Foi através do mar que, no passado, a língua Portuguesa se espalhou pelo globo e que ajudou a criar uma cultura lusófona planetária. Se hoje a língua Portuguesa é uma das mais faladas do planeta – prevendo-se que mais de 400 milhões de pessoas a utilizem até ao final deste século – foi o oceano que permitiu esta irrupção muitos séculos atrás. E que origina hoje o crescimento exponencial da CPLP em termos do número e diversidade dos países observadores que desejam integrar esta comunidade. Com a crescente influência económica associada a este projeto.

Mas assiste-se na atualidade a uma globalização económica sem precedentes e a uma profunda reconfiguração das relações geopolíticas, com a emergência de novas centralidades económicas e culturais. Pelo que o desafio é de outra natureza.

Em primeiro lugar importa revitalizar as “antigas” atividades que o oceano proporciona, desde logo no que se refere às pescas, ou ao transporte marítimo de carga que se tornou num meio acessível de transporte de mercadorias. Ou seja, apostar na modernização dos portos, e das suas conexões terrestes por via ferroviária, é um fator decisivo, recorrendo às novas tecnologias – tal como a inteligência artificial ou a robótica – para alcançar este fim. Países da nossa dimensão como a Holanda fizeram esta aposta algum tempo atrás (por exemplo no Porto de Roterdão) e o resultado é impressionante. Recorde-se que Portugal tem um fantástico porto de águas profundas em Sines que deve ser claramente exponenciado. Reconfigurando as plataformas logísticas do nosso país e de toda a península ibérica.

Por outro lado, a diplomacia Portuguesa, geralmente bem-sucedida, está a envidar todos os esforços para alargar a nossa soberania a uma enormíssima área da plataforma continental, aumentado assim a nossa zona económica exclusiva. Ou seja há toda uma “nova economia do mar” à nossa espera o que implica que se desenvolvam novas competências científicas e tecnológicas para explorar os fundos marinhos. De preferência com parceiros estratégicos (estados e empresas) que garantam a estabilidade e a sustentabilidade destes projetos. O que implica uma aposta clara nos centros de investigação neste domínio e o redireccionamento dos fundos de investigação e desenvolvimento (I&D) e de investigação e inovação (I&I) expressamente para esta área. Como opção política claramente assumida.

Finalmente, Portugal como estado soberano tem que reequacionar as suas responsabilidades em matéria de segurança e defesa, desde logo no que respeita ao controle da navegação numa extensa área marítima. O que implica um enorme esforço de “literacia em segurança” para que a população olhe com um novo olhar para a necessidade de reforçar o investimento em equipamentos e tecnologia que nos permitam estar na vanguarda do desenvolvimento marítimo.

Em suma, despertar para o mar é cumprir novamente o desígnio de há quinhentos anos atrás. É afirmar Portugal não como zona periférica da Europa mas como zona central do Atlântico.

Médico e professor catedrático da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto