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Desde muito cedo ouvi dizer que “o tempo é precioso”! Enquanto adolescente e depois estudante universitária, não entendia verdadeiramente o significado deste ditado. Achava que era mais uma daquelas frases feitas que se dizia de forma corriqueira!

Só quando a vida me fez assumir mais responsabilidades (quer a nível profissional, quer a nível pessoal e familiar), fazendo-me sentir necessidade de optar pelo que podia ou não fazer (afinal o dia tem apenas 24h), é que se fez luz.

Nessa altura todo o tempo passado em filas ou despendido ao telefone, para resolver determinado assunto ou simplesmente a tentar resolvê-lo, sem sucesso, tornou o tempo escasso, e este passou a ser, subitamente, precioso!

A tecnologia mudou a forma como utilizamos o nosso tempo e transformou o que podemos fazer com esse tempo. É difícil quantificar o número de horas, dias ou até semanas, que a digitalização de tarefas e/ou processos nos devolvem num ano. Depende do uso que cada um de nós faz dessas ferramentas que atualmente temos ao nosso dispor. Depende também de estarmos mais ou menos atentos à inovação que nos rodeia, que, cada vez, é mais constante e presente nas nossas vidas.

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Se tiver com consideração a minha experiência pessoal dos anos em que vivi no Reino Unido – talvez um dos países com maior adopção da tecnologia e do digital pelas pessoas – então posso afirmar que comecei a ter mais horas no meu dia, porque não tinha de o desperdiçar em filas, em repartições de finanças ou em bancos para resolver simples assuntos, ou de me deslocar para fazer compras básicas, entre muitas outras inúmeras pequenas tarefas que fazemos durante a semana. Podia fazê-lo de minha casa, ou em qualquer outro local, quando estava com disposição, ou simplesmente quando sentia ser necessário. Tudo sem metade das burocracias e complexidade até aí vivenciadas!

A tecnologia devolveu-me horas ao meu dia, é certo! Mas também me trouxe qualidade de vida. Pois passei a ter acesso a um “excedente” de tempo que não dispunha, que me permitiu passar mais tempo com a família, ou dedicar-me aos meus hobbies, ou simplesmente a sonhar!

Mas será que existe o reverso da moeda?

Hoje em dia quando acedemos a um website esperamos que este responda rapidamente. Se demora a abrir uma página web, ou a submeter um formulário que a custo preenchemos, ficamos frustrados e achamos que não funciona. Saímos do site e provavelmente nunca mais lá voltamos!

Não há muito tempo atrás, conseguíamos estar horas à espera em filas para sermos atendidos, mas hoje em dia não conseguimos estar menos de um minuto à espera que uma página de um website carregue?

A tecnologia devolveu-nos tempo ao nosso dia, é certo! Mas também transformou a nossa perceção de tempo. A democratização da tecnologia tornou-nos impacientes!

Afinal, tecnologia é suposto trazer simplicidade, rapidez e acessibilidade e isso não se coaduna com uns minutos a olhar para o ecrã à espera de que algo aconteça, quando temos tanto mais para aproveitar!

Por outro lado, a acessibilidade que a tecnologia proporciona pode levar-nos a cair na tentação de fazer várias coisas em simultâneo e em demasia. Atividades e/ou tarefas que antes não nos ocupavam o pensamento por não existirem, ou por não sabermos da sua existência. E como tal, o tempo que nos foi devolvido, de repente, deixa de existir.

Sou uma embaixadora do uso de tecnologia, não fosse a mesma essencial na minha vida profissional. Mas como em tudo, é fundamental encontrar um equilíbrio. Não devemos permitir que a tecnologia tome conta das nossas vidas, de forma que o seu lado positivo seja também aquele que pesa mais na balança, no nosso dia-a-dia.

Afinal: “O tempo perguntou ao tempo quanto tempo o tempo tem. O tempo respondeu ao tempo que o tempo tem tanto tempo quanto tempo o tempo tem.”

Ana Teixeira é CEO & Co-founder da MUDEY, a primeira plataforma digital de mediação de seguros em Portugal. Fez também parte de projetos pioneiros na área de distribuição digital de seguros noutros países europeus, como BeagleStreet.com – o primeiro distribuidor 100% online de seguros de vida no Reino Unido; HoyHoy.nl, um comparador de seguros na Holanda; LesFurets.com, o principal comparador de seguros em França; Deadhappy.com uma insurtech britânica de caracter irreverente e disruptivo no mercado de seguros de vida. É licenciada em Economia pela Faculdade de Economia do Porto, e detém um MBA pela Universidade de Cambridge, no Reino Unido, onde lhe foi atribuído o Director ́s Award por “Outstanding achievement”.

O Observador associa-se à comunidade Portuguese Women in Tech para dar voz às mulheres que compõem o ecossistema tecnológico português. O artigo representa a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da comunidade.