Temos de reconhecer que o Syriza não é um partido como aqueles que têm governado os países da União Europeia desde sempre. Talvez os haja fora da Eurozona, incluindo em Inglaterra, onde há quem ponha em dúvida a pertença à UE, mas não aqui. Berlusconi chegou a ser uma ameaça devido ao seu nacional-populismo, que nunca compreendeu o sentido da criação da União Monetária, mas a Eurozona conseguiu forçar o Parlamento italiano, com a ajuda dos tribunais, a substituí-lo no auge da crise financeira italiana, por alguém da escola europeia, Mario Monti, infelizmente afastado entretanto. Por muito que faça pasmar a maioria das pessoas, o Syriza é um partido revolucionário e nacionalista, anti-euro, anti-europeu e claramente pró-russo na perspectiva de uma alegada «terceira-guerra mundial».

O Syriza parece ter-se convencido genuinamente que a crise grega se deve às obrigações impostas pelos credores das sucessivas bancarrotas depois de 2010 e não à incapacidade dos anteriores governos gregos em ajustar o país à convergência monetária, levando assim a Grécia à dívida impagável e perdendo o acesso aos mercados. Ou então as duas coisas: os responsáveis seriam a UE e os dois partidos dominantes do sistema político grego, mas nunca a evasão fiscal, nem os sindicatos do sector público agarrados aos seus privilégios corporativos, nem tão pouco a virulência dos manifestantes anti-austeridade…

Entre nós, fechados nas tricas partidárias sem horizonte, tem-se prestado ultimamente pouca atenção à dança macabra que prossegue nas instâncias europeias em torno do novo resgate da Grécia. Por risível que pareça, o PS local ainda pretendeu criticar o governo português por não ter apoiado as pretensões gregas a receber mais dinheiro sem se comprometer com nada. O certo, porém, é que a dança dura há mais de três meses: a Grécia está à beira de uma terceira bancarrota em menos de meia dúzia de anos, mas o Syriza não cede nem o Eurogrupo perde a paciência.

A maioria dos comentadores internacionais já percebeu que se está a jogar aquele jogo de olhos nos olhos até que um dos adversários pisque primeiro as pálpebras. E por curioso que pareça há muito quem pense que o Syriza não será o primeiro a fraquejar. Com efeito, só por extrema diplomacia vizinha da ironia ou então por completa ignorância da realidade é que ainda há comissários europeus, socialistas naturalmente, que parecem falar a sério ao lamentar que o Syriza “não se tenha esforçado mais» em apresentar as suas contrapartidas, mas que certamente o fará nos dias ou semanas que vêm, enquanto se aproxima a data em que irá faltar dinheiro nos cofres gregos (sim: os cofres estão cheios ou vazios)!

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O certo é que o Syriza ainda não pestanejou e já estamos, pelo menos, no terceiro ou quarto prazo inadiável que lhe é apresentado! Na verdade, o Eurogrupo não está preparado para enfrentar um governo como o grego. O que se passa é que o Syriza tem porventura menos a perder do que se julga ou, pelo menos, assim crê. Se o Eurogrupo acabasse por ceder perante o receio de uma saída desordenada do euro por parte da Grécia, pagando-lhe a última tranche do segundo resgaste e, já agora, prometendo mais uma dezenas de biliões de dinheiro fresco sem contrapartidas sérias e verificáveis, seria uma vitória retumbante do Syriza e dos seus parceiros!

Em Espanha, o Podemos embandeiraria em arco e, em Portugal, Passos Coelho poderia dizer adeus ao governo e os portugueses engolir todos os sacrifícios que fizemos, enquanto o PS voltaria às suas raízes despesistas e a facção galambista – chamemos-lhe assim, do apelido do deputado – festejaria o seu dia de glória. É que a eurozona e o resto da UE parecem não se dar conta de várias coisas. Primeiro: o Syriza não vai pestanejar. Segundo: se e quando o eurogrupo lhe cortar as vazas, ficará feliz por se livrar do colete-de-forças e venderá a derrota como vitória aos eleitores gregos. Terceiro: nunca iria cumprir as metas prometidas, mesmo que quisesse, e o país continuaria a sofrer com ou sem a descolagem do euro. Quarto: o sofrimento da população alimentaria o revanchismo anti-europeu, em especial contra os alemães. Por fim, o Syriza suprimiria qualquer oposição às suas políticas de empobrecimento maciço e poderia vir a impor, com ou sem voto, um regime que, neste momento, apenas podemos conceber como uma espécie de venezuelismo sem petróleo sequer. Os olhos não lhes tremerão, disso podemos estar certos!

Entretanto, a Europa incorreria em riscos impossíveis de quantificar antecipadamente e por isso é que o mundo financeiro tem medo do Grexit. É este o cálculo de Tsipras e foi isso que o inevitável Krugman foi dizer em Atenas, mas ele não mora lá. O certo é que o primeiro país a sofrer com esses riscos seria Portugal. Imaginemos só que um qualquer “social-galambismo” teria chegado a S. Bento: quem tivesse dinheiro no banco ia a correr tirá-lo de lá! Em suma, quanto melhor forem as coisas para o Syriza, tanto pior para a UE, a começar por Portugal. É isso que é urgente perceber. Desde logo, evitando conceder qualquer espaço ao facilitismo económico que o PS não cessa de pregar.