda a espécie de problemas à administração britânica da região por forma a aí poderem estabelecer um Estado independente. Logo que tal Estado foi formalmente criado em 1948, a União Soviética procedeu ao seu reconhecimento, chegando mesmo a enviar armamento para a defesa de Israel contra as nações árabes que se sentiram espoliadas pela criação desta nova entidade política.

Porém, sem aviso prévio, tudo mudou em Novembro de 1948. Todas as manifestações de cultura judaica foram proibidas e as suas figuras mais proeminentes desapareciam sem rasto nem protesto. Na noite de 12-13 de Agosto de 1952 ocorreu a “Noite dos Poetas Mortos”. Nessa data, treze dos mais significativos poetas Yiddish, foram executados às ordens de Estaline, sem outra razão que não fosse a utilização da sua língua materna.

Em Maio de 1952, foram julgados os membros do “Comité Antifascista Judaico” e após interrogatórios, como sempre, acompanhados por tortura, dos 15 réus acusados de “nacionalismo judaico burguês”, espionagem e traição, treze foram executados a 12 de Agosto de 1952.

Com o início do julgamento em Praga de Rudolf Slansky, a 20 de Novembro de 1952, os impulsos anti-semitas do regime soviético adquiriram novas facetas. No âmbito de uma purga mais geral que Estaline maquinava para afastar os seus velhos companheiros, desenhou o caso, enviando interrogadores directamente de Moscovo, para assegurar a “boa vontade” dos arguidos em colaborar com as investigações. De facto, assim aconteceu e depois de confessarem os crimes de espionagem e sabotagem económica de que vinham acusados, foram os próprios a pedir ao tribunal para os sentenciar com a pena capital! Tendo sido cumprida essa vontade a 11 dos 14 réus. O Pravda, qual tabloide dos dias de hoje, seguiu diariamente o julgamento, realçando o carácter sionista, nacionalista e burguês da conspiração.

A partir deste momento, seguiu-se uma espiral de condenações dos mais destacados membros da comunidade judaica. A 1 de Dezembro de 1952, foram condenados à morte em tribunal militar especial em Kiev, três judeus acusados de “destruição contra-revolucionária”.

Já desde o Outono de 1952 que Estaline mandara reunir provas de que se desenvolvia uma cabala internacional que visava por intermédio de médicos ao serviço do imperialismo, a liquidação dos principais dirigentes políticos e militares soviéticos, naturalmente com ênfase nele próprio. Considerando que muitos desses médicos eram judeus, rapidamente a repressão se transformou numa perseguição anti-semita. O seu próprio médico, V. Vinogradov se viu arrastado nesta convulsão, sendo detido e severamente seviciado para o “ajudar” a confessar os seus crimes e cúmplices.

A paranóia atingiu proporções tais que se estabeleceu a convicção geral de que tudo se encaminhava para uma gigantesca purga e deportação em massa de judeus para as profundezas da Sibéria.

Protegido por um segredo granítico, nunca saberemos quantos foram exactamente os judeus vítimas da repressão soviética, pelo simples facto de serem judeus, mas sabemos que muitos, como Golda Meir que emigrou para a Palestina em 1921, tiveram de abandonar a sua terra ancestral para salvar a vida.

O sonho de uma pátria judaica no país dos sovietes, acabou como todas as restantes experiências sociais soviéticas. Uma catástrofe humana só com paralelo na barbárie nazi

[1] “В.И. Ленин, Неизвестные документы. 1891 – 1922 гг” (М.: РОССПЭН, 1999 г., стр. 306-307)