Mesmo que Luís Filipe Vieira não fosse suspeito no caso “Saco Azul”, o Primeiro-Ministro e o presidente da Câmara de Lisboa não deveriam fazer parte da comissão de honra da sua candidatura à liderança do Benfica. O titular de um cargo político não deve ter, nem manifestar, preferências. Sejam estas futebolísticas ou pessoais. Um Presidente da República não é mais nada além de Presidente da República. Um Primeiro-Ministro é Primeiro-Ministro e ponto. O mesmo se passa com o presidente de uma autarquia. Ora, para que isto aconteça é necessário que suceda uma de duas: ou que sejamos cidadãos exemplares e sem falhas, santos, ou que não existam tentações, ou seja, não haja interesse em misturar política com negócios, neste caso específico política com futebol. Basicamente, que a política se cinja à governação do Estado e não mais que isso. Precisamente o que a maioria do país não quer.

Como a maioria aceita que a política interfira nos negócios e porque não somos santos, mas pessoas normais, só restam os apelos ao bom-senso de cada um ou a um Estado fiscalizador. O primeiro é cada vez mais escasso; o último daria azo a mais intromissão, mais promiscuidade e a mais corrupção. A um Estado com um pendor policial. E isso, a maioria também não quer. Ou, pelo menos, espero que assim seja.

É claro que choca que um Primeiro-Ministro e um presidente de câmara façam parte de uma comissão de honra de alguém que é arguido. Dá azo a dúvidas e a perguntas perfeitamente legítimas. Por que razão António Costa e Fernando Medina querem estar na comissão de honra de  um arguido? A resposta talvez exija da parte da comunicação social uma investigação jornalística exaustiva e imparcial. Até lá, duvida-se e a dúvida é lamentável porque desprestigia os cargos em causa e as pessoas que os exercem.

No seu espaço na TVI24 (porque além de presidente da Câmara, Medina também é comentador político) Fernando Medina disse não perceber a razão para tanta celeuma com este assunto quando há 4 anos também fez parte da mesma comissão e ninguém disse nada. Tirando a irrelevância do argumento, o que Medina nos diz é verdade: a promiscuidade sempre existiu e ninguém se importou. Porquê agora? Medina finge que não tem significado que o presidente do Benfica não fosse arguido há quatro anos, mas a pergunta fere-nos porque é verdadeira. Se, como referi no primeiro parágrafo deste texto, nem o presidente de uma câmara municipal, nem um Primeiro-Ministro devem fazer parte de uma lista de apoio à candidatura de alguém à liderança de um clube de futebol, por que motivo ninguém disse nada na altura? A resposta é simples e Medina conhece-a. Ele sabe que para a maior parte das pessoas o assunto não é importante. Pior: sabe que para a maior parte das pessoas até é bom que um presidente de câmara tenha boas ligações com o clube de futebol da cidade. Essa ligação, ou promiscuidade, dá garantias de um apoio institucional que, por vezes, vai muito além disso. Boa parte da população sabe disto, não se importa se o seu clube é beneficiado, tal como não se importa muito quando é prejudicado, porque a maré política pode mudar. Basta reivindicar já, que numa democracia socialista quem reivindica mais alto ganha.

Não sou dos que lamentam que o futebol se tenham tornado num negócio. Os negócios fazem parte da vida e só se tornam maus se existirem outros interesses imediatos que não o dinheiro. O problema é que, quando a política entra no jogo traz consigo outras equações. E quando vemos políticos em clubes de futebol sabemos que a política se tornou em muito mais que a luta pela governação do Estado e a gestão da causa pública. Há políticos no futebol e nos negócios, porque os políticos têm poder decisório nestas matérias. São políticos que em vez de limitarem e controlarem o poder, usam-no e expandem-no para o poderem usar ainda mais.

Se não decidirmos que o Estado não se deve imiscuir nos negócios privados e tem de ficar longe do futebol, vamos assistir a mais situações como esta. Vivemos uma realidade em que o fim da promiscuidade tem como preço o fim do socialismo. Preço, para muitos cidadãos, demasiado elevado para que possa ser assumido de ânimo leve. Entretanto, mais vale deixar a tão badalada promiscuidade em paz, que a consciência se limpa com uma indignação momentânea que, uma vez por outra, assola o país com fingido espanto.