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A direita portuguesa está dividida. De um lado sociais-democratas, representantes da cultura previamente dominante, enfraquecidos após o reinado de Passos Coelho e pela antipatia que têm a Rio; de outro lado liberais, população altamente heterogénea, misturando verdadeiros liberais europeus com conservadores adeptos do liberalismo económico; conservadores, liberais e não liberais, verdadeiramente perdidos entre Rui Rio e André Ventura; democratas-cristãos mais perdidos ainda, entre Rio, Ventura e Rodrigues dos Santos; e por fim os radicais, nacionalistas, podendo ser ou não xenófobos ou racistas. Estes sim têm uma casa bem definida no Chega.

Da convivência destas sensibilidades resulta hoje desunião e afastamento onde antes existiam cedências e criação de consensos. De facto, onde a direita parece hoje ideologicamente unida é apenas na luta contra o discurso politicamente correto, que consideram irremediavelmente pró-minorias, revisionista e anti-tradicionalista.

O problema é que isto tem conduzido uma parte da direita a teses em extremo politicamente incorretas, como algumas anti-ambientalistas, anti-minorias e até teses negacionistas no que diz respeito à pandemia, levando a novo afastamento ideológico entre as partes.

Naturalmente não se pode negar que a direita está hoje unida contra o Partido Socialista e que esse facto poderia chegar por si só para ganhar eleições. Só que não chega, Portugal não é um país de direita e ainda exige mais à direita do que à esquerda para lhe dar a maioria na Assembleia da República.

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Neste sentido, é hoje amplamente defendido que o que uniria a direita seria a imposição de uma liderança liberal no PSD, conforme tentado por Paulo Rangel.

A corroborar essa linha de argumentação está a vitória do PSD em 2011. Passos Coelho apresentou-se a eleições como um liberal e ganhou, o que comprova a superioridade do liberalismo em termos eleitorais. Mas esse é um engano, o liberalismo não ganhou as eleições, José Sócrates perdeu as eleições. Passos Coelho ganhou, Rio teria ganho, na volta até Francisco Rodrigues dos Santos teria ganho.

Conforme se mostrou nas recentes eleições do PSD a direita é muito mais o conjunto das sensibilidades mencionadas previamente do que a predominância do liberalismo. É exatamente por isso que a direita não precisa de um novo partido ou de uma ideologia mais unificadora e por isso predominante perante as restantes.

O que a direita precisa é de uma personalidade que seja uma figura tutelar que permita conciliar todas as suas sensibilidades. Passos Coelho foi essa figura tutelar, unificou a direita em torno dele. É verdade que à data não existia IL nem Chega, mas também é verdade que estes partidos existem pelo vazio criado pela sua saída.

Por outro lado, Rui Rio tinha quase tudo para ser essa figura tutelar no país, após tê-la sido no Porto. Não conseguiu, não por ser social-democrata ou de centro, nem sequer por ser do norte ou por ter “má-imprensa”. Não o conseguiu pela forma como desvalorizou o legado de Passos Coelho, para muitos imperdoável até aos dias de hoje.

Até o PSD encontrar essa figura António Costa conservará pacificamente o poder, alternando apoios entre a esquerda e a direita conforme as circunstâncias o ditarem.