Toda a gente conhece o clássico tema dos Azeitonas “Anda comigo ver os aviões”, em que um jovem convida o seu interesse amoroso a ir passear ao aeroporto, ao estaleiro ou ao centro de lançamento de foguetões. Trata-se de um Casanova com talento para transformar em romance qualquer visita a um cais de embarque. Não contem com ele para flores. A não ser que estejam em trânsito num camião de mercadorias.

Sempre achei que estes galanteios fossem uma excentricidade de artista, mas estava enganado. Pelos vistos, o hábito de seduzir com aviões não é assim tão invulgar e até políticos, conhecidos pelo seu formalismo, o usam como expediente. Neste momento, o nosso Ministro das Infraestruturas e Habitação, Pedro Nuno Santos, está a tentar utilizar uma companhia aérea para engatar o povo português. A sua gestão do dossier TAP serve para impressionar eleitores numa futura candidatura a Primeiro-Ministro, com declarações cheias de bazófia sobre como a transportadora vai ser salva pelo Governo. Eu não sei se o leitor se deixa impressionar, mas confesso que, quando vejo Pedro Nuno Santos a falar de aeronaves, começo a corar.

Pedro Nuno Santos é conhecido pelas suas grandes tiradas. Há uns anos foi a tirada dos banqueiros alemães com as pernas a tremer por não se pagar a dívida. Depois, a tirada do Porsche que vendeu por não fazer sentido um socialista ter um carro de luxo. Mais recentemente, a tirada de o PS nunca mais precisar da direita para governar. Mas aquela que vai marcar os portugueses é a tirada de dinheiros públicos para despejar na TAP.

Pedro Nuno Santos já se estava a ver a resgatar a TAP, mas começa a perceber que, afinal, gerir a empresa não é assim tão simples. Aquelas promessas de não serem necessários despedimentos e de as rotas para o Porto serem para manter, se calhar não podem mesmo ser cumpridas. Como, aliás, já se previa desde Março. A única diferença em relação a Março é que o accionista privado foi substituído pelo accionista privado de calculadora que lhe permita fazer contas.

O nosso Ícaro de São João da Madeira apanhou-se com asas, apontou lá para cima e correu mal. Felizmente para Pedro Nuno Santos, ao contrário do Ícaro original, um Ministro pode ser gabarolas à vontade, que não lhe acontece nada. As asas até podem escangalhar-se e cair, mas ele safa-se sempre. Tem um arnês ligado ao Governo.

O problema com governantes socialistas e a gestão é a fanfarronice com que julgam tratar-se de um trabalho fácil. E que um gestor privado só não gere bem por ser burro ou desonesto. Ou ambos, às vezes acumula. Quando são eles, é limpinho. Pudera, estão a administrar o que não é deles, com capital de outras pessoas que não lhes pedem contas. Assim, não custa nada. Literalmente.

É como as proverbiais calças do meu pai, com as quais também eu sou um grande homem. Neste caso, são as calças do Estado. Com elas vestidas, também Pedro Nuno Santos se sente um grande gestor. Sucede, que PNS estava convencido de que o Estado tem os bolsos fundos, mas entretanto percebeu que, na realidade, o Estado tem é os bolsos sem fundos. Pode parecer pequena, mas é uma diferença substancial. Quando os ministros metem as mãos nas algibeiras do Estado para sacar, de facto parece que não chegam ao fim. Só que não é por serem bolsos muito longos, é por estarem rotos. O Estado português tem as calças esfarrapadas como um mendigo. Mas o que interessa isso, se é dono de uma companhia aérea?