Comemoram-se hoje os 40 anos da tentativa de golpe de Estado de 23 de Fevereiro de 1981, gerada por um conjunto de militares descontentes com o rumo que a democracia espanhola levava. O fenómeno está mais do que documentado. Fizeram-se extensos relatos jornalísticos, narrativas históricas, obras literárias. Em resumo, durante a eleição parlamentar do novo presidente do governo espanhol, após a demissão de Adolfo Suárez, anunciada uma semanas antes, o Tenente-Coronel Tejero Molina, um bruto cheio de Pinochet na cabeça e ao serviço dos viúvos de Franco, invadiu o Congresso dos Deputados, dando ordens para que todos se metessem debaixo das mesas. São disparados tiros de metralhadora para o tecto. Todos obedecem. Todos, menos três: Adolfo Suárez, presidente demissionário, o General Gutiérrez Mellado, o seu vice-presidente, e Santiago Carrillo, líder histórico do PCE. O momento foi captado pelas câmaras de televisão e transmitido, horas depois, a todo o país.

O General Mellado fez o que tinha de fazer e recusou-se a vergar perante um inferior hierárquico. E lá o vemos, admirável, homem pequeno e enérgico, sacudindo os golpistas, levando safanões, até que, finalmente solto e cheio de dignidade, com as mãos nas ancas, vira as costas aos rebeldes e contempla a deserção geral. Santiago Carrillo teve a infelicidade histórica (chamemos-lhe assim) de as filmagens registarem a sua pose fleumática apenas um minuto depois dos disparos. Carrillo fumando o seu cigarro, solitário, no primeiro lugar da sétima fila do congresso, também ele imóvel perante o sucedido e a cobardia geral. Mas o momento é de Adolfo Suárez, o actor principal.

Suárez, acossado e encurralado, em declínio e queda depois de ter garantido a transição pacífica do franquismo para a monarquia parlamentar, era, em 23 de Fevereiro de 1981, odiado pelo exército, que traiu ao legalizar o Partido Comunista Espanhol; fora abandonado pela Igreja, que não lhe perdoou a aprovação da lei do divórcio; desprezado pela direita, que sempre desconfiou daquele provinciano arrivista e bajulador de origens simples e republicanas.

Suárez, um reformista rejeitado pela esquerda, que não confiava num ex-falangista que ascendeu na vida pública escalando todos os degraus do aparelho franquista, encontrava-se desamparado no próprio partido, a UCD, que conspirava contra o seu líder assim que o plano se inclinou. Para piorar, estava isolado na política externa depois de se ter oposto à adesão da Espanha à NATO e era ignorado pelo  Rei, que o tinha escolhido para executar a árdua tarefa de democratizar o regime e que agora via em Adolfo Suárez uma ameaça ao futuro da monarquia espanhola.

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A pose de Suárez é tão sublime, tão elegante e tão altiva que parece ensaiada, testada previamente até à exaustão por um cineasta meticuloso. Suspeita-se que Adolfo Suárez previsse que algo de semelhante pudesse vir a ocorrer. A situação do país era caótica, a monarquia recente, as instituições frágeis e pouco testadas, a desintegração nacional um receio, o terrorismo crescente, a economia de rastos. Por aqueles dias, Suárez andava, inclusivamente, armado com um revólver. Mas não nos deve ocupar muito a mente saber se o gesto de Suarez foi, ou não, um gesto teatral de quem sabia que estava a ser filmado e se preparava para morrer de pé. Um político move-se sempre por vaidade e ambição. Tudo é vaidade. O bem comum e o desenvolvimento, a guerra e a paz, a glória e a justiça. Os heróis clássicos, desde cedo convencidos e preparados para o sacrifício, estavam cheios de vaidade. Mas a vaidade não é o pior dos pecados se for instrumento ao serviço de um fim legítimo. E um político deve ser julgado pelas suas políticas. E pelos seus gestos. E o gesto de Adolfo Suárez foi um gesto heróico.

O gesto heróico de Suárez faz hoje quarenta anos. A democracia sempre teve dificuldade em gerar mitos. Porque os mitos resultam, em parte, de propaganda e exageros? Certamente. Mas as democracias liberais não são o terreno fértil para ocasiões inspiradoras ou salvíficas. Há concórdia e discórdia, entusiasmo e crítica, apoio e oposição. A democracia realiza-se na maximização da impotência, no debate infindável, no cumprimento rigoroso das regras. Se as instituições democráticas funcionam, se há eleições livres, pluralidade partidária, governo limitado, liberdades públicas, as revoluções ou são inúteis ou são ilegítimas. Não há mártires do procedimento, nem guerreiros dos acordos parlamentares. Os vilões e os maus da fita não são sanguinários, mas pequenos vigaristas, peritos no jogo do fingimento, do engano e da bazófia. As conquistas parlamentares não são cerimónias místicas, mas processos civilizados, serenos e protocolares. A governação aborrecida não é um erro, mas uma consequência inevitável de uma civilização adulta. Mas o aborrecimento leva ao desinteresse, o desinteresse causa o tédio. E o ‘’deserto de tédio’’ suscita o ‘’oásis de horror’’. Andamos, cada vez com mais intensidade, a sentir o apelo do horror. A democracia fala cada vez mais sozinha. Surgem vozes proféticas na plebe desvairada. Podemos até dizer que já vimos isto tudo várias vezes e que a história se repete. É também (ou acima de tudo) por isso que recordar o gesto de Suárez é recordar que mesmo a falar sozinho, arruinado, fora de moda, exausto e perseguido, perante a debandada geral e o fogo iminente, um democrata deve dizer, como Bartleby, ‘’I will prefer not to’’.