1. Haverá eleições presidenciais daqui a dias? A sério?

Nunca vi Portugal tão pouco interpelado por um acto político desta natureza, nem se sabe o que é menos mobilizador, se os candidatos, se o que têm para nos propor. Para não falar da, como definir?, modesta substância do que nos dizem pensar sobre as coisas, sobre o país, sobre o que aí está. E sobre o que aí deveria passar a estar, caso eles se metessem a isso.

Marcelo Rebelo de Sousa dispensa as ideias porque durante anos as substituiu pela televisão e em vez de povo, tem espectadores. Quer (desesperadamente) agradar à esquerda, precisa dela como pão para a boca. Certo como está de ter a direita no bolso, aliena totalmente metade do país. Arredando-a como um estorvo ou uma doença do seu mapa pessoal e politico e omitindo-a de reflexões, intervenções, preocupações, manifestações, discursos e visitas (enquanto dialoga muito feliz e em paz com o sr. ministro socialista disto ou daquilo), mas quem gosta de ser assim alienado?

Haverá sempre quem por imbecilidade, comodidade, oportunismo, veja “ressentimento” neste tipo de considerandos. Está aliás muito em voga apelidar a eito o centro-direita e a própria direita de “ressentidos”. O epiteto, além de intencionalmente enviesado, é descabido: quem, de entre esse espaço (não tão pequeno como isso) que vai do PS para a sua direita, não franzirá o sobrolho (é o mínimo que se poderá dizer) ao perceber que um voto-ideal, se for da esquerda, pesará sempre mais para o candidato que um valor ou uma convicção?

E como se estas (trágicas?) ambiguidades, fossem pouco, Marcelo quer aviar esta “sale besogne” já, para evitar o confronto, aflição que não é de hoje.

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Isto dito, falta o que se aprecia: é generoso, brilhante, sobredotado, culto, capaz. E anda nisto há muito tempo o que, como se sabe, é melhor que pior.(olhem o candidato Sampaio da Nóvoa que aterrou agora, vindo não se sabe de onde, nem porquê).

Maria de Belém foi uma boa gestora, soube “cuidar”, tem passado político, currículo e hábitos de trabalho. Talvez não seja suficiente: por qualquer razão, não levantou voo alto. Nem ela, nem a sua campanha. Dizem-me que “tem bons conselheiros”. Terá?

Infelizmente nada posso dizer de António Sampaio da Nóvoa. À excepção das equipas profissionais com quem trabalhou ou terá trabalhado, quem o conhece verdadeiramente? Não se percebe o que quer, nem o que fará, nem como se comportará mas, como dizer?, desconfia-se. Diz-se “livre” e “aberto”, mas para quê, ao certo? Nada retive para além de tiradas sem recheio, clichés datados e promessas desligadas da realidade de qualquer tema ou assunto.

Não há vislumbre de má-fé no que escrevo, há pena. E daí a cómoda, insidiosa – e no limite, pouco séria – tentação de achar que nada disto é comigo, galopando para longe, para um indefinido mas demissionário “longe”. É feio? É. Paciência: se Portugal, as suas elites, a sua sociedade civil, os seus partidos, as suas instituições, me propõem apenas estas imprudentes ou incertas escolhas, que posso eu fazer para fingir que considero o contrário?

Mais: há três concorrentes sobre os quais os partidos nem se pronunciam, nem se unem, o que podia ser bom sinal – emancipação das tutelas partidárias e dos seus exaustos partidos, em nome de um grande projecto nacional suprapartidário. Mas não é, e sabemo-lo: os partidos não se pronunciam por hipocrisia, cinismo, rejeição. E não se unem por motivações internas, divisões, oportunismo. Tudo más razões. Não espanta que os portugueses se encontrem mais longe que perto disto. Mas talvez eu esteja enganada e para o mês que vem, haja deleite e júbilo nos amanhãs que nos cantarão da varanda do Palácio de Belém.

(Em cima disto, a ideia – de quem? – desta fórmula de debates não ajudou à consistência nem ao apelo da caminhada eleitoral. Já tudo foi dito sobre tal infelicidade, não vale a pena deitar mais chuva sobre o escorregadio piso eleitoral.)

2. Um socialista meu amigo, quero crer que amigo, sugeria-me há dias que “não estivesse assustada, pois não estamos num regresso a 1975”. Não sendo nada assustadiça, achei porém interessante a eleição do “susto” por um dirigente do PS, com assento no governo, para definir o que ele julga poder provocar (e sim, tenho imensa nostalgia de 1975 e de um país que sabia o que não queria e esteve de “serviço” para o combate que envolveu essa recusa, mas isto é outra história).

Voltando ao susto, que não é susto. É a preguiça ou o alheamento que resulta da desconvocação: quem no seu juízo pode concordar com uma governação cujas etapas tem sido o ceder e o retroceder, e cujos marcos (e marcas) são o revogar, alterar, mudar? Esta tão simpática opção populista de hoje, por contraste com o “insensível” governo de ontem, é aliás intencional e criteriosa: sabe-se lá se de repente não há um sobressalto que desague em eleições, mais vale prevenir que remediar. Há que ser (muito) “simpático” antes de ser responsável. Amanhã logo se vê.

Apenas um eloquente exemplo: ainda o titular da Educação não era conhecido, não pusera um pé na Avenida 5 de Outubro, não se pronunciara sobre coisa alguma e já o parlamento – o parlamento, à revelia do ministro – revogava matérias da exclusiva responsabilidade da tutela. Na maior cedência que há memória em 40 anos de um chefe de governo à Fenprof (mas os comunistas não são baratos). O que se seguiu não foi melhor, é certo. Com o novelo das constantes alterações pedagógicas a enredar-se à volta dos alunos, mas quem verdadeiramente se importa com o que importa? Pobres alunos, em quarto lugar depois dos professores, dos sindicatos e da manutenção do apoio do PC ao minoritário governo socialista. O poder tem um preço.

E, já agora, como é mais fácil ceder à extrema-esquerda nos costumes do que no resto, aí vem a “morte assistida”. Vem sem debate, ponderação, informação, critério. Vem de supetão e é um dois-em-um: satisfaz os ditos apoiantes da governação e é de borla. A indiscutível delicadeza do tema não permite comparações levianas mas a ligeireza com que surge em cena faz-me lembrar uma vulgar alteração de trânsito, “a partir de amanhã já se pode descer a Avenida”.

3. O povo estará feliz com este “tempo novo”. Os outros, poucos ou muitos, sabem que um dia virá a estação das escolhas sérias. A recusa do gasto como método, do facilitismo como regra. Até lá, uns gastam, os outros esperam.

Modos de vida.