Ao contrário da maioria das epístolas, que tratam de assuntos particulares das várias igrejas a que se dirigem, a epístola que Paulo escreveu aos cristãos de Roma discute o problema mais geral da relação de Deus com os homens, judeus e gentios; isto é, com o povo eleito das escrituras e com os outros, os sem direitos de nascimento. À época, os cristãos dividiam-se entre os tradicionalistas, para quem um cristão devia começar por obedecer à lei judaica, e aqueles para quem o tempo novo dispensava a lei antiga. Em termos práticos, a coisa traduzia-se em saber se os gentios convertidos deviam ou não ser circuncidados, conforme mandava a lei mosaica. A posição de Paulo é clara: “Se quem não é circuncidado observa os preceitos da Lei, não deverá a sua incircuncisão ser considerada como circuncisão? E ele, que, não sendo fisicamente circuncidado, cumpre a Lei, há-de julgar-te a ti que, com a letra da Lei e a circuncisão, és um transgressor da Lei.“ (Rom 2:26-27) Por outras palavras: o homem justo define-se pelas atitudes e não por marcas físicas de pertença — a uma tribo, raça ou classe. Cristo trouxe a Salvação a todos os homens e alcançá-la só depende das escolhas que cada um faz.

Este tema do livre arbítrio é essencial na mensagem cristã e representa uma ruptura clara na História. O Édipo da tragédia grega não tem culpa, é apenas um joguete do destino. Em Platão e Aristóteles, o cidadão só existe enquanto parte da cidade, não tem destino próprio. E na generalidade das culturas não cristãs, antigas e actuais, não há verdadeiramente indivíduos porque a pessoa tem os direitos e os deveres do grupo a que pertence e a sua relação com o mundo é mediada pelo grupo. No cristianismo, pelo contrário, o destino é individual. O pecado é individual. O arrependimento é individual. A salvação é individual. É verdade que a ideia de livre arbítrio já existia antes, por exemplo em Cícero. Mas nunca ultrapassou os círculos restritos dos filósofos. Com o cristianismo torna-se um princípio basilar. Cada pessoa é inteiramente responsável pelas suas escolhas. No século IV, Santo Agostinho escreveu: “É claro para mim que o livre arbítrio [nos foi] dado por Deus” e que “possuímos uma vontade”; e “disto se segue que quem deseja viver bem e com honra consegue fazê-lo”.

Igualdade perante Deus, liberdade de escolha e responsabilidade pelas escolhas feitas. O mundo moderno não começou com a Revolução Francesa. Começou com Cristo e, depois, com Paulo. “No princípio era a Palavra, e a Palavra estava junto de Deus, e a Palavra era Deus. … Tudo foi feito por meio dela, e sem ela nada foi feito de tudo o que existe.” (Jo 1:1,3)

Não tenho a certeza de que o Espírito nos aguarde no fim do caminho. Mas sei que o espírito de Cristo agiu na História, nos últimos 2 mil anos, de maneiras frequentemente boas e claramente únicas. Isso chega-me para dar sentido à celebração do Natal.