É óbvio que deixar o país aberto no Natal e no Ano Novo é mau. É óbvio que as parcerias com hospitais privados deveriam ter começado há meses para evitar a exaustão do sector público. É óbvio que deixar escolas abertas durante o pico de uma pandemia é incompreensível. É óbvio que fazer eleições no Inverno em tempos de Covid é inaceitável. No entanto, ao contrário do que acontece noutros países, o óbvio só aparece no horizonte da política portuguesa depois de consumado o desastre (Titanic anyone?).

É alarmante ouvir a leveza com que políticos afirmam, em janeiro, que se soubessem do impacto das exceções em período natalício não as teriam autorizado. É como dizer todas as sextas-feitas, às 21 horas, que se eu soubesse os números do euromilhões teria apostado neles. A única diferença é que eu aposto 2,50 euros, enquanto que os governantes apostaram a vida de milhares de portugueses. E da mesma maneira que se podem elogiar as decisões tomadas em março do ano passado, é preciso afirmar, sem quaisquer dúvidas: a atual situação de Portugal deve-se à incapacidade do Governo de tomar e comunicar decisões na altura devida. Mais constrangedor, é perceber que Portugal foi dos poucos países que não percebeu o impacto positivo que as suas ações tiveram no início da pandemia. A Alemanha, que percentualmente nunca atingiu os valores de Portugal em número de infetados na segunda vaga, anunciou em novembro um confinamento parcial, que ficou mais restrito em dezembro e foi agora prolongado até meio de fevereiro. A comunicação governamental e local foi clara, as regras e restrições compreensíveis, com um número mínimo de exceções.

Agora que, obviamente, estamos no topo dos piores do mundo, temos um sistema social em colapso. O nosso sistema de saúde, esgotado de recursos humanos e materiais, luta uma batalha inglória. Com a classe política a ter de responder pelo impacto das suas decisões – não só pelos óbitos Covid, mas também pelos milhares de Portugueses que estão a falecer pelo encerramento de todas as atividades médicas não relacionadas com a pandemia. As escolas estão abertas, fechadas, abertas, fechadas (depende do dia em que este artigo é publicado) e o impacto na educação é imprevisível, principalmente nos estudantes com capacidade financeira mais reduzida. Todos (mesmo todos!) estes desastres poderiam ter sido evitados com um Natal e Ano Novo passado em confinamento.

Curiosamente, os nossos governantes acharam que ainda faltava a cereja no bolo e saíram-se com uma ideia digna de um prémio Darwin: que tal ignorar a situação atual e manter as eleições presidenciais? Afinal de contas, o que realmente precisamos é de colocar as pessoas nas ruas, a deslocarem-se em transportes públicos, a esperarem em filas para exercerem o seu direito de voto para um cargo político cuja votação, por hábito, tem elevados níveis de abstenção.

É óbvio que durante os próximos dias e semanas, milhares de portugueses vão morrer. É óbvio que o relaxamento no Natal e Ano Novo não compensam o sofrimento de milhares de famílias que terão o seu 2021 marcado pela perda de uma pessoa amada. É óbvio que esta realidade poderia ter sido evitada. É óbvio que todos os políticos (Governo e oposição) têm responsabilidade direta no sofrimento dos Portugueses.

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