Congresso do PSD

A (só) aparente ruptura no PSD

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Não há razões para mudanças de rumo no PSD. E, por isso, talvez os primeiros desiludidos com Rui Rio venham a ser aqueles que (como Pacheco Pereira) viram nele a oportunidade de se vingarem de Passos.

Um homem sério, de vida pública discreta e pouco aberto, que engendrou durante anos o alcançar da liderança do PSD, focado na economia e na saúde das contas públicas, indiferente aos círculos das elites lisboetas, rodeado no aparelho partidário de figuras e barões pouco recomendáveis e que fizeram caminho a criticar o PSD, sem pretensões de intelectualidade, pouco preocupado com os holofotes mediáticos, teimoso e corajoso, defensor das ideias em que acredita – e não daquelas que lhe dizem ser as melhores para acolher mais um ou dois votos. Eis uma apresentação possível de Rui Rio, o novo líder eleito do PSD. Mas eis também uma apresentação possível de Pedro Passos Coelho, o líder que, dentro de semanas, deixará de o ser. Curiosamente, a campanha das eleições internas do PSD sugeriu que, com Rui Rio, viria uma ruptura com o legado de Passos Coelho. Ou que à sua vitória corresponderia uma derrota do “passismo”. Ora, ambos têm mais em comum do que seria inicialmente perceptível. E, mesmo no plano partidário, essa ideia de ruptura é, no mínimo, precipitada.

Sim, muitos pontos de vista ideológicos separam Passos Coelho de Rui Rio – o primeiro mais liberal e à direita do que o segundo, que não se importa que o conotem com o centro-esquerda. Se o PSD fosse um clube de tertúlias, a clivagem seria motivo de rupturas discursivas e de algumas guinadas de orientação política nas propostas para o país. Mas o PSD é um partido político, em Portugal e na oposição a um governo apoiado por toda a esquerda parlamentar. O contexto é tudo. Nem Passos Coelho pôde implementar todas as reformas “liberais” que ambicionou, nem agora muitas das reformas implementadas foram sequer atacadas pelo PS – veja-se como o actual governo mantém discretamente várias das medidas do período da troika. Ou seja, a ideologia tem um peso menor nas reformas estruturais do que, acreditando no discurso político, se poderia julgar. Como tal, nesse plano, o PSD de Rui Rio não será realmente divergente do de Passos. Aliás, recorde-se que, quando o tema da campanha interna foi o ajustamento financeiro, Rui Rio até alertou que teria ido mais longe – afinal, aos olhos de Pacheco Pereira e de outros críticos da austeridade, qual dos dois seria o perigoso neoliberal?

No final, tudo leva aos nomes e, sim, as mudanças de caras surgirão no PSD. É natural que assim seja. E ainda mais quando, como é o caso, o novo líder não tem cadeira na bancada parlamentar e precisa de pessoas de confiança nos lugares-chave. Mas será isso motivo de “limpeza”, como se ouve por aí? Não há contexto para isso – e seria um erro de amador. Primeiro, porque Rio terá de depender de um grupo parlamentar que não escolheu e não se pode dar ao luxo de o transformar num ninho de vespas – o que requer tacto e convergências. Segundo, porque não existe uma ruptura real com o “passismo” ou com os que cresceram politicamente ao lado de Passos Coelho – até porque alguns apoiaram Rui Rio. Em termos de apoios internos, a único ruptura relevante surgiu com Luís Montenegro e Miguel Relvas, que decidiram converter estas eleições internas num jogo de xadrez para as suas ambições – leia-se, para se posicionarem para o pós-eleições legislativas de 2019, antecipando uma vitória eleitoral do PS. Ora, Montenegro e Relvas podem ter sido “passistas”, mas não são o “passismo”.

Tudo isto não significa que as lideranças de Rui Rio e de Passos Coelho venham a ser gémeas – cada um tem o seu estilo e isso marca uma liderança. Ou que Rui Rio não apareça rodeado de pontos de interrogação e sinais vermelhos – e são vários: o seu discurso por vezes ríspido e autoritário, uma relação potencialmente tensa com Marcelo, a sua hipotética aproximação ao PS de António Costa pós-2019, a sua má relação com a comunicação social, algumas companhias políticas que arrasta consigo. Significa, sim, duas coisas.

Primeiro, que as campanhas internas dão maus indicadores para prever o desempenho de um líder partidário – por exemplo, quando chegou ao topo do PSD, nada recomendava Passos Coelho (nem o currículo, nem as companhias, nem a fama de ter sido opositor interno a Ferreira Leite no combate contra Sócrates) e, no governo, veio a revelar-se. Segundo, que quem estiver à espera de alterações estruturais no PSD ficará por certo desiludido – não há razões políticas ou ideológicas que as justifiquem no actual contexto. E talvez os primeiros desiludidos venham a ser, precisamente, aqueles que (como Pacheco Pereira, António Capucho e Ferreira Leite) viram em Rui Rio a oportunidade de se vingarem de Passos Coelho.

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