O ano de 1345 é fundamental para datar o início do Renascimento. Foi nesse ano que Francesco Petrarca descobriu as cartas de Cícero dirigidas ao amigo Titus Pomponius Atticus, de acordo com os esforços da época levados a cabo por outros humanistas como Giovanni Boccaccio, Coluccio Salutati ou Poggio Bracciolini. Estes estudiosos desempenharam um papel central na recuperação do pensamento antigo e constituem aquilo que Stephen Greenblatt designa, na sua obra sobre a origem do pensamento moderno, como “os caçadores de livros”. A grande mudança da Renascença começaria com eles.

A palavra Renascimento ou Renascença remete, como sabemos, para a redescoberta do pensamento e da cultura dos Antigos e foi essa redescoberta que permitiu ao pensamento moderno florescer. Mas quando falamos em re-nascimento e re-descoberta estamos a reconhecer que esse momento foi antecedido por um período de esquecimento, que resultou do desprezo voluntário em relação ao que era considerado o pensamento pagão. É a falta de aceitação e curiosidade dos medievais que levará a que este período seja conhecido como a idade das trevas. Condenava-se a herança greco-romana com o dogmatismo dos que julgam saber a única e toda a verdade.

Embora estejamos historicamente distantes dos primeiros modernos que, sob a ilusão das Luzes, condenavam as trevas, ainda olhamos com sobranceria para a Idade Média, quase sempre incapazes de reconhecer o seu lugar na história das ideias e o seu contributo para o modo como pensamos e falamos hoje. Paradoxalmente, encontramo-nos bem próximos do período medieval se tivermos em conta o atual desprezo generalizado face ao passado, ao conhecimento histórico, aos estudos clássicos, ao pensamento antigo. Tudo isso parece ter-se tornado obsoleto no mundo moderno, como se nós, os mais modernos de todos os modernos, tivéssemos a resposta para todas as perguntas e pudéssemos prescindir do passado, da história e da sabedoria dos antigos.

Curiosamente, o momento de coronacrise obriga-nos a confrontar essa autoimagem moderna. Julgávamos saber mais do que todos os que nos antecederam, controlar a natureza como nunca antes e estar a salvo das dificuldades que assustaram os nossos antepassados desde o início dos tempos – afinal, a história da humanidade é a história das epidemias e pandemias com que tivemos de lidar. E eis que nos vemos confrontados com as mesmas dificuldades, parecendo até numa situação pior: como se as ferramentas intelectuais, políticas e científicas de que dispomos nos tivessem deixado numa condição mais frágil. De que outra forma se justifica que, gozando hoje de condições sanitárias e recursos científicos únicos, nos tenhamos deixado capturar por um pânico coletivo que transformou todo o nosso estilo de vida?

Talvez isso aconteça porque, em comparação com os nossos antepassados, temos mais a perder. Pensamos ter mais liberdade mas isso não passa de uma ilusão: estamos muito mais dependentes do conforto material, precisamos de muitos mais bens considerados indispensáveis, dependemos do Estado para praticamente tudo e vivemos de um sistema económico que, colapsando, mudará radicalmente a nossa forma de vida. E esta será, provavelmente, a grande diferença em relação às epidemias passadas. Sobreviver às pestes do passado significou, muitas vezes, mudanças sociais e políticas profundas mas que só mais tarde se conseguiram descortinar. A vivência da peste não significava em si um mundo novo. Mas hoje parte da nossa angústia passa por querermos controlar todos os fatores e sermos incapazes de perceber como será o amanhã.

Ora, entre estas novas trevas talvez faça sentido regressar ao passado e aos Antigos. E recordar que os nossos medos, as nossas inseguranças e as nossas angústias são ecos que se repetem ao longo da história e que podemos aprender com ela e com aquilo que no passado se escreveu sobre o homem. Isso ajudar-nos-á a pensar melhor, a ganhar distanciamento face ao medo e pânico que nos paralisam e olhar para os problemas com uma razão menos sujeita aos tempos atuais de hipermediatização. Afinal, como percebemos com Tito Lucrécio Caro, em De rerum natura, por muito que o homem moderno se sinta emancipado, continua a ser o mesmo homem, com a sua natureza angustiada e sujeito aos mesmos medos do século I a.C.:

De facto, tal como as crianças tremem e receiam tudo,
na escuridão cerrada, assim também nós, em plena luz, receamos
por vezes coisas que não são de modo nenhum mais de recear
do que as que as crianças temem e imaginam que vão acontecer.
É necessário, portanto, que dissipem este terror e estas trevas do espírito
não os raios do Sol nem os luminosos dardos do dia,
mas a observação e o conhecimento da natureza.