O terroir, na tradição da geografia francesa, é uma noção complexa e estruturada, geralmente associada ao vinho francês de algumas regiões muito conhecidas. O terroir, como tal, participa na personalidade final do produto vitivinícola como se fosse uma assinatura de cada região produtora. Os elementos fundamentais são o solo, o clima, a altitude, as chuvas, o relevo, as castas utilizadas, mas, também, a ação humana sob a forma de relações familiares e coletivas, de cultura e tradições comuns. Esta é, porém, a aceção tradicional de terroir, uma aceção digamos monocromática.

Hoje em dia, porém, as tecnologias de informação e comunicação (TIC) e a vaga de inteligência e criatividade protagonizada pelas start up da 2ªruralidade colocam-nos a todos muito mais próximos do nosso interior mais profundo e remoto. Está, de resto, em marcha uma revolução silenciosa feita de diversidade e pluralidade de atores, agriculturas e modelos de negócio, em linha com a essencial policromia dos nossos inúmeros microclimas e ambientes agroecológicos, sejam as vinhas, os olivais, os pomares, os hortejos tradicionais, os montados, a policultura ou os mosaicos agro-silvo-pastoris mais variados.

Usando a linguagem própria do setor vitivinícola talvez possamos dizer que “o terroir é um blend, mais do que uma monocasta”. Esse é, também, o caminho que vale a pena trilhar.

Uma nova cartografia, cenografia e coreografia do território

Num país com pouco mais de 200km de largura a “diferença do interior” deve ser vista e procurada como uma vantagem comparativa, um imenso hinterlande com estreitas ligações a uma ou mais áreas metropolitanas. As boas vias de comunicação e as rápidas conexões digitais transformarão as anteriores dicotomias cidade-campo num contínuo verde e agroecológico aberto a muitas experiências inovadoras. É preciso, porém, “mapear as vantagens do interior” e suscitar para elas novos atores, protagonistas e ideias de projeto. Os terroirs fazem parte dessa nova cartografia do interior. Se tudo correr bem, o chamado “Interior” passará a ser, dentro de alguns anos, o nosso “colar de pérolas” mais precioso.

Com efeito, os terroirs “não estão obrigados” a ser apenas a assinatura de um só produto (o terroir monocromático vinhateiro). O universo material e simbólico de uma região contém muitos “sinais distintivos territoriais”, muitos deles ocultos ou ignorados. É a perceção de uma certa iconografia regional que irá revolucionar o conceito de terroir tal como ele é habitualmente entendido. Precisamos, pois, de investir mais na delimitação e identificação desses sinais distintivos e de conceber, a partir deles, uma grelha de leitura do território que alimente a diversidade e pluralidade do terroir policromático.

A ideia-base do terroir policromático não é apenas o produto denominado ou o nicho de mercado, mas, sobretudo, o terroir como marca e lugar de destino. A sub-região do vinho verde de Monção e Melgaço, a sub-região de Dão e Lafões, a sub-região do Alto Alentejo vinhateiro são apenas alguns exemplos que fazem bem a combinação com outros mosaicos agroecológicos e agroculturais presentes no território.

Com base nessa policromia não será difícil, então, construir uma iconografia a partir dos ícones e referenciais simbólicos presentes no mundo rural, pois eles são abundantes. Eis apenas alguns exemplos retirados desse universo referencial e que, no seu conjunto, compõem o ambiente inspirador do terroir: a espiritualidade e o génio do lugar, a inspiração transbordante da natureza, o sentido religioso do recolhimento, a beleza de um quadro pictórico, o encantamento de uma paisagem literária, o santuário e lugar de peregrinação, os mistérios da vida natural, enfim, a nostalgia da vida simples do campo.  Os territórios inteligentes e criativos do futuro terão aqui matéria-prima suficiente para trabalhar e produzir novos conteúdos criativos e culturais.

Os sinais distintivos territoriais e a sua especial iconografia abrem-nos a porta para a inteligência emocional de um território, a sua cartografia emocional, o mesmo é dizer, para diferentes cenografias e coreografias do território. Em particular, o naturalismo romântico do nosso rural profundo será um trunfo e um ativo preciosos. Não será apenas a agricultura de precisão com os seus agribots, será, também, uma “agrocultura emocional” que chegará com os neorurais de origem urbana, muitos deles jovens em busca de novas experiências sensíveis. Por exemplo, a nossa relação com o clima e os recursos naturais, as novas formas de produzir e cozinhar alimentos, as inúmeras experiências de economia circular e hipocarbónica, os múltiplos formatos de turismo rural, serão um blend territorial muito tentador. Em especial, as start-up da economia digital da 2ª ruralidade, sobretudo as empresas de energias renováveis, do marketing digital, publicidade e animação turística, aproveitarão a oportunidade e tomarão o mundo rural como um décor para as suas próximas incursões e representações. O mundo rural e o campo tornar-se-ão uma espécie de cenário natural para as produções low cost da cibercultura mais variada.

Com um novo décor e novos atores e protagonistas teremos, seguramente, uma outra coreografia também. Ao lado do capitalismo puro e duro, que permanecerá, teremos, cada vez mais, uma economia colaborativa que tornará o capitalismo mais popular e genuíno, no sentido próprio dos termos. Formar-se-ão territórios-rede e atores-rede onde o capital social será tão ou mais decisivo que o capital financeiro. A coreografia política e social será mais complexa e muito diferente da atual, uma vez que a economia colaborativa interpares, com mais inteligência coletiva e solidariedade social, tomará, de forma gradual, o lugar da economia mais extrativa e predadora.

A título de exemplo, e para ilustrar a inteligência emocional de um território-desejado, trago aqui os “dez mandamentos dos jardins do paraíso”, tal como foram enunciados pelo arquiteto Gonçalo Ribeiro Telles. Lembremos, então, essa verdadeira poesia da natureza:

  • Em primeiro lugar, aposte na “sublimação do lugar” tornando-o ameno e feliz.
  • Em segundo lugar, invista na “presença da água”, na sua serenidade estética que confere um movimento ritmado e uma dinâmica musical ao jardim.
  • Em terceiro lugar, invista em espécies que sublinhem a “pujança da natureza e a sua diversidade biológica” e que enaltecem o ritmo da vida.
  • Em quarto lugar, tire partido da “luminosidade natural dos espaços”, o esplendor da luz é conseguido através do contraste sombra-claridade e da harmonia das cores.
  • Em quinto lugar, deixe-se influenciar pela “geometria e a profundidade das perspetivas”, o recorte dos sucessivos planos valoriza distâncias e formas.
  • Em sexto lugar, promova a “integração do jardim na paisagem envolvente” sempre que esta seja ordenada e bela.
  • Em sétimo lugar, aceite a “ordem natural como base da conceção do jardim”, ou seja, deixe-se inspirar pela ordem da natureza.
  • Em oitavo lugar, valorize os “aspetos culturais da paisagem”, pois a ordem cultural é a ordem da humanidade.
  • Em nono lugar, evite os excessos e exalte a” simplicidade no ordenamento das coisas”, não faça decoração pela decoração, ou seja, decorativismo.
  • Em décimo lugar, um jardim e uma paisagem são fruto de conceções e projetos e nunca de arranjos ou decorações, pelo que a sua “grandeza e beleza decorre do que lhes é essencial na medida certa”.

A eloquência e a elegância destes princípios falam por si. Percebe-se agora melhor o “mar de vinha”, as “amendoeiras floridas”, o “campo de oliveiras”, o bosquete multifuncional e a razão pela qual os conceitos de paisagem global e unidade de paisagem presidem à sua conceção do ordenamento e dos sistemas de produção. Ou seja, com Gonçalo Ribeiro Telles o fator ecológico, o fator produção e o fator cultura nunca estão compartimentados em “silos administrativos” e reclamam, por isso, uma outra conceção da política administrativa e da administração da política. Tão simples como isso.

Uma plataforma colaborativa e um ator-rede para gerir o terroir

Os terroirs, pela sua própria natureza, são uma construção longa e delicada, uma verdadeira filigrana sociocultural, cuja permanência depende muito do capital social e da reputação que for possível reunir à sua volta. Para manter essa reputação já não chega o valor que lhe é transmitido pela imagem de marca do produto original, quantas vezes capturada por uma turistificação precipitada do território. Para manter o bom senso e o bom gosto em redor do terroir e reinventar o universo simbólico dos seus sinais distintivos territoriais, a região “estará obrigada” a escolher os seus embaixadores mais representativos e reputados, os seus rostos de maior distinção, os seus cuidadores.

Os terroirs serão uma espécie de “cereja em cima do bolo”. Esta será a principal tarefa do próximo futuro, a criação de uma inteligência coletiva territorial capaz de enquadrar o rural profundo. Não tenho dúvidas, haverá mais campo na cidade e mais cidade no campo. Desde a agricultura vertical na cidade, à agricultura acompanhada pela comunidade, às novas agriculturas periurbanas, à agricultura de precisão e às agriculturas de nicho, será cada vez mais um corredor verde e um continuum ecológico ao longo de 200 km de penetração pelo interior. Nesses corredores verdes os terroirs serão o ecossistema de que todos nos orgulhamos, o ex libris da região do ponto de vista paisagístico, o blend mais reputado do território e uma verdadeira atração para os neorurais que chegarão curiosos para ocupar o interior do país, que se tornará a prazo, quem diria, um interior verdadeiramente cosmopolita.

O terroir é, geralmente, um território auto-regulado, uma governação tacitamente colaborativa tecida ao longo de muitos anos. Todavia, para esta nova fase mais cosmopolita e imaginativa, o terroir precisará de se constituir em território-rede policromático animado por um pivot que nós designamos de ator-rede. O ator-rede é, digamos, o mestre de cerimónias do terroir que funciona segundo uma lógica de curadoria do território. Assim, como já dissemos, entre as suas tarefas contam-se: a eleição e promoção dos sinais distintivos territoriais, a construção da sua narrativa iconográfica e os cenários da sua representação (que melhor polinizam o território), o mapeamento dos nichos ecológicos e seus habitats, o mapa gravitacional dos atores locais e regionais e o grau de conectividade do terroir em função da sua estratégia operacional.

Os territórios mais remotos e hostis serão um desafio à imaginação tecnológica e digital e aguardamos, a todo o tempo, que as universidades, os centros de investigação, as associações setoriais e as start-up mais ousadas promovam a constituição de atores-rede dos terroirs e sejam capazes de nos trazer novidades na forma de ocupar estes territórios. Progressivamente, os terroirs do nosso mundo rural deixarão de ser espaços-produção para serem, cada vez mais, espaços-produzidos, se quisermos, territórios de destino e visitação. O marketing digital irá forjar uma imagem de marca cheia de glamour (e pastiche), os novos embaixadores farão a boa publicidade do place branding, a chegada de muitos neorurais talentosos revolucionará os tradicionais terroirs de produção.

Agora que se fala tanto em turismo e em turistificação, agora que o ciclo está na fase ascendente, este é o momento certo para enfatizar dois temas fundamentais intimamente ligados: por um lado, sublinhar a distinção paisagística na configuração dos recursos imateriais, da memória, do imaginário e do património cultural, por outro lado, relevar e prevenir o risco de exploração intensiva desses recursos sensíveis, geralmente de frágil constituição. Não queremos simplificar o problema, tudo precisa de bom senso e bom gosto, tudo merece ser feito com conta, peso e medida. Enfim, um terroir escolhido de acordo com o conceito de território-rede, um ator-rede como pivot desse território e uma plataforma colaborativa como instrumento de gestão e conexão de “todos os amigos do projeto”, eis a receita que está ao nosso alcance.

Turistificação e proteção dos terroirs

Por uma espécie de efeito paradoxal, ou talvez não, os rurais aspiram aos valores urbanos e os citadinos sonham com o imaginário bucólico do campo. O campo é um território pleno de representações e quanto menos gente lá habita maior é o seu mistério e a sua nostalgia. Estas representações estão, porém, em vias de se converterem em procuras solventes e comerciais, ou seja, em produtos turísticos. Estamos, portanto, num momento crucial, olhando para o nosso rural tardio e cada vez mais próximos de cortar o cordão umbilical que ligou, durante gerações, a memória e o imaginário da cultura campesina que podia ser observada in situ através de uma ordeira passagem de testemunho feita de “tradição, coração e oração”. Agora, porém, trata-se de “experienciação e emoções rápidas e furtivas”, e não se descortina, ainda, quem possa assegurar a passagem do testemunho sem sobressalto. Se não o fizermos com prudência e sabedoria a turistificação mercantil do território tomará conta da ocorrência.

É aqui que entram os terroirs tal como os enunciámos e este é um ponto essencial na trajetória do mundo rural de amanhã. Perante a gravidade das alterações climáticas, não há preservação da cultura da memória e do imaginário sem a formação de regiões biogeográficas que se distingam, justamente, pela composição de paisagem, produção agroecológica e gestão da biodiversidade. As paisagens tradicionais dos terroirs formaram-se tendo em consideração as características biofísicas do território e a necessidade de obter produtos essenciais às populações, segundo a maneira própria de cada comunidade entender a vida e o mundo. As paisagens tradicionais são, pois, um ato de criação, a marca de um povo, a memória de um país, que hoje se prolongam no plano das artes, da contemplação e da poesia.

Porém, com a vertigem do quotidiano e a velocidade da deslocação, o arco-íris das paisagens tradicionais tornou-se cada vez mais monocromático, um ponto no horizonte igual a tantos outros. Esta dissociação entre a vida e o trabalho, entre a história longa e a história curta, interessa à indústria turística. As paisagens tradicionais são “embelezadas paisagisticamente” para serem consumidas como produtos turísticos. Podem, mesmo, ser replicadas algures. Para o sucesso desta operação é conveniente que sejamos “aliviados” da nossa própria memória histórico-familiar, porque quase todos nós construímos a trajetória de vida a partir das nossas origens agro-rurais. Se for comercialmente rentável, a turistificação tomará a seu cargo a tarefa de clonar as paisagens tradicionais do país lá onde for necessário. Por esta via, que apaga e dissipa as nossas memórias, garante-se a modernização e o progresso!

Num tempo de “turismo total” não é apenas a gentrificação das vilas e cidades que nos deve preocupar, é, também, a ludificação excessiva e, sobretudo, o critério e o modo como dispomos e usamos recursos escassos como a água, o solo e a vegetação, no fundo a paisagem global que nos acolhe. Não simplifiquemos, pois. Todos nós somos, cada um à sua maneira, cuidadores da paisagem. Mas não nos iludamos. Há uma literacia própria da paisagem, que necessita de ser convenientemente abordada, sob pena de a nossa perceção da paisagem ser um crime de lesa-pátria e um mau serviço prestado ao país.

Nota Final

Estamos numa verdadeira encruzilhada. Por um lado, a transição climática e a transição produtiva precisam de tempo para se consolidarem, por outro, os recursos da memória e do imaginário são facilmente mercantilizados pelo processo de turistificação com o apoio dos suportes digitais. É imperioso que os dois movimentos convirjam na boa direção. Será isso possível?

A terminar, deixo uma sugestão. Visite as “montanhas mágicas” das serras da Freita, Arada, Arestal e Montemuro e celebre o seu imaginário tão especial. Proponho que observe a sua distinção paisagística, a serenidade das suas linhas de água, as gravuras rupestres de arte atlântica, os seus santuários e igrejas, deixe-se encantar pela sublimação do lugar, o esplendor da luz e a geometria das formas, inspire-se na simplicidade e na harmonia da ordem natural das coisas. E terá chegado a um verdadeiro jardim do paraíso. Um genuíno terroir de eleição.

Universidade do Algarve