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A Juventude Socialista decidiu não apoiar institucionalmente qualquer candidato nas eleições presidenciais. Contudo, optou por «recomendar aos seus militantes analisar, apoiar e envolverem-se nas campanhas dos candidatos à esquerda».

Esta é uma decisão incongruente e revela a incapacidade da JS afirmar o seu projecto político-ideológico, embarcando num processo de indiferenciação valorativa à esquerda, processo esse que não se deve confundir com o processo de convergência das esquerdas.

A JS optou, ao invés de apoiar um candidato, recomendar um leque de candidaturas aos seus militantes. Recomendou todas as candidaturas à esquerda.

As candidaturas à esquerda não são, no entanto, todas iguais, nem se alicerçam nos mesmos pilares ideológicos. Nem entre si, nem relativamente ao pilares ideológicos que deveriam reger a prática política da Juventude Socialista, o Socialismo Democrático.

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Das candidaturas à esquerda faz parte a candidatura de Ana Gomes, o que atesta que a JS entende que Ana Gomes é uma candidata com todas as condições para exercer o cargo a que se candidata. A questão a colocar é se faz sentido a JS recomendar uma candidatura que não seja a candidatura de Ana Gomes. A resposta é um redondo não. A partir do momento em que a JS faz recomendação com base em valores, esta teria de recair única e exclusivamente em Ana Gomes, que lidera a única candidatura que representa o socialismo democrático.

Decidindo a JS emitir recomendações para estas eleições, tinha a obrigação de pugnar pelo Socialismo Democrático. Não o fazendo, coloca-se uma questão mais profunda e que importa abordar: a indiferenciação valorativa à esquerda.

Quando a JS recomenda, a par da candidatura de Ana Gomes, as candidaturas que têm origem no PCP e no Bloco de Esquerda, está a embarcar num processo de diluição valorativa à esquerda, pois as esquerdas, apesar do que partilham, têm programas ideológicos distintos. A decisão de recomendar três candidatos, que parece ser mais uma indecisão, parece dar a ideia que votar à esquerda é igual seja qual for o candidato. A verdade é que as diferenças são muitas e que escolher entre os três candidatos está longe de escolher o mesmo projecto político, falhando a Juventude Socialista na obrigação ideológica que tem em defender, inequivocamente, o Socialismo Democrático.

É preciso, contudo, deixar claro que não embarcar em processos de indiferenciação valorativa à esquerda não significa não apoiar a convergência entre as esquerdas. Antes pelo contrário: a convergência das esquerdas só pode ocorrer na medida em que sejam valorativamente distintas, pois, caso contrário, estar-se-ia a falar de uma homogeneização das esquerdas.

Além da incongruência referida – a de a JS fazer uma recomendação eleitoral sem ser com base na sua matriz ideológica – a segunda incongruência tem que ver com o objetivo declarado da JS de conter a extrema-direita, o qual não é cumprido nem da perspetiva valorativa nem da perspetiva táctica.

Em primeiro lugar, a JS deve tentar conter a extrema-direita através da afirmação do Socialismo Democrático enquanto projeto político patriótico, o que só é possível com Ana Gomes. Em segundo lugar, numa perspetiva prática, a JS deveria estar empenhada em garantir que a segunda volta não se dá entre o candidato da direita e o candidato da extrema-direita, sendo que, à esquerda, só Ana Gomes está em condições de ir a uma segunda volta.

Como defensor do Socialismo Democrático e da convergência das esquerdas, não posso concordar com a decisão tomada pela JS. A JS perdeu uma oportunidade para se afirmar como uma estrutura bastião do Socialismo Democrático, optando pela solução fácil de passar a sua responsabilidade como Estrutura Política para os seus militantes.

Lidando diariamente com a dificuldade dos jovens do interior – e dos menos jovens – sendo, orgulhosamente, um deles, tenho a convicção de que Portugal necessita da afirmação do Socialismo Democrático, como projecto estruturante para a Pátria.

Por isto, a decisão da Juventude Socialista de não recomendar o empenho dos seus militantes na candidatura de Ana Gomes e, pior, deixar-se embarcar num processo de diluição dos seus valores, é uma decisão que me entristece.

Posto isto, resta-me dizer apoio Ana Gomes, Ana Gomes ou Ana Gomes.