Nestes dias assisti a uma série de críticas à campanha da Dodot que assinalava o Dia Mundial do Prematuro e na qual esta empresa se dispunha a doar uma quantidade de fraldas para prematuros, mediante as partilhas de um vídeo.

Felizmente, o número de partilhas é francamente maior do que os críticos mas, ainda assim, devido a algum alcance social que alguns dos críticos tiveram, achei por bem dar a minha opinião.

Jamais teria a ousadia de pronunciar-me sobre este tema, não fosse pelo facto de ter sido recentemente pai de duas bebés que nasceram prematuras – na semana 30 de gestação – e que, como tal, tiveram de estar mais de um mês internadas numa unidade de Neonatologia, primeiro nos cuidados intensivos e, posteriormente, nos cuidados intermédios.

Eu e a minha mulher, tal como a maioria da população, sabíamos da existência da prematuridade e da maior probabilidade de que as minhas filhas nascessem prematuras por serem gémeas.

No entanto, havia uma série de coisas que não sabíamos. Não sabíamos ao certo da incidência de casos, não sabíamos os riscos que supunha para os bebés, não sabíamos que a prematuridade supõe termos de ensinar o nosso bebé a aprender coisas tão simples como o chuchar, já que é um reflexo que apenas se aprende a partir da semana 32 na barriga da mãe e que isso supõe que têm que ter uma sonda (tubo) enfiado pelo nariz até ao estômago.

Não sabíamos o que era um bebé de 1,2 quilos nem uma incubadora. Nunca tínhamos visto.

Não sabíamos que teriam de ter auxilio respiratório, não sabíamos que teriam de fazer, diariamente, uma série de análises e que, sendo tão intrusivas, não sabíamos que quando tocássemos nas nossas filhas, elas teriam reflexos de pânico e medo e que isso demoraria a passar.

Não sabíamos que iríamos estar numa sala com outros bebés e com os respetivos pais, com choros e alarmes constantes.

Não sabíamos que a única interacção que teríamos com elas, devido ao seu tamanho, era o chamado pele-com-pele, nem dos benefícios que nos dizem que esta prática tem. Não sabíamos que não nos aconselhavam a estar 24 horas junto das nossas filhas, para que pudéssemos descansar, e que nem havia condições para que estivéssemos. Não sabíamos do sentimento de culpa com que todos os dias saíamos do hospital.

Não sabíamos que tínhamos tido amigos que tinham passado por situações semelhantes e que poderíamos ter estado mais atentos, mais presentes, mais solidários.

O vídeo/campanha da Dodot – independentemente da doação em si – conseguiu mostrar uma parte desta realidade que vivemos durante 38 dias. Conseguiu-o, ainda por cima, de uma forma que pode ser impressionante, mas que mostra a realidade tal como ela é. Conseguiu mostrar que é preciso estofo, que é preciso ser positivo e, principalmente, que é preciso amor para enfrentar uma situação assim. Para nós, só por esta razão, o vídeo já seria positivo.

Certamente houve outros vídeos, outros textos, outras partilhas, até por parte de associações que têm como missão divulgar esta realidade, preparar os futuros pais e apoiar os pais de recém-nascidos. Duvido que com o mesmo alcance que esta campanha teve.

Ficar indignado com o facto de esta ser uma empresa que vende fraldas, ou por doar o que alguns acham não ser suficiente, é não perceber que esta campanha vai mais além do que esses 10 mil euros.

Se a Dodot destina mais ou menos receitas a iniciativas como esta, não nos cabe a nós julgar, além de quando vamos ao supermercado e escolhemos se compramos desta marca ou de outra. Felizmente, vivemos num país em que temos esta liberdade de escolha.

Gostaria de ter visto esta campanha antes que tivessem nascido as minhas filhas. Mostrarei este vídeo a qualquer futuro pai e mãe que tenha uma gravidez com risco de prematuridade.

Como pais de prematuras, obrigado Dodot e obrigado à empresa que concebeu está campanha de marketing. Espero que continuem a apoiar esta causa.

Aos que quiserem saber mais sobre este tema e como ajudar, proponho que visitem o site da XXS – Associação Portuguesa de Apoio ao Bebé Prematuro.

Aos que ainda não viram a campanha podem ir ao Instagram da Dodot.

P.S.: Não tenho nenhuma relação com a Dodot nem qualquer ligação à XXS.