Da noite das facas longas surgiu o acordo: sim à Grécia no euro, sim à continuidade e à integridade da zona euro, oxi ao laxismo grego, oxi a mais dinheiro sem condições, oxi ao risco moral e a mais um resgate sem as verdadeiras reformas de que carece a sociedade e a economia gregas.
É definitivo? Pode não ser, pois a rua em Atenas talvez não goste do acordo nem de ter sido enganada por Tsipras e pela retórica colorida mas enganadora da extrema-esquerda. O referendo do oxi à austeridade não será esquecido, embora em boa verdade aquilo a que os cidadãos gregos disseram que não – o final do 2º resgate -, já não existisse e por isso, no rigor das coisas, muito paradoxalmente, o governo grego não terá enganado os seus eleitores, pois do que agora se trata é de um terceiro resgate. Mas o rigor neste caso é tanto ou tão pouco que quase podemos falar de um paradoxo de zenão: de tanto buscar o fim da austeridade, e estando cada vez mais perto dela, os gregos recebem… mais austeridade (mas não só, saliente-se, também reformas e, espera-se, um caminho sério para o futuro ao lado dos seus parceiros europeus).
O acordo, cujos termos vão ser dissecados nos próximos dias em pormenor mas que, naturalmente, é de uma enorme exigência para a Grécia, contempla igualmente um dos aspectos mais discutidos nos últimos tempos: a questão da dívida, que está definitivamente e (espera-se) de forma alargada – aos restantes países com dívidas igualmente impagáveis -, na agenda das reformas. O acordo não é por isso uma via de um só sentido, pois vai também ao encontro das aspirações gregas e da obrigatória reconstrução de uma união monetária muito imperfeita. Espera-se agora que avancem também as mudanças exigidas recentemente pelos cinco presidentes das instituições: completude da união bancária (sistema de garantia de depósitos, nomeadamente), união orçamental, união do mercado de capitais.
O acordo pode ainda ser negado, em parlamentos vários dos diferentes países da eurozona, a começar pelo grego. Neste, face ao paradoxo de zenão, tudo ainda pode acontecer, até uma queda do governo de Tsipras, ou uma divisão irreversível dos partidos do governo e entre eles. É mais do que previsível que no hemiciclo de Atenas uma aprovação do acordo – exigida pelo eurogrupo com carácter de urgência – seja obtida com apoio das oposições, do PASOK à Nova Democracia, passando talvez pelo Tó Potami, com a oposição de deputados… do Syriza. Há que elogiar a coragem do primeiro-ministro, ou talvez, no final, o seu desespero e a vitória do cansaço e do bom senso sobre o radicalismo triunfante das primícias.
Mas este acordo acaba, espero que de vez, com vários mitos inventados (em conjunto) pelas extremas – esquerda e direita, que tanto se congratularam com o Não no referendo, por elas saudado como a grande vitória do povo contra a ditadura dos credores.
Primeiro, o mito tão gritado da conspiração dos grandes países e em especial da Alemanha para expulsar a Grécia do euro. Como já tantas vezes disse – como já tantas vezes argumentei perante opiniões inabaláveis a esse propósito – se os restantes países da zona euro quisessem, a Grécia já há muito teria sido “empurrada” para fora do euro, sem drama nem noites das facas longas, através de um qualquer acordo intergovernamental que resolvesse os problemas jurídicos suscitados pela natureza da união monetária determinada pelo Tratado. Não foi assim porque todos têm, todos temos, a noção do que está em jogo, que é muito mais do que a Grécia, que é muito mais do que a Alemanha, que é o futuro da Europa como um continente competitivo e viável.
O segundo mito é o que considera que a zona euro pode ser uma espécie de hop in hop out, de que é possível sair e entrar “à vontade do freguês”. Na verdade, se e quando um país sair da zona euro – mesmo aqueles que nunca deviam ter entrado como a Grécia e, talvez, Portugal –, é a credibilidade do euro que fica posta em causa de forma que pode ser irreversível, e com ele a Europa e a União laboriosamente construída no seu todo. Por isso é tão importante que os líderes europeus, incluindo a Grécia, tenham podido chegar a acordo, dando também um sinal de vontade de manter íntegra essa zona monetária, repito, tão imperfeita mas tão importante para o bom funcionamento do mercado interno.
O terceiro mito é o das boas e das más democracias: a ateniense, mãe de nós todos, teria dado com o recente referendo e a extraordinária coragem do seu governo e dos cidadãos helénicos (e essa coragem, repito, existe verdadeiramente), uma lição de democracia às restantes (democracias) europeias, todas mais ou menos corrompidas pelo vício do mando e do poder, pela força das grandes corporações e dos mercados, pelos velhos e maus hábitos que os grandes de esmagar os pequenos. O povo, os velhos e novos atenienses, espartanos, gregos, ergueram-se nas urnas e disseram óxi e rejeitaram os ditames de Bruxelas e das ditaduras forjadas nos Tratados europeus, do da União ao orçamental. A lição, afinal, é outra: este é um projecto complexo e difícil, onde tudo se joga em consensos e, paradoxalmente, em cedências e compromissos. Um projecto que exige, é certo, sacrifícios: sacrifícios gregos, como vai ter de acontecer, mas também reformas, espera-se que desta vez sérias e credíveis, sacrifícios também dos restantes europeus, que vão ter de pagar mais um programa de assistência grego (o terceiro) de grandes proporções, mas também uma promessa de futuro dentro da União dos povos da Europa, em prol de todos e de cada um.
Termino esta breve e rápida prosa sobre a notícia de um acordo saído de uma noite de homens e mulheres sem sono, onde a ruptura esteve iminente e o futuro já só se apresentava para além de uma parede de bruma e desconhecido, ciente de que tudo ainda pode ser revertido, num qualquer parlamento da União, voz e vontade dos povos. Mas hoje, com o tão desejado agreekment, como lhe chamou Donald Tusk, e perdoar-me-ão os leitores que conhecem há muito a minha convicção sobre este projecto europeu exigente e esperançoso, hoje congratulo-me com o optimismo que – ainda no correr da noite que acompanhei à distância – mantive, não por inconsciente cegueira mas por uma fé constante no bom senso dos homens.
A Europa persistiu, vacilou, resistiu. Mas a Europa não morreu ontem, na noite das facas longas.

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