Discutiu-se esta semana, em Lisboa, a saúde mental dos portugueses. Não em termos gerais mas, como quase tudo nos últimos anos, a propósito da crise. Serviu o debate para apreciar os resultados de um estudo conduzido pelo Lisbon Institute of Global Mental Health.

Parece que a saúde mental dos portugueses sofreu com a crise económica e que as pessoas atingidas por depressão e ansiedade passaram de um quinto (em 2009) para um terço (em 2015) da população total. Confesso a minha dificuldade em compreender o espalhafato. Vistas a partir da minha insensibilidade neoliberal, depressão e ansiedade parecem-me ser respostas normais quando o desemprego aumenta, os rendimentos caem e as empresas vão à falência. Verificar uma associação entre quebras de rendimento de 40% e maior consumo de ansiolíticos não revoluciona a nossa percepção da mente humana. Estar ansioso nestas circunstâncias não é doença. Estranho seria que se verificasse o contrário. Isso, sim, seria claramente do domínio da patologia.

Portanto: qual é o sentido, o propósito, o objectivo do estudo? É certamente útil para garantir linhas de financiamento e os salários dos funcionários do Instituto, uma ambição perfeitamente respeitável. Mas que tenha servido para um colóquio na Gulbenkian, onde vários especialistas internacionais do “impacto dos fatores sociais e económicos na saúde mental” se pronunciaram gravemente sobre os resultados, já é menos razoável. Ou não?

É verdade que o estudo dificilmente ultrapassa os mínimos para uma tese de mestrado. Mas, se dermos atenção aos conteúdos explícitos do fórum, tal como são apresentados na página da Fundação Calouste Gulbenkian dedicada ao “evento” (como agora se diz), tudo ganha sentido. Desde logo, o título: “Crises sócio-económicas e saúde mental: da investigação à acção”. Seguindo a velha tradição revolucionária expressa por Marx nas suas teses sobre Feuerbach, o que importa não é o estudo mas o que fazer com ele. O que importa é, a partir dos números, gerar transformação. Que tipo de transformação? Bastará atender ao uso de expressões familiares como “grupos especialmente vulneráveis” à “globalização” e “minorias étnicas” para ficarmos elucidados. Sabemos quem usa estas expressões e o que elas significam.

No fim seriam feitas “recomendações não só para Portugal como para outros países”. Há cem anos que psiquiatras e cientistas sociais tentam desesperadamente afirmar a sua autoridade, dando ar “científico” a temas eminentemente políticos. Sabemos os desvarios a que essa ânsia conduziu no século XX, das políticas eugénicas da Alemanha nazi à detenção e tortura dos dissidentes na Rússia soviética. Por cá, ajudaram os esbirros de Salazar a internar pedintes, prostitutas e homossexuais na Mitra. Apesar deste registo miserável, não desistem.

Médico