A destruição e as mortes causadas pela guerra na Ucrânia são largamente noticiadas e comentadas. São de longe o lado mais chocante da guerra. Mas há também outras implicações que vão sobreviver ao fim da guerra e que mudarão aspectos importantes da economia europeia e global para sempre.

Nunca qualquer outro país sofreu tantas sanções como a Rússia desde que começou a invasão militar à Ucrânia. Neste momento, as sanções contra a Rússia ultrapassam o valor total das sanções impostas ao Irão, à Coreia do Norte e à Síria (os três países mais sancionados depois da Rússia). Não admira que, de acordo com dados recentes, as exportações de países ocidentais para a Rússia tenham descido 60% desde o início das sanções.

O que já é surpreendente é que as exportações para a Rússia dos países que não impuseram sanções também tenham baixado significativamente, cerca de 40%, com a China a liderar a queda nas vendas de bens aos russos. Podemos tirar duas conclusões destes dados. Em primeiro lugar, as sanções não travam a guerra, mas têm impacto na economia russa. Em segundo lugar, a China valoriza as suas relações económicas com o Ocidente quase tanto como a sua aliança política com Moscovo. A atitude chinesa não espanta visto que a economia russa não está sequer entre as dez maiores do mundo (o seu PIB é semelhante ao holandês, que tem 10% da população da Rússia). Estes dados também sugerem que o famoso “decoupling” entre a China e o Ocidente poderá ser apenas parcial, e não total.

Os sectores mais afectados pela guerra na Ucrânia são os recursos naturais. Os países da União Europeia vão deixar de comprar petróleo e gás à Rússia. Será uma questão de tempo. O fim da compra de petróleo russo chegará mais depressa. No fim do ano, a importação de petróleo russo pela Europa baixará 90%. Apenas a Eslováquia, a Hungria, a República Checa continuarão a comprar petróleo russo em 2023, e apenas até encontrarem outras soluções.

Será mais difícil e demorado acabar com a dependência do gás russo. De qualquer modo, as importações da Rússia também diminuíram bastante desde o início da guerra. Por exemplo, a Alemanha comprava cerca de 40% do gás que consumia da Rússia, e agora importa metade, cerca de 20%. Simultaneamente, estão a aumentar as importações de gás dos Estados Unidos e do Catar. O plano da União Europeia, aceite pelos estados membros, é deixar de comprar gás russo em 2030. Será uma transição penosa e com elevados custos económicos e sociais, mas vai acontecer. Os alemães já decidiram, e normalmente cumprem o que decidem, mesmo pagando custos económicos elevados.

A Rússia terá que encontrar novos mercados para exportar o seu gás. A China deverá ser o principal, mas também demorará tempo e exige grandes investimentos em infraestruturas. No plano político e económico, vai acentuar a dependência da Rússia da China, o que fatalmente não acabará bem (pode ser mesmo a principal razão para um dia Putin ser derrubado por um golpe de estado).

Além da segurança energética, a segurança alimentar é a outra das consequências mais relevantes da guerra, visto que a Rússia e a Ucrânia são grandes exportadores de cereais. Antes da guerra, a Rússia e a Ucrânia exportavam cerca de 30% da cevada mundial, 25% do trigo mundial e 20% do milho mundial. Obviamente, há países mais dependentes do que outros dos cereais russos e ucranianos, desde logo no Norte de África e no Médio Oriente (embora os países pobres de África e da Ásia sofram indirectamente com o aumento dos preços dos alimentos).

Veja-se o caso do Egipto. Antes de começar a guerra, o custo da produção de pão era de cerca de um dólar, com o governo a subsidiar 75 cêntimos. Neste momento, o preço da produção de pão é de 2 dólares e 25 cêntimos, com o governo a subsidiar o preço com 2 dólares (o pão continua a custar 25 cêntimos). Durante quanto tempo conseguirá o governo do Egipto subsidiar o preço do pão? E o que acontecerá se deixar de subsidiar? No Inverno poderemos assistir a conflitos sociais nos países do sul do Mediterrâneo, e na Primavera do próximo ano a uma nova crise migratória na Europa.

Convém ainda referir que se a guerra continuar até ao fim do Verão, o que é quase certo, a Rússia e a Ucrânia continuarão a não exportar cereais no próximo ano. O cenário que se adivinha é de inflação alta na Europa (e continuará em 2023), mais fome no Sul, e guerra no leste.

Muitos comentadores europeus falam de uma guerra longa de “4 meses”. A impressão que tenho é que para Putin, isto é apenas o início. O Presidente russo quer testar a capacidade de resistência das sociedades europeias a um conflito prolongado. Quem vai resistir melhor, os russos às sanções ou os europeus à inflação?

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR