Não, não vamos falar do coronavírus. Porque esse, nem o conseguimos ver. Mas da nossa janela conseguimos ver a primavera lá fora. Conseguimos ver a chuva forte, o sol que brilha. Brilha solto, ou rompe as nuvens para se fazer sentir. Vemos também as árvores, de repente vestidas de copas frondosas de onde saem os chilreios dos pássaros que chegam. Transformações que são a marca do tempo de primavera. A  esperança sempre presente, a qual para a fenomenologia é a “espera com ânsia”… e acrescentamos nós: a espera com ânsia ou anseio (“ansiedade boa”) de chegarmos aos nossos desejos, objetivos, sonhos por concretizar.

Fomos obrigados a isolar-nos nesta Primavera. Por imposições externas do nosso governo e por imposições internas dos nossos medos transformámo-nos em prisioneiros domiciliários. Mas uns prisioneiros peculiares, porque habitualmente o prisioneiro conhece bem o rosto do seu carrasco. Nós não. O nosso carrasco tem um rosto invisível. Sem um carrasco com rosto, confinados e desprovidos de capacidade de agir sobre esse inimigo, ficamos reféns das sombras mais escuras de dentro de nós. Que nos habitam e que fazem parte da nossa condição humana.

E a Primavera lá fora. Linda, enérgica, instável. Quando olhamos, não encontramos ameaça, prédios destruídos ou paisagens devastadas que possam receber todas estas sombras que nos habitam. Então essas sombras cá dentro crescem, adensam-se confinadas em nós. Ainda mais porque o tempo presente, subtraído do bulício do dia-a-dia que, tal como os raios de sol injeta luz na escuridão, está parado, travado, também ele confinado. Tendemos então, neste confinamento, à imobilidade e à inércia do tempo vivido. Adiamos os nossos desejos e sonhos para um tempo que ainda não sabemos quando irá chegar.

Há um sopro de morte no tempo presente deste nosso confinamento. Nesta Primavera, o vento boreal traz-nos um sopro de morte. E o mais perigoso é a doçura que um sopro de morte pode ter. A doçura de tudo parar. Por vezes é a única solução que o nosso sentir encontra face ao aumentar da ansiedade. Ansiedade que vem do mundo externo, mas que não a conseguimos descarregar de volta e que então opera dentro de nós  num destapar de memórias emocionais e angústias antigas que muitas vezes não nos passam pela consciência, não têm imagem nem nome. E talvez por isso estejam a ser tão faladas nos meios de comunicação social as consequências psicológicas deste confinamento, pela viagem solitária que nos impõe ao nosso mundo interno. A este propósito, podemos perguntar o que dizem esses referidos sintomas (Depressão, Ansiedade, Irriabilidade, Insónia, diminuição do Apetite, entre outros) sobre a pessoa em particular, sobre o seu contexto e origem de aparecimento? Ou seja, o que é que a pessoa em particular está a tentar comunicar através do significado simbólico veiculado pelo sintoma? Ou ainda, que pedido de ajuda está latente no conteúdo do sintoma? Por outras palavras, a pessoa singular aparece diluída em sintomas gerais que de particular quanto a estes aspetos pouco parecem ter…e o que dizer acerca de outros sintomas que não têm sido tão falados, como por exemplo a Abulia? Esta caracteriza-se por uma dificuldade em sequer conseguir imaginar iniciar uma tarefa ou objetivo. Num tempo de Pandemia em que a sociedade pouco está a “Bulir” (nas palavras do povo) é no mínimo curioso este sintoma não estar na linha da frente do discurso psicopatológico…Talvez uma boa forma de bulirmos individualmente é tentar encontrar dentro de cada um de nós  os afetos que formam o ponto de partida aglutinador para esses sintomas tão diferentes que parecem querer reduzir-nos à impessoalidade…Porquê então deixarmo-nos fixar nesta impessoalidade, permanecendo “cegos” sobre os nossos verdadeiros problemas? Porque não concentrar todos os raios de luz na observação dos pontos mais importantes que o excesso de informação não deixa ver?

E agora como fazer o caminho de volta? Como regressar à vida, com todas essas ansiedades bem despertas, bem vivas em nós mas que não têm nome nem imagem? Talvez fazendo o que se faz na primavera – desconfinando e renascendo. Confiando que podemos conhecer esse carrasco, dar-lhe um nome, dar-lhe um rosto e confiná-lo em algum lugar dentro de nós.

Então se esta primavera trouxe consigo uma oportunidade para as nossas angústias nos invadirem, pode trazer também uma oportunidade de crescermos para além delas. Isto porque ao sermos invadidos podemos, com a ajuda de um processo psicoterapêutico, conhecer o rosto do nosso inimigo e transformarmo-nos de modo a criar um lugar dentro de nós para mantê-lo confinado. E podemos viver livres das grilhetas desse inimigo invisível. Isto é, a Psicoterapia poderá descobrir e ajudar a compreender qual é afinal o verdadeiro inimigo. E muito provavelmente, não será o vírus invisível do momento mas sim as questões que este terá ajudado a trazer à superfície do psiquismo. Consideramos que esta é uma das formas possíveis de, a partir do isolamento, conseguirmos chegar à solidão. Por solidão, entendemos aqui o estarmos em harmonioso contacto com as nossas partes mais saudáveis. Esta é a definição de solidão para os filósofos gregos, segundo os quais a solidão poderá ser uma coisa boa, ao contrário do isolamento que nos poderá alienar. Porventura, o acesso à nossa solidão pessoal será uma forma inteligente de virmos a conhecer qual é afinal o rosto do nosso carrasco. Pois de outra forma, então todos reagiríamos da mesma forma ao isolamento imposto pelo confinamento.

Tudo depende do ângulo com que nos dispomos a observar. Não observar objectivamente não implica que o carrasco lá não esteja. Talvez seja importante observar com a nossa sensibilidade individual mas sempre na relação com o outro. É na intersubjetividade que nós descobrimos e redescobrimos os carrascos conhecidos e desconhecidos, internos e externos, do presente e do passado. É nos momentos de dificuldade que mais e melhor costumamos crescer em termos psíquicos. Pois é nesses momentos que percecionamos melhor as nossas áreas mais vulneráveis, mas também aquelas onde estão alojadas grandes fontes de resiliência e auto-afirmação.

Face ao outro inimigo invisível (do qual não falámos aqui) mantemos as máscaras, a etiqueta respiratória e as medidas de higiene – até que aqueles que o conseguem ver encontrem uma solução que nos torne fisicamente mais fortes. Para os inimigos mais internos será melhor entrarmos em contacto mais intimo e harmonioso com as nossas emoções. Até porque são estas que nos colocam em contacto com os outros seres humanos. Seja o contacto real ou fantasiado/projetado no futuro, ou ainda, sob a forma de memória emocional que recordamos, é esta travessia entre memórias e desejos que constitui o ser humano. Porque superarmo-nos é a nossa natureza – a Natureza Humana.