Este é o lema da minha vida que menos segui. Uma falha que pago caro, pois desde que trabalho que o faço no duro, e levarei o resto da vida a recuperar o tempo que perdi. Devo acrescentar que a ouvi ainda adolescente, cativou-me, a frase guardava dentro de si o segredo da vida, mas o certo é que se há algo que não podemos fazer é descobri-lo tão cedo. Para que serviria a vida se já sabemos para o que ela serve?

Para criar e ser o tal poeta à solta. Continuava assim. O que é ser poeta não interessa porque é nessa indefinição que cabe o imensidade que é o nosso ser. Agostinho da Silva, o autor da frase, morreu fez 25 anos no passado dia 3. Tive a sorte de me interessar pelo que ele dizia, a sorte de a minhã mãe, na altura médica pediatra no Bairro Alto, o ver todos os dias quando tomava o café da manhã no Príncipe Real e lhe ter dito, um dia, a pedido meu, que o seu filho gostaria de falar com ele. Era para um trabalho da escola e um excelente pretexto para uma conversa. Como é que um miúdo de 15 anos conversa com alguém com mais de 80 sobre assuntos como o não termos nascido para trabalhar; que a vida devia (e irá) ser gratuita; que um bom Presidente da República é aquele que quando alguém lhe diz que se deve candidatar responde prontamente que nem pensar; que ninguém na vida deveria querer ser como o Belmiro de Azevedo (à época o homem mais rico de Portugal) com todas as preocupações e cuidados que um homem rico transporta consigo. E sobre Deus e a Igreja, eu que vinha de um colégio católico, ouvi-lhe dizer que Deus era tudo o que existe. Espírito e matéria, com os homens como parte integrante do todo, homens livres, as três liberdades (cultural, de organização social e económica) através das quais cada pessoa consegue ter espírito crítico, ser parte crítica da vida com os outros e ter os meios necessários para se sustentar e se libertar das dependências que tolhem a sua criatividade.

Às tantas, no decorrer da nossa conversa, Agostinho da Silva disse que não podíamos ter a certeza do quer que fosse. Aí interrompi-o porque tal não era verdade. Todos temos a certeza que vamos morrer. Para meu espanto, perguntou-me como podia eu saber isso. Bom, é o futuro, é certo, mas um futuro a que ninguém conseguiu escapar, respondi-lhe. Confesso que nesse momento me decepcionei: uma coisa é filosofar, sonhar, questionar tudo e um par de botas, outra é duvidar que vamos morrer. Mas Agostinho da Silva manteve-se na sua: que eu não podia afirmar com certeza absoluta que nos próximos anos, fossem 10 ou 100 ou 1000, a ciência não descobrisse uma forma de fintar a morte. Hoje, quase 30 anos depois, há quem fale da morte como algo que pode vir a ser opcional.

Ser-se alguém que pensa é dizer o impensável. Se não se diz o que ninguém pensa de que serve pensar? De que serve dizer o que penso se não me criticam, pois que quando não o fazem é porque digo o que já é por todos sabido? Este é o valor da crítica para Agostinho da Silva: o ficarmos a saber que dissemos algo de novo; que acrescentámos alguma coisa a que essa crítica acrescenta depois outra, e que das duas algo de diferente, impensável, pode surgir. Durante todos estes anos fui desenvolvendo este gosto pela conversa que atinge o seu ponto alto quando alguém discorda de mim. É o ponto que me dá mais prazer, não pela batalha de argumentos, para pelo desconhecido que dali pode nascer.

Passaram 25 anos do desaparecimento de Agostinho da Silva e eu, que tive o privilégio de ter uma conversa com ele (o dia e hora foram combinados ao telefone com ele a dizer-me que estava com sorte, pois andava a treinar o aparelho a falar apenas para fora), não podia deixar passar a efeméride em branco. Os seus ensinamentos, o deslumbramento com que observava o mundo e que tão bem sabia passar aos outros, ainda são mais ajustados hoje que eram na altura.

Advogado