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Trabalho

A reintrodução de um novo sistema esclavagista

Autor
  • Pedro Afonso
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Esta autêntica corrida aos horários excessivos, observada entre os cargos de maior responsabilidade nas empresas, é absurda e perigosa. A cultura de excesso de carga horária deve ser repudiada.

O primeiro caso de karoshi (morte por excesso de trabalho) foi reportado em 1969 no Japão, quando um jovem de 29 anos que trabalhava no departamento de expedição de um jornal japonês, morreu subitamente devido a um acidente vascular cerebral.

No final dos anos 80, o assunto voltou a preocupar as autoridades de saúde japonesas, após vários executivos terem falecido subitamente, sem que existisse qualquer doença física prévia. Estes executivos tinham em comum o fato de trabalharem mais do que 3000 horas de trabalho por ano e não respeitaram as folgas e os períodos de descanso.

Os médicos japoneses começaram a publicar estes casos em revistas científicas, alertando a comunidade médica internacional para o fenómeno. Esta divulgação acabou por ter impacto, obrigando as grandes empresas como a Toyota e a Nissan a tomarem medidas, de modo a evitarem que os seus funcionários trabalhassem horas a fio, pondo em risco não apenas a saúde como a própria vida.

E a saúde mental? Não estará também em risco com o excesso de trabalho? E qual a dimensão do fenómeno entre nós? Num estudo realizado recentemente na AESE- Business School, verificou-se que cerca de 55% dos antigos alunos têm um horário de trabalho semanal excessivo (mais de 48 horas semanais). A média de trabalho semanal reportada foi de cerca de 54 horas. Curiosamente, quem trabalha mais horas são os indivíduos com os cargos de maior responsabilidade dentro das empresas (Administração/Direção).

Este estudo revelou uma associação significativa entre o número de horas de trabalho e os sintomas de depressão, ansiedade e alterações do sono. Os sintomas depressivos foram avaliados a um nível patológico em 44% dos indivíduos com excesso de trabalho.

Os dados disponíveis são preocupantes. Em Portugal trabalha-se demasiadas horas colocando-se em risco a saúde física e psíquica. As autoridades de saúde parecem ignorar o fenómeno e as doenças psiquiátricas surgem como se fossem uma verdadeira epidemia laboral.

Esta autêntica corrida aos horários excessivos, observada entre os cargos de maior responsabilidade nas empresas, é absurda e perigosa. A cultura de excesso de carga horária deve ser repudiada, pois é uma regressão sociocultural, e não traz propriamente mais riqueza e produtividade às empresas. Pelo contrário, traz mais doença, absentismo e privação.

Tal como aconteceu no Japão, as grandes empresas têm de criar um compromisso ético destinado a proteger a saúde física e psíquica dos trabalhadores. É urgente garantir também a conciliação entre o trabalho e a família. Deve-se estimular o trabalho a partir de casa, flexibilizar horários, permitir que mais pessoas trabalhem em regime de part-time, criando uma política de horários mais reduzidos para pais com crianças pequenas ou para trabalhadores que mantenham a seu cargo os familiares idosos.

Uma pessoa que acompanhei, trabalhava numa multinacional em Portugal de consultadoria, cumpria habitualmente um horário de 11-12 horas por dia, e raramente saía antes das 20h. Um dia surgiu a oportunidade para trabalhar em Londres na mesma empresa. Em Inglaterra continuou a cumprir o mesmo horário que praticava em Portugal. Duas semanas depois foi chamado ao gabinete do diretor. Este, perante aquela longa jornada laboral, perguntou-lhe diretamente se havia algum problema no seu casamento. A permanência no escritório, para além do horário de trabalho, afigurava-se como estranha. Aos olhos do diretor, aquele funcionário parecia que não queria ir para casa por algum motivo; esta dedicação doentia ao trabalho fazia suspeitar que algum problema grave conjugal estaria a ocorrer, retirando-lhe o desejo de regressar a casa para junto da família.

O excesso de trabalho que assistimos atualmente no mundo laboral é a reintrodução de um novo sistema esclavagista que se fundou sobre a destruição da família. Afinal o escravo era aquele que não tinha o direito de formar uma família e que poderia ser separado dos seus familiares para servir um senhor; um escravo continua a ser aquele a quem se pode colocar em risco os vínculos familiares, a saúde e a própria vida para servir um objetivo material.

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