1. Não sei, sinceramente não sei, como chegámos aqui.

A velocidade da mudança talvez nos tenha atordoado. Deixamo-nos estar agarrados ao telemóvel enquanto o Mundo explode em nosso redor, e embora esta frase não passe de uma metáfora é isso mesmo que se passa. O algoritmo do Facebook criado por Mark Zuckerberg, diz um autor, representa a combinação perfeita das distopias opostamente simétricas de Orwell e Huxley. Eu explico, mas podem googlar num instante e terão toda a informação à mão de semear, mesmo que depois a não semeiem.

Facebook e seu novo algoritmo: a distopia total

∑= U2 x W2 x D2. E o que faz este novo algoritmo do Facebook? Escolhe as notícias por nós e escolhe por nós com quem devemos interagir. É o “edge rank”, que no fundo decide aquilo que vamos ver e que combina “Weight”, “Affinity” e “Time Decay” (neste admirável mundo novo o inglês é tudo…), garantindo que as publicações mais partilhadas chegam a mais gente, as de que gosto mais chegam-me mais vezes, as novas chegam-me mais do que as antigas. No final, acedo àquilo que o Facebook quer que eu veja.

Ao mesmo tempo que reduz o acesso a notícias, por essa via, o algoritmo também privilegia o que publicam amigos e família, as “interacções sociais significativas” ou, escreveu num post Zuckerberg no dia 12 deste mês às 0h28m, “ao juntarmos as pessoas, sejam família e amigas, ou importantes momentos no Mundo, asseguramos que o Facebook é tempo bem passado”.

Traduzo: a partir de agora, o Mundo do Big Brother do Ministério da Verdade (mesmo que seja a Verdade da Mentira, vulgo fake news) e o Mundo confortável e colorido do “soma” (uma droga amável) de Huxley juntam-se num só. E isto é apenas o princípio.

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2. Neste admirável Mundo novo, e nunca a expressão foi tão apropriada, somos cada vez mais piões num jogo jogado por outros. Graças às tecnologias, sentimo-nos com direito a ter opinião, a partilhá-la e a sabê-la escutada e transformada em acção concreta em prol dos outros. Sermos, no fundo, parte activa e positiva das políticas públicas. Era bom que fosse assim, mas não é.

Ora se não nos escutam, também aqueles que decidem – por nós – estão cada vez mais afastados de nós. Esse é o busílis da questão da participação popular: à medida que aperta o escrutínio sobre os homens e as mulheres públicos, mais se afastam dessa tarefa os políticos de qualidade, com pouca vontade de ver toda a sua vida exposta na praça pública à velocidade impiedosa (e pouco dada a contraditório) das redes sociais.

Compensá-los não é possível, porque a discussão sobre a remuneração dos políticos é tabu e as mesmas redes sociais, a par da imprensa tabloide, fritam em lume pouco brando quem se atreva a suscitar a questão. E por isso ficamos assim, a assistir impávidos ao empobrecimento da nossa vida pública.

3. E chego ao assunto do dia. A que voltarei as vezes que forem necessárias enquanto tiver essa possibilidade, contra o relativismo sofista para quem toda a verdade é mentira e o oposto igualmente. Refiro-me ao movimento #MeToo.

Um homem acusado de assédio está condenado de antemão. Não interessa se não foi assédio, mas sedução, pois que a confusão está instalada, e vigora o “in dúbio pro” acusador (isto é, quem acusa tem a faca e o queijo na mão). E afinal devia ser muito simples: só assedia quem tem um poder sobre o/a assediado/a e usa esse poder para obter favores ou para o/a coagir a agir contra a sua vontade. Qual é a dificuldade?

Mas há mais. O pormenor insignificante da presunção da inocência, um princípio basilar da nossa civilização. Como já tantas vezes escrevi, hoje em dia um homem acusado de assédio, mesmo de algo que se passou há vinte anos e de que não há qualquer prova senão a palavra da acusadora e que tem contornos, em certos casos, quase risíveis, é necessariamente culpado; pior, é de imediato linchado na praça pública. Se está empregado, é demitido. Se é actor, deixa de ser contratado. Se é realizador, actores anunciam que nunca mais trabalharão com ele. Acusado, condenado, executado, pela via mais fácil: a da Internet e das redes sociais. Dispensem-se pois os tribunais, dispensem-se advogados e juízes, não vale a pena, está formado o novo tribunal da santa inquisição.

E há mais ainda. Um homem que ouse falar, mesmo que nunca tenha assediado ninguém, e acreditem que é o caso da esmagadora maioria dos homens, é de imediato posto no seu lugar, a sua opinião desvalorizada; faz parte de uma espécie (não de um género, parece) – a masculina – que não merece ter voto nessa matéria, que só às mulheres diz respeito. Pela minha parte, peço desculpa, mas tenho voto nessa matéria, nem que seja para criticar os homens que, comprovadamente, em foro judicial, são acusados e condenados legitimamente por assédio ou violação, crimes execrandos.

Já foi dito e bem dito: o movimento #MeToo tem o enorme mérito de fazer sair do armário em que estão guardados há décadas os esqueletos do abuso sexual, que é também abuso de um poder, hierárquico ou meramente físico. Mas não pode servir para condenar inocentes, ainda por cima sem julgamento. É hediondo e o seu valor negativo principal – o de destruir vidas – é potencialmente tão grande como o do assédio.

Violar, assediar, seduzir, dizer um piropo, mesmo que não solicitado, não são a mesma coisa. Já o escrevi há tempos, e repito: sempre que tratarmos uma acção trivial, mesmo que censurável, como um crime grave, estamos a fazer de um crime grave uma acção trivial. Condenem-se Weinsteins e professores de ginástica pedófilos, monstros no nosso seio, com o devido processo judicial, e com todas as garantias que a justiça lhes confere; mas evite-se condenar publicamente acções não provadas, duvidosas, como as de Woody Allen ou Aziz Ansari e a de tantos inocentes, até prova em contrário vítimas desta nova “caça às bruxas”.

4. O que têm estas situações a ver entre si? Tudo. São geradas pela falta de controlo do ser humano sobre a tecnologia por si criada. Que, sem esse controlo, pode causar mais devastação e sofrimento do que a peste.