Tem acesso livre a todos os artigos do Observador por ser nosso assinante.

Abrimos uma caixa de comprimidos e lemos o papelinho que vem lá dentro. É um catálogo de monstruosidades, cataclismos e tragédias. A ingestão da maior parte dessas coisas pode fazer uma máquina agrícola chocar com um coágulo e matar várias crianças, ou torná-las insusceptíveis de aleitar outras pessoas. A palavra crucial é ‘pode’. O Senhor Remédio, apesar de saber química, nunca se arrisca por escrito a usar o futuro do indicativo mais simples. Os papelinhos dos remédios informam-nos de que certas coisas podem acontecer. No entanto nunca nos é anunciado que pode aparecer um anjo, ou que pode cair granizo. É antes presumido um nexo entre a ingestão do produto e uma classe de acontecimentos que se tornam mais prováveis após essa ingestão.

A descrição daquilo que pode acontecer é todavia nesses papelinhos quase sem excepção a descrição de factos desagradáveis. Não nos é quase nunca prometido que um comprimido possa fazer desaparecer uma dor nas costas; e nenhum papel perde muito tempo com o nosso alívio, mesmo apenas possível. Pelo contrário, são-nos anunciadas caracteristicamente as probabilidades que menos nos convêm. Há sempre um tom distintivo de ameaça no anúncio dessas possibilidades.

Não pode ser uma manobra publicitária. A nenhum publicitário normal ocorreria anunciar os seus carros e as suas margarinas através de considerações estocásticas sobre explosões, desgraças, ou amputações. Ao contrário dos carros e das margarinas, no caso dos papelinhos dos remédios o Sr. Remédio sabe que a única publicidade é a ansiedade de quem os compra. Pode assim descrever com demora uma galeria de tragédias possíveis sem que tal afecte a motivação de quem vai comprar o remédio.

O género ominoso faz parte do hábito generalizado a que se costuma chamar protecção do consumidor. É o tom de quem fornece informações que visam moderar a vontade de consumir certos produtos; e essas informações fazem frequentemente apelo a uma classe de acontecimentos possíveis ou prováveis. A ideia subjacente não é apenas a de que uma escolha baseada em informações é uma escolha mais racional que uma escolha baseada em impulsos; é a de que existe qualquer coisa moralmente repreensível na noção de escolha e na noção de consumo.

A psicologia da protecção do consumidor é primitiva: e não apenas porque as razões para não fazer uma escolha são muitas vezes elaboradas por quem já se arrependeu das escolhas que fez; ou porque as razões para a fazer são predicadas em conhecimentos que quem as faz não pode concebivelmente ter; mas também porque visa eliminar o facto ineliminável de haver escolhas. Exprime assim relutância em imaginar um mundo cheio de impulsos, contradições e riscos; e um mundo em que há muita coisa que não depende de nós; um mundo em que nem sempre estamos em posição de medir todas as consequências das nossas acções.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR