Tem acesso livre a todos os artigos do Observador por ser nosso assinante.

Em poucos dias, Odemira passou de um destino de férias desprezado pelo Governo, para o epicentro temático de uma nação cansada e consumida por sucessivas falhas, erros, confusões e desacertos, a que, infelizmente, estamos já todos habituados. Os acontecimentos, exponenciados por este mediatismo recente, existem há anos. O problema a que agora se dá atenção existe há muito tempo e o Governo, particularmente o MAI e o seu Ministro Eduardo Cabrita, não só tem consciência disso, como também sabe que nada fez e que em muito contribuiu para o desenrolar da situação. Compete-nos a nós, odemirenses, manter a razoabilidade, a racionalidade e a prudência que os executivos socialistas, tanto o municipal como o governativo, perderam há muito. Toda esta situação carece da resposta de alguém que, de facto, veja as pessoas como pessoas e não como mercadoria e Odemira como Odemira e não como uma mera ferramenta de instrumentalização política. O concelho não precisa de quem o despreza, não precisa de quem finge não conhecer os seus problemas nem precisa de quem o usa para promover a divisão entre pessoas que apenas procuram uma vida melhor.

Chamo-me Manuel Pedro Serralha, tenho 27 anos, sou natural da (antiga) freguesia de Santa Maria e sou candidato a Presidente da Assembleia Municipal de Odemira.

Não, não vou apenas a S. Luís para ir ao Pêgo das Pias, nem a Vila Nova de Milfontes para ir ao Malhão, nem à Zambujeira porque vou descer a costa, nem para jantar num restaurante, nem porque gosto de ir ao Sudoeste. Não, não conheço apenas Vila Nova de Milfontes de céu limpo, 30 graus e de dias infinitos. Não conheço Sabóia apenas por lá passar em direção ao Algarve. Muito menos conheço S. Martinho das Amoreiras por ir lá em visita a algum evento. Não.

Conheço Odemira em janeiro e fevereiro quando muitos cá descansam depois de meses de trabalho. Conheço Odemira quando chove. Conheço Odemira desde sempre, desde que nasci, desde o primeiro dia da minha vida.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

Quando converso sobre o meu concelho, perguntam-me o porquê de ter esta ânsia de o servir, de trabalhar para o ajudar. Diria que esta vontade vem de três ideias distintas: em primeiro lugar, do enorme orgulho que tenho em pertencer a Odemira, a este grande sentimento de alegria por fazer parte deste concelho. Em segundo lugar, a ideia de melhorar a qualidade de vida, o dia-a-dia, de quem cá vive, de quem cá trabalha, de quem cá quer desenvolver o seu negócio. Em terceiro, e talvez mais importante, a ideia de cumprir Odemira, de potenciar o concelho a um novo nível, de o desbloquear de velhas teias que o prendem e o impedem de crescer exponencialmente: crescer em sentido cultural, empresarial, infraestrutural e educacional. A ideia de fazer de Odemira tudo aquilo que pode ser, mas não é.

Relativamente à primeira ideia, a de orgulho nas memórias, é importante referir o que as motiva, o que lhes deu origem. Posso então dizer que me motivam as memórias que tenho no Infantário e na Escola Primária e em todos os amigos que lá fiz, para a vida. Desde as nabiças que semeámos na escola, à sala do castelo, aos rios na terra no recreio, às nêsperas na primária, entre tantas coisas. Motivam-me as memórias na Residência de Odemira, onde ia de vez em quando e onde conheci tantos alunos de tantas zonas do distrito, ou do Lar onde passei tantas horas a brincar com os velhotes que lá viviam. Uma vez disseram-me que temos muitas vezes na memória, um determinado local, quando rezamos o Pai Nosso. Na minha memória sempre esteve e acredito que sempre estará o percurso entre a Igreja de Santa Maria e o Infantário, de quando vinha a rezar o Pai Nosso, vindo da catequese.

Motivam-me também as memórias que tenho nas Fornalhas, a comer sopa em casas diferentes sempre que lá ia, de pessoas amigas que tomavam conta de mim enquanto o meu Pai dava consultas. Motivam-me memórias semelhantes no Vale de Santiago, onde tenho tantos bons amigos. Motivam-me as memórias que tenho em Colos, no restaurante da bomba, ou em Relíquias quando lá passava a comer uma sandes de carne com manteiga corada. Motivam-me as memórias no Pêgo das Pias, sim, em novembro, quando lá ia e ficava cheio de lama nos sapatos. Motivam-me também as memórias da procissão dos barcos em Vila Nova de Milfontes e das procissões a pé em Odemira e em S. Luís. Motivam-me as memórias da Entrada da Barca, das casas em telhado de colmo lá existentes, da Nave Redonda que eu achava ser mesmo uma nave espacial ou da linha de comboio em Sabóia.

Motiva-me saber que serei odemirense até morrer e que por isso enquanto for vivo tenho de dar o meu contributo.

A segunda ideia diz respeito à melhoria da qualidade de vida de quem vive no concelho, algo que na generalidade tem um custo benefício reduzido, não se compreendendo como não está neste momento, em pleno ano de 2021, em vigor. Melhorias simples cuja extensão varia entre a saúde, o desenvolvimento económico e as acessibilidades, nas quais uma firme atuação poderia conduzir a elevados avanços na qualidade de vida de quem cá vive. Não se compreende como é possível que em pleno ano de 2021, não havendo ainda um Hospital à altura no concelho, não tenha saído da C.M.O. uma tentativa formal de acordo com um hospital privado que sirva a população. Não se compreende porque não se criam programas de fixação de médicos e enfermeiros que condigam com o elevado grau de necessidade existente. Não se compreende como estão as infraestruturas existentes em tão mau estado. Falamos de saúde, não de um qualquer bem não essencial. Por outro lado, não se compreende como é possível que no segundo concelho do distrito com mais população, um concelho cuja distância média entre freguesias é elevada e onde é habitual e natural viajar diariamente entre as mesmas, tenha infraestruturas rodoviárias tão pobres e em estado decadente. Também seria natural que se otimizasse a rede de transportes públicos rodoviários e ferroviários no concelho. Tudo isto contribui para um afastamento de pessoas e empresas, para uma vontade de procurar noutro concelho aquilo que não existe neste.

Falta pensar Odemira com estratégia, falta pensar Odemira de uma forma ampla e quase platónica. Acreditar no Mar e na Terra como motores económicos, estruturar uma economia local baseada nestes recursos quase infinitos. Acreditar no Ensino como propulsor da economia local e do aumento das taxas de manutenção dos jovens. Apostar na Tecnologia como forma de cativar mais pessoas, especialmente nesta época em que muitos trabalham em casa. Mostrar o concelho de Odemira como muitos o veem: uma linha ténue entre mar e campo, entre rural e oceânico. Como não existe no concelho, uma escola do Mar, de Agricultura, do Ambiente ou do Turismo? Como não existe um politécnico ou faculdade que oriente localmente cursos nestas áreas? Com Sines tão perto, como não existe mais formação orientada para sustentar toda a produção existente nestes dois concelhos? Se Odemira tivesse um estabelecimento de ensino superior ou equivalente, não só atrairia mais estudantes, como mais investigadores, bolseiros e todo o tipo de investimento tão necessário, como poderia ser o adjuvante para a alteração do status quo aumentando as taxas de manutenção dos jovens que hoje saem, mas que gostariam de ficar.

A ideia basilar que sustenta todas as diferentes propostas que serão apresentadas, parte do pressuposto de que Odemira é um concelho que muito promete e que muito pode dar ao país, um município cuja autenticidade não se pode comprometer pela falta de visão ou pelo excesso de inércia de quem o comanda.

Falta a Odemira uma liderança que coloque o concelho no caminho certo para a organização, estrutura e sucesso. Falta a Odemira uma liderança que se preocupe verdadeiramente com as vidas diárias dos seus habitantes. Falta a Odemira uma liderança que olhe para o futuro sabendo para o que vai e o que quer. Falta cumprir Odemira.