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Há 47 anos era muito pequena para poder compreender o mundo para além do meu umbigo. Há 47 vivia no Lobito. Há 47 anos foi o 25 de Abril.

Vivi a descolonização e as suas consequências directas no meu pequeno mundo, alterado desde aí de forma irreversível. Talvez por isto a minha relação com Abril seja, antes de qualquer outra coisa, um processo nascido, não da paixão, mas do entendimento. Aos seis anos a paixão estava reservada ao triciclo, à bicicleta, aos banhos de mar na baía, às gargalhadas com a minha melhor amiga enquanto comíamos colheradas de leite em pó, ou mordíamos cana de açúcar. E Portugal era só um país que conhecia de férias, numa azáfama de visitas à família e aos amigos, férias que eu queria curtas para poder voltar para casa.

Entre Abril de 1974 e Novembro de 1975, altura da independência de Angola, o mundo que conhecia sólido e imutável desabou numa sequência, para mim, incompreensível de eventos: a saída à pressa; a viagem de navio que se tornou a última; a ausência dos pais; as amigas que não voltei a ver; o ruído do mar à porta de casa substituído pelo do trânsito no centro da capital da metrópole. As referências da infância estilhaçadas, disseram-me, em nome da liberdade. Era demasiado pequena para perceber a palavra liberdade para além de ser sinónimo de perda.

Mas cresci para fora do meu mundo, como todos crescemos. A casa dilata-se e estende-se primeiro para a escola, depois para a cidade, e a vida povoa-se com outros como nós, com histórias diferentes da nossa, ou semelhantes. A liberdade da revolução de Abril, a esperança que trazia, compreendi-a pela voz dos outros, nos relatos da pobreza honrada, no reconto repetido de quem não acabou a quarta classe porque era preciso trabalhar, cuidar dos seis irmãos e irmãs, nascidos ano após ano numa maratona de sobrevivência onde se sacrificava a educação das mulheres pelo bem da família; nas meninas que aos nove anos iam para casa do padrinho para servir. E compreendi-a com quem tinha vergonha de ir calçada para a escola por ser a única criança com sapatos na aldeia. Integrei Abril como sinónimo de democracia, celebro-o assim.

Esta é a democracia que abriu as portas do ensino e as da igualdade de género, que remunerou as mulheres pelo trabalho, lhes libertou o passaporte da autorização do pai e do marido, permitiu o planeamento familiar e o divórcio. Esta é a democracia que aceita no espaço público e em igualdade o adversário político que as nossas convicções pessoais repudiam. Este é o paradoxo que a democracia encerra. Esta é a democracia que espero ver desfilar na Avenida.

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