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Quem tiver esperto no cabeço sabe que a história da Covid não vai acabar bem. Não a doença em si, que vai juntar-se ao catálogo, em lugar modesto, das que levam os mais velhos e fracos. Mas a tentativa de suicídio económico que, por causa da Covid, se espalhou pelo mundo como um incêndio fora de controlo.

A tentativa não teve grande sucesso naqueles países que puderam, por causa dos seus regimes, controlar manu militari a doença em níveis abaixo do radar da comunicação social – o caso mais evidente é o da China. E só o teve moderadamente naqueles casos em que os danos económicos foram menos autoinfligidos e vieram mais do exterior, por a generalidade das economias não serem autárcicas – o caso mais evidente é o da Suécia.

Nos outros, a diferença virá do corpanzil mais ou menos sólido para aguentar as medidas. Porque, por cínico que pareça e seja, os danos vêm pouco da doença, que afecta sobretudo a parte da população que já abandonou a vida activa, e muito da paralisação forçada induzida pelo terror da população. E a este, que a comunicação social alimenta, os poderes públicos reagiram em todo o lado com travagens bruscas da actividade económica como forma de impedir os contágios, frequentemente de forma errática e contraditória, mas sempre sob o manto do que diz a ciência.

Sucede que a ciência não diz nada, quem diz são os cientistas. E como a compreensão do vírus implica virologistas, imunologistas, intensivistas, pneumologistas e mais catorze variedades de istas, e boa parte destes nunca se viu noutra de se poder repoltrear no cadeirão da notoriedade, toda esta gente fala pelos cotovelos.

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Fala pelos cotovelos mas não a uma voz: o que diz Anders Tegnell não é a mesma coisa que Anthony Fauci, o que diz Jorge Torgal não é a mesma coisa que Graça Freitas e o que dizem as sumidades que assinaram a Grande Declaração de Barrington não é a mesma coisa que a generalidade dos especialistas que vemos na televisão e lemos nos jornais – uns estão no ramo do senso, da experiência e da humildade, outros no do drama e espavento.

Temos, então, que estes istas todos criam uma nuvem que cega o cidadão atarantado. E, talvez por isso (exagero um pouco, é retórica), a comunicação social simplifica as coisas: se vamos todos morrer de hoje a oito há microfone e coluna no jornal; e se não, não. O que tudo dá uma pescadinha de rabo na boca: os especialistas vêm ao proscénio aterrorizar a população, que exige medidas que o Governo ejacula freneticamente, que são censuradas por insuficientes e tardias, que têm de ser substituídas por outras à medida que a infecção acelera e abranda sem que se perceba bem porquê, o que conserva o terror, embora cada vez menos porque ter medo cansa.

As coisas têm sido em Portugal piores do que na maioria dos países. Não surpreende: os governantes são há muito uma casta ocupada na dança das cadeiras e no atirar periódico de ossos às suas clientelas, cuja massa lhes garante, com o voto, que podem tranquilamente continuar a capatazear (sim, sei que o verbo não existe) a quinta comum, e enxundiar as camadas superiores, e até as inferiores, da administração pública com uma mole de ineptos.

Esta inépcia tem no caso uma componente criminosa, que consiste em não se terem reforçado suficientemente os meios do SNS, incluindo sem complexos o sector privado, em parte por preconceitos ideológicos e em parte por espírito de poupança. Que seria louvável se a alternativa não fosse, como é, uma quebra do PIB que excede em muito o sobrecusto do SNS para lidar com a pandemia.

Pode ser que, em parte, não fosse possível por carência de pessoal médico com a formação adequada em tempo útil. Nunca o saberemos com detalhe: o Governo falhou, a DGS, um serviço condensado de tudo o que a administração pública tem de mais ronceiro e inane, também, e a bem oleada máquina do situacionismo, somada a uma comunicação social de cócoras, omite tudo o que é atro para enaltecer o brilho da quinquilharia socialista.

Isto tem, porém, um preço. O óbvio, para quem lê mais do que os jornais do regime, que são quase todos, é o deslizar para os últimos lugares do desenvolvimento; e o menos evidente é este labelo (ou será epitáfio?), em que Helena Matos nos apresenta magistralmente a crua realidade do nosso declínio.

Não incluí deliberadamente, nos istas de que acima falava, os economistas, porque estes têm dado provas de grande contenção opinativa a respeito da Covid. É natural: costumam, com suficiência, preopinar sobre assuntos económicos, reclamando-se da imaginária autoridade que as respectivas albardas académicas lhes conferem. Sentem-se portanto inibidos porque o ramo é outro, e deixam a coisa para uns moços frequentemente com acne ou barbichas, ou uns velhos que julgam que o mundo gira à volta do seu serviço, que calha serem especialistas nos arcanos dos microrganismos e sua propagação.

Mas não deviam, porque os seus colegas matemáticos não têm esses pudores, embora o respectivo palavreado, de ático, não tenha nada. E como estes últimos se têm distinguido por abundarem no asneirol, a abstinência dos economistas resulta ainda mais chocante.

Do que temos ouvido, as melhores vozes vêm dos que acham que o esforço de protecção dos que continuam a trabalhar porque não têm outro remédio; dos que não têm trabalho nem apoios; dos que perderam os seus negócios; dos que não os perderam, mas talvez os percam quando acabarem as moratórias; dos pais que têm de ficar em casa com os miúdos que têm de fingir que aprendem aquilo que lhes fingem ensinar através de meios tecnológicos que muitos não têm: tem sido umas vezes inexistente, outras insuficiente, e quase sempre anárquico e desonesto.

Vá lá, podia ser pior. Talvez, se não fosse pedir demasiado, pudessem dedicar-se a, tentativamente, ir pensando em como diabo se vai pagar a dívida monstruosa, que já estava na estratosfera antes e agora vai a caminho da mesosfera. Há dias, Portugal emitiu dívida a 30 anos em óptimas condições, que bom. Mas não têm netos?

E, já que estão com a mão na massa, quem sabe não podiam ir metendo umas taliscas no edifício do consenso suicidário covidesco, a ver se abre brechas? Afinal, a parte da populaça que se preocupa com a coisa pública está habituada a achar que os professores Louçã e Mamede sabem o que dizem. E isso é reconfortante, trata-se de um capital de confiança cega que não pode ser abalado por nenhuma tese, absurda seja ela. Pensem, senhores economistas, pensem fora da caixa, mesmo que não seja a Geral de Depósitos.