Se quiser manter a sua credibilidade e poder de influência na opinião pública, a Amnistia Internacional, tal como qualquer outra organização não-governamental, não pode ter dois pesos e duas medidas e vergar-se perante o poder político.

Vem isto a propósito da notícia de que a Amnistia Internacional retirou o estatuto de “prisioneiro de consciência” a Alexey Navalny, um dos líderes da oposição não-sistémica ao regime do presidente Vladimir Putin.

A justificação que esta organização dá para esta decisão prende-se com declarações feitas por Navalny em meados dos anos 2000, quando ele fez parte de várias organizações nacionalistas russas. “O nosso departamento jurídico e político, depois de estudar as declarações de Navalny de meados dos anos 2000, concluiu que elas atingem o nível do atiçamento ao ódio”, justificou Alexandre Artemiev, dirigente da secção da AI para a Europa de Leste e Ásia Central”, acrescentando: “Ele apoiou a crueldade e a discriminação e não renunciou a semelhantes declarações.”

Não há dúvida que há fundamentos reais para essa acusação. Ele afirmou, por exemplo: “A minha opinião é que não há necessidade de tabu em torno deste tema (imigração e conflitos inter-étnicos). O fracasso do nosso movimento liberal-democrático deve-se ao facto de que, em princípio, eles consideraram alguns temas perigosos para a discussão, incluindo o tema dos conflitos inter-étnicos nacionais. Enquanto isso, esta é uma agenda real. É preciso admitir que os imigrantes, inclusive os do Cáucaso, costumam vir para a Rússia com os seus valores muito peculiares. Os russos superaram esse nível de preconceito na época de Yaroslav, o Sábio. Por exemplo, na Chechénia, mulheres que andem sem lenço na cabeça são baleadas por uma arma de paintball, e Ramzan Kadyrov declara: ‘Muito bem, rapazes, sois verdadeiros filhos do povo checheno!’ Então, esses chechenos vêm para Moscovo. E eu tenho mulher e filha aqui. E não gosto quando as pessoas que dizem que as mulheres deveriam levar um tiro de paintball por andarem sem lenço imponham as suas próprias regras aqui.”

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Além disso, Navalny apoiou de alma e coração as invasões da Geórgia (2008) (chamando “roedores” aos georgianos) e da Ucrânia (2014) por tropas russas, actos que constituem uma violação grosseira do Direito Internacional e cujas consequências funestas se continuam a sentir.

Mas aqui coloca-se uma questão. Porque é que só agora a Amnistia Internacional tomou esta posição? Essas declarações não eram segredo para ninguém em 2011, quando, depois de Navalny ter sido detido e condenado por um tribunal russo por participar em manifestações de protesto contra a política do Kremlin, a organização o considerou “prisioneiro de consciência”.

Menos segredo eram, há um mês e meio, quando a AI voltou a considerar Navalny “prisioneiro de consciência”, depois de ele ter sido detido num dos aeroportos de Moscovo quando regressava da Alemanha, onde esteve internado para se salvar de uma tentativa de envenenamento organizada pelos serviços secretos russos.

A resposta talvez esteja na campanha internacional lançada por órgãos de propaganda: a televisão Russia Today, jornal Sputnik, etc., com vista a denegrir a imagem do principal opositor de Vladimir Putin. O próprio Alexandre Artemiev reconhece, em declarações ao jornal electrónico Mediazona, que “ficou-se com a impressão de que os pedidos de investigação para verificação das declarações de Navalny foram parte de uma campanha coordenada para o seu descrédito no estrangeiro”.  Como foi conseguido apurar, alguns dos queixosos são visitas frequentes do canal televisivo financiado a peso de ouro pelo Kremlin para desinformar a opinião pública internacional.

Para não ficar totalmente mal na fotografia, ou para tentar agradar a gregos e troianos, Artemiev frisou que a AI continuará a exigir a libertação do opositor russo porque ele “é perseguido apenas por motivos políticos”.

E a decisão da AI torna-se ainda mais estranha quando a organização reconhece o estatuto de “prisioneiro de consciência” a rappers espanhóis que apelam claramente à violência e defendem o terrorismo, escudando-se por detrás da “liberdade de expressão”.

A liberdade de expressão não significa que as pessoas possam dizer tudo o que lhes vem à cabeça, nem mesmo de “forma poética”. É preciso também respeitar a liberdade dos outros, mas, pelos vistos, para a AI, as palavras de Pabel Hásel: “O carro do Patxi López merece explodir!”, ou ameaças como “Mereces um tiro, vou-te esfaquear, arruinaste-me, vou arrancar-te a pele às tiras”, são menos radicais do que as palavras de Navalny. Já para não falar do apoio aos terroristas da ETA e de outras organizações do género.

A Amnistia Internacional nasceu para denunciar e lutar contra a violação dos direitos humanos por regimes opressivos, independentemente da cor política, mas desta vez falhou.

P.S.: Se Pabel Hásel e outros rappers espanhóis com discurso semelhante ao dele fossem cidadãos russos, não seriam condenados a nove meses de prisão, mas a, pelo menos, 10 anos. Na Rússia, há dezenas de presos políticos, mas não ouço, em Portugal, as vozes dos que se levantam pela libertação de Pabel manifestarem-se contra a máquina repressiva de Vladimir Putin, nem tão-pouco organizarem abaixo-assinados contra a violação dos direitos do homem na Putinlândia.