Na semana passada, causou furor a crónica de Joana Bento Rodrigues, publicada aqui no Observador, em que a autora revelou um sentido de família já pouco usual. Como é óbvio, JBR cometeu um erro de avaliação do zeitgeist português (o chamado luseitgeist): podia ter dito que o seu papel é tomar conta da família, desde que acrescentasse que é militante do PS. Em Portugal, como se sabe, a família só pode ser posta à frente de tudo se for para a empregar no Governo socialista.

Fiquei chocado ao descobrir que o casal Ana Paula Vitorino e Eduardo Cabrita se sentava no Conselho de Ministros. Para ser franco, nunca imaginei que fosse possível Eduardo Cabrita ser casado. Com aquela cara? Incrível. Tal como Cabrita – e como se pode constatar pela foto que encima o texto – também eu tenho cara de nabo. Assumi-me há alguns anos (que remédio, não havia como disfarçar) e, desde então, tenho denunciado a caradenabofobia de que somos alvo. Sei das dificuldades que enfrentamos para ter uma vida normal, quanto mais casar. Não é fácil contrair matrimónio quando a cara parece, ela própria, contraída. De maneira que fico muito feliz quando um dos nossos vence a discriminação e consegue integrar-se na sociedade como se fosse uma pessoa com cara normal. Mas, caramba!, de tantos caras de nabo que vemos por aí, confesso que Eduardo Cabrita – que padece de uma forma particularmente aguda da condição – era dos últimos que esperava ver a constituir família. Força, irmão!

Tirando essa perplexidade, o organograma genealógico que se tem visto por aí, com a teia de relações familiares no Governo e nas cercanias do poder socialista, não me excita. Os críticos censuram a nomeação de parentes como se fosse um benefício ilícito para quem lá está. Mas os críticos, claramente, nunca tiveram de trabalhar com familiares. Eu preferia o desemprego. Nem consigo fazer o jantar com a minha mulher sem discutirmos sobre o ponto do esparguete, quanto mais governar um país. Partilhar o escritório com o pai ou o marido não é benefício, é prejuízo. Uma pessoa só aceita vir para o Governo nestas condições se gostar muito de Portugal. Ou muito pouco do seu parente com quem, é inevitável, se vai incompatibilizar.

Imaginemos um daqueles Conselhos de Ministros particularmente duros, em que houve discussão acesa entre colegas, um debate ideológico sobre as grandes opções políticas, até se chegar a um consenso e fazerem o que Mário Centeno manda. No fim, há um jantar descontraído, para relaxarem. Quando o empregado vem anotar o pedido, Eduardo Cabrita diz: “Queria um copo de vinho tinto, por favor”. Do outro lado da mesa, Ana Paula Vitorino levanta as orelhas: “Queres o quê? Vinho? A um dia de semana? Nem pensar!” Cabrita esboça um protesto: “Mas é para acompanhar o bife…” Ao que Vitorino atalha: “Carne? Com esse colesterol? Isso é que era bom!” E, para o empregado: “O sr. ministro vai querer o peixinho cozido com legumes. E vai beber água. À temperatura ambiente, senão fica mal da garganta e depois sou eu que não consigo dormir por causa da tosse”. E Cabrita amocha. Até porque, já foi referido, é um cara de nabo que, sabe-se lá como, conseguiu arranjar mulher, de maneira que não convém abusar da sorte.

Este artigo é exclusivo para os nossos assinantes: assine agora e beneficie de leitura ilimitada e outras vantagens. Caso já seja assinante inicie aqui a sua sessão. Se pensa que esta mensagem está em erro, contacte o nosso apoio a cliente.