Fica a minha sugestão para o PCP actualizar o seu símbolo em termos de ferramentas de trabalho. Foi-se a foice e o martelo porque a luta dos trabalhadores agrícolas e industriais é muito gira, sim senhor, mas por estes dias o trabalho que o PCP mais valoriza é o trabalho dos electricistas. Mais precisamente do electricista genro de Jerónimo de Sousa. Ou melhor, o indivíduo é só mesmo genro do secretário-geral do PCP, nem sequer é electricista. O que aliás justifica os milhares de euros por mudar meia dúzia de lâmpadas e casquilhos: então se o homem não percebe nada de electricidade, está sujeito a levar para lá algum esticão. Claro que tem de cobrar forte e feio, este Cristiano Ronaldo dos biscates.

O presidente da Câmara de Loures, Bernardino Soares, justificou as quantias pagas dizendo que estes “são os preços do mercado”. Como quem diz: “A Câmara a fazer contratos ruinosos? Não. A mão invisível é que vos está a ir ao bolso. Não se queixem. Eu ando desde 2003 a dizer que a Coreia do Norte é que é uma democracia óptima, ninguém me dá ouvidos e depois admiram-se”. Já Jerónimo de Sousa disse à TVI que “não se usa a família como arma de arremesso seja para quem for”. Claro que não. Até porque devia sair caríssimo: se usar apenas um familiar do secretário-geral do PCP como electricista custa o que custa, nem imagino quanto custaria usar a família inteira como arma de arremesso.

Entretanto este episódio já deu origem a uma anedota, muito desagradável, que circula lá fora. Acho que é assim, mas eu sou mau a contar anedotas: quantos portugueses são precisos para mudar uma lâmpada? Todos. O secretário-geral do PCP para escolher o presidente da Câmara de Loures; o presidente da Câmara de Loures para contratar o genro do secretário-geral do PCP; o genro do secretário-geral do PCP para mudar a lâmpada e os restantes portugueses para pagarem os impostos que sustentam este tipo de moscambilhas. Sacanas destes estrangeiros, certamente a soldo do imperialismo americano.

Mas as consequências desta história do genro faz-tudo – que vai-se a ver e faz muito pouco – vão bem para lá da política partidária. Este incidente é um rude golpe também para a causa feminista. Sim porque acabou-se aquele argumento que muitas senhoras usavam para provar que os maridos não ajudam nada em casa, que consistia em salientar que a única coisa que os esposos sabiam fazer era trocar uma lâmpada. “Estás a ver, mulher?! Mudar lâmpadas é, de longe, a tarefa doméstica mais valorizada de todos os tempos. Portanto cala-te!”

Agora é esperar que o Bloco de Esquerda intervenha nesta questão enquanto partido “socialista, feminista e ecologista”, como o definiu há dias Catarina Martins. Para a líder do BE isto faz da sua agremiação um partido “bastante anti-sistema”. A questão é: anti qual sistema? O sistema de um país com uma Constituição que preconiza o caminho para uma sociedade socialista, governado por um partido socialista, apoiado por um partido que se diz ecologista e é dirigido por uma mulher, e em que há dois partidos ecologistas com assento parlamentar, um liderado por outra mulher e o outro por um senhor que faz umas danças um tanto ou quanto efeminadas? Ui, que anti- sistema que é o Bloco de Esquerda. Afinal Catarina Martins tinha razão: o BE não é extremista. Mas também não é radical. É só mesmo um partido choninhas.