Comunismo

A Revolução russa teria um fim diferente se Trotski vencesse Estaline?

Autor
562

As tentativas de branquear Trotski, como as de Francisco Louçã, em nada diferem das de branquear Lenine ou Estaline. Todos viam o futuro da URSS sem democracia e sem as mais elementares liberdades.

Nas vésperas do centenário da revolução comunista de 1917, alguns políticos e académicos tentam convencer-nos que, se Lev Trotski vencesse a guerra pelo poder depois da morte de Lenine, os destinos da União Soviética teriam sido outros. É uma afirmação que em nada corresponde à verdade e apenas visa branquear um acontecimento que deu início à morte de milhões de pessoas. O teórico do “terror vermelho” não iria ser mais tolerante ou aberto do que o ditador Estaline.

Mesmo na preparação da Revolução de Outubro, ao passo que Trotski insistia na necessidade de respeitar a legalidade soviética – era o presidente do Soviete de Petrogrado, em que tinha sido formado um Comité Militar Revolucionário CMR), a que obedeciam os sovietes de soldados –, Lenine preferia uma simples decisão partidária. Acabou por ser vencido nesse tema, sendo o Comité Militar Revolucionário, e não o partido diretamente, a organizar a insurreição na noite de 25 de 25 para 26 de Outubro (ou de 6 para 7 de Novembro no calendário ocidental)”, escreve Francisco Lousã, professor catedrático do ISEG e teórico do Bloco de Esquerda.

Como se depreende das palavras deste académico, Trotski era um líder mais democrático e legalista do que Lenine, o que é pura falsificação da história tendo em conta os factos posteriores.

Primeiro, o CRM não passava de um órgão dependente e manipulado pelo Partido Social-Democrata Russo (bolchevique), por isso essa medida de Trotski visou apenas “legitimar” mais um pouco o golpe de Estado (nome que os bolcheviques deram inicialmente à revolução) desferido não contra o czarismo (Nicolau II já havia renunciado em Março de 1917), mas contra um governo provisório democrático que pretendia convocar uma Assembleia Constituinte para traçar o rumo da Rússia. Recorrendo a um paralelo, pode dizer-se que se a extrema-esquerda tivesse vencido em Portugal a 25 de Novembro de 1975, este golpe seria considerado por ela uma revolução contra o 25 de Abril de 1974, que não teria passado para os comunistas de uma “revolução burguesa”.

O mesmo académico fala de “legalidade soviética”, sem explicar o que isso é, porque simplesmente não existiu também por obra de Trotski e companhia.

À frente do CMR, Trotski impunha assim a sua “legalidade”: “Dizem que não se pode estar sentado nas baionetas. Mas sem elas não podemos passar. Precisamos da baioneta aí para estarmos sentados aqui… Toda essa canalha pequeno-burguesa que hoje não é capaz de se colocar nem de um lado, nem de outro, passará para o nosso lado quando souber que o nosso poder é forte… A massa pequeno-burguesa procura força a quem sujeitar-se. Quem não compreende isto, não compreende nada no mundo, muito menos no aparelho de Estado”.

Entretanto, a 21 de Novembro de 1917, o Comité Militar Revolucionário cria uma “comissão para o combate à contra-revolução”, um antecedente da tenebrosa polícia política soviética Tcheka, NKVD, KGB. Por ordem de Trotski, o CMR encerrou uma série de importantes jornais russos, sempre em conformidade com a “legalidade soviética”.

Mas para os que não compreenderam ainda este conceito, Trotski explicou-o bem em 17 de Dezembro de 1917: “Devem saber que dentro de um mês, o mais tardar, o terror tomará formas muito fortes a exemplo dos grandes revolucionários franceses. A guilhotina, e não só a prisão, espera os nossos inimigos”.

O professor Louçã “esqueceu-se” também que o conceito de “terror vermelho” foi formulado por Lev Trotski na obra “Terrorismo e comunismo”, como “arma empregue contra a classe condenada à morte, que não quer morrer!”.

Claro que toda esta retórica cruel pode ser “justificada” com a necessidade de derrotar os “inimigos de classe”, a burguesia, mas o facto é que, durante a mortandade que foi a guerra civil (1917-1922), as teses defendidas por Trotski serviram para esmagar também as forças de esquerda que ousavam criticar o bolchevismo. Este já não precisava de aliados.

O levantamento de Kronshtadt, de 26 de Fevereiro de 1921, foi realizado por marinheiros de várias correntes políticas de esquerda, nomeadamente militantes que tinham abandonado o partido bolchevique e anarquistas.

Eles não exigiam a restauração do capitalismo, mas apenas eleições livres para os Sovietes, liberdade de expressão e imprensa para “operários e camponeses, anarquistas, partidos socialistas de esquerda”. No fundo, eles queriam que fosse respeitada a palavra de ordem lançada por Lenine em 1917: “Todo o poder aos Sovietes!” e fosse posto fim à “ditadura dos bolcheviques”.

E qual foi a resposta do dueto Lenine-Trotski? O esmagamento implacável da revolta, com um resultado que se iria tornar habitual na história soviética: milhares de mortos e de feridos de ambos os lados. Depois, os vencedores, para darem mais uma lição aos que ainda não tinham compreendido a “legalidade soviética”, fuzilaram 2103 pessoas e 6459 foram condenadas a diversas penas de prisão.

Por isso as tentativas de branquear Trotski em nada diferem das de branquear Lenine ou Estaline. Todos eles viam o futuro da URSS sem democracia, sem as mais elementares liberdades, embora estivessem escritas em todas as constituições soviéticas.

Lev Trotski pode-se ter mais tarde arrependido de muitos dos seus erros (crimes), mas já estavam feitos, e de forma metódica e consciente.

José Neves, professor da Universidade Nova de Lisboa, escreve: “Comunistas como Trotski, por exemplo, viram logo no estalinismo a antítese de Outubro. Em 1936, antes mesmo dos terrivelmente célebres Processos de Moscovo, já escrevia um livro sugestivamente intitulado A Revolução Traída”. Ora, a revolução comunista não foi traída, mas continuada da única forma possível: através da violência. Sem a repressão o regime soviético não sobreviveria muito tempo. Prova disso foi que a URSS ruiu logo que Mikhail Gorbatchov permitiu uma frincha no sistema repressivo.

Branquear a revolução comunista significa justificar o fim dos mais elementares direitos humanos em prol de uma utopia que teve sempre resultados tenebrosos, independentemente do país onde se tenha tentado a sua realização.

Todos queremos saber mais. E escolher bem.

A vida é feita de escolhas. E as escolhas devem ser informadas.

Há uns meses o Observador fez uma escolha: uma parte dos artigos que publicamos deixariam de ser de acesso totalmente livre. Esses artigos Premium, por regra aqueles onde fazemos um maior investimento editorial e que mais diferenciam o nosso projecto, constituem a base do nosso programa de assinaturas.

Este programa Premium não tolheu o nosso crescimento – arrancámos mesmo 2019 com os melhores resultados de sempre.

Este programa tornou-nos mesmo mais exigentes com o jornalismo que fazemos – um jornalismo que informa e explica, um jornalismo que investiga e incomoda, um jornalismo independente e sem medo. E diferente.

Este programa está a permitir que tenhamos uma nova fonte de receitas e não dependamos apenas da publicidade – porque não há futuro para a imprensa livre se isso não acontecer.

O Observador existe para servir os seus leitores e permitir que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia. Por isso o Observador também é dos seus leitores e necessita deles, tem de contar com eles. Como subscritores do programa de assinaturas Observador Premium.

Se gosta do Observador, esteja com o Observador. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Rússia

A hipocrisia da política de sanções /premium

José Milhazes
352

A Europa perdoou à Rússia a agressão à Ucrânia, a invasão da Geórgia em 2018 e dá mais uma prova de “misericórdia” em 2019. A que se deverá este acto que traz à memória o famigerado Acordo de Munique?

Rússia

Deixem os jornalistas trabalhar /premium

José Milhazes
322

A polícia russa deteve e espancou Ivan Golunov, jornalista do Meduza, conhecido pelas investigações sobre corrupção. É mais um sinal de que o Kremlin receia cada vez mais perder as rédeas do poder.

Crónica

E se o nosso futebol fosse gerido por comunistas?

João Pestana de Vasconcelos
1.483

Se aplicássemos as ideias comunistas ao futebol português, deixaríamos as boas intenções de ajudar os mais desfavorecidos arruinar a sua competitividade. Porque havemos de as aplicar à nossa economia?

PCP

A História os absorverá /premium

José Diogo Quintela
2.304

Termos partidos leninistas e trotskistas a conviver com pessoas comuns é um luxo para o cidadão português interessado em História. É como um paleontólogo ter um Brontossauro de estimação no quintal.

Ambiente

A intervenção do PSD na área do Ambiente

Salvador Malheiro

O PSD é detentor de um legado riquíssimo em matéria de política ambiental, pelo que a sua intervenção na área do Ambiente foi, é e continuará a ser determinante para o desenvolvimento de Portugal

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)