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Custou mas foi. A 31 de julho de 2020 desfiliei-me do PSD depois de uma ligação afetiva que remonta ao impacto da morte trágica de Francisco Sá Carneiro, e a quinze anos de militância partidária estéril. À medida que o correr do tempo me impõe uma arrumação mental radicalmente à direita (no sentido de ir à raiz do ideal político enquanto fenómeno moral, intelectual, social, histórico), o PSD agravou a rota em sentido inverso. Não dá mais.

A fulanização conta, mas não é o essencial. Os ideais políticos patrocinados por Rui Rio, José Pacheco Pereira, Manuela Ferreira Leite ou Luís Marques Mendes venceram as duas últimas eleições internas consecutivas no PSD quando tudo já era demasiado óbvio, o que quer dizer que existe um substrato mental e identitário relevante no interior do partido que continuará eternamente ancorado num passado histórico morto, o do tempo da direita boazinha que se limita a ser aquilo que a esquerda permitia que ela seja. Claro que existe uma outra componente do PSD, mas para essa sobra uma porta de saída cada dia mais escancarada.

Não é possível manter funcional uma identidade coletiva nos mesmos moldes quando a realidade circundante faz emergir do seu interior dois universos morais, intelectuais e existenciais incompatíveis. O Chega é ao mesmo tempo a causa e a terapia do PSD, e a vantagem está nos que agregam, não nos que se balcanizam seja por razões internas, seja pelo contexto externo.

A conjugação entre uma e outra evidencia que direita e esquerda são incompatíveis e é justamente a esquerda dita moderada, dado o seu peso político e eleitoral, o núcleo mais nefasto das democracias ocidentais. Chegou o tempo da democracia portuguesa amadurecer através da clarificação inequívoca entre esses campos políticos, uma questão de princípio absolutamente fundamental.

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Tal clarificação é o pressuposto da estabilidade social e política e da prosperidade económica, isto é, por ela passa a restauração da dignidade portuguesa. Se os partidos políticos são meros instrumentos de um processo em que o substantivo é a renovação da mente coletiva no que ela tem de moral, intelectual e cívico, no entanto a liderança partidária será decisiva para que isso aconteça, sobretudo num momento em que das classes médias às mais desfavorecidas a perceção do fenómeno político está a mudar rapidamente.

Tendo em conta que a transformação social tem no seu âmago (finalmente!) a representação crescente da esquerda enquanto movimento político moralmente nefasto e intelectualmente desqualificado, quem à direita melhor demarcar o seu espaço em relação à esquerda, mais abrirá as portas para um Portugal distinto para melhor. Três ordens de razões complementares garantem a concretização dessa possibilidade: uma moral, outra histórica e uma última pragmática ou instrumental.

A razão moral

Se admitirmos que direita e esquerda fazem sentido, temos de admitir também que são moralmente diferentes. O primado moral que orienta a direita é necessariamente distinto do primado moral que orienta a esquerda. A direita submete-se à tradição milenar judaico-cristã e filosófica gerada na Antiguidade Clássica que, na substância, se define pela autorresponsabilidade, isto é, a responsabilidade pelo destino coletivo é remetida para o interior do sujeito, seja ele um sujeito individual ou um sujeito coletivo. A esquerda, da moderada à radical, submete-se ao primado moral da vitimização nascido da tradição soviética e, neste caso, a responsabilidade pelo destino coletivo é remetida para fora do sujeito, para o que o sujeito toma como o seu opressor.

Trata-se de orientações morais antónimas com consequências necessariamente antagónicas, entre a viabilidade e a inviabilidade da vida coletiva. Uma resiste há cerca de três milénios e meio. A outra foi testada sem ambiguidades apenas no último século (resulta da revolução bolchevique de 1917) e, na forma precoce, no máximo remonta à revolução francesa (1789). Ou seja, não estão em causa diferençazinhas acidentais, antes dois universos existenciais tão inconfundíveis quanto incompatíveis. Logo, moralmente só existe uma direita e só existe uma esquerda (a eterna vítima que jamais entenderá que um Estado sobre endividado é uma aborto moral e apenas uma Sociedade compelida a perder o respeito por si mesma tolera tal desmando).

É por isso que esquerda democrática moderada e esquerda socialista radical (em Portugal, da socialista à bloquista e comunista) são moralmente a mesma coisa. É preciso viver numa crise moral profunda para não admitir tamanho óbvio.

A razão histórica

No caso da razão histórica, chamo a atenção para o significado da guerra fria (1945-1991), uma vez que o mundo é produto direto dessa herança. No tempo da guerra fria, a nível ideológico, político, social, económico, militar, geoestratégico o sistema internacional viveu fragmentado em dois blocos radicalmente antagónicos e que, por isso mesmo, tiveram desfechos distintos. Foi talvez a época histórica mentalmente mais caótica cuja terapia continua adiada. O bloco ocidental ou capitalista era liderado pelos EUA correspondendo ao campo das democracias, das sociedades livres, das economias de mercado, da liberdade individual ou religiosa, por aí adiante. O bloco de leste ou comunista era o campo das ditaduras, das economias estatizadas, das sociedades compulsivamente coletivizadas, dos abusos do Estado sobre o indivíduo.

É preciso viver na mais pura alienação mental para acreditar que serão os herdeiros do último campo que nos tratarão, no século XXI, a liberdade e a prosperidade. Trata-se de uma falcatrua infantil na qual, pelos vistos, uma parte significativa dos eleitores portugueses acredita. Combater isso é o mais elementar dever cívico em nome da sanidade mental coletiva.

Desde a revolução soviética de 1917 que os ventos comunistas foram penetrando no mundo ocidental e, durante a guerra fria, descontadas as franjas radicais de esquerda (leninistas, estalinistas, trotskistas, maoístas), a esquerda ocidental era essencialmente social-democrata, no sentido moderado do termo, porque o contexto impunha a necessidade de se demarcar do bloco soviético inimigo como condição de legitimar a sua existência nas democracias ocidentais e, por isso mesmo, demarcava-se das esquerdas extremistas.

Com o fim da guerra fria dada a implosão da URSS, em 1991, o Ocidente deixou de ter um bloco inimigo ostensivo. Logo, as esquerdas do mundo ocidental, no seu conjunto, perderam a necessidade de se demarcarem da URSS e foram-se aproximando entre si, ao mesmo tempo que se aproximavam da sua matriz mental originária: leninista, estalinista, trotskista, maoísta.

Daí em diante e até hoje, a esquerda ocidental tornou-se crescentemente numa só, fenómeno dificilmente reversível por causa do primado moral. Nos EUA o Partido Democrata foi cada vez mais absorvido por franjas radicais de esquerda e, em Portugal, essa tendência histórica foi acelerada, desde 2015, quando António Costa instituiu a Geringonça tornando ainda mais difícil distinguir socialistas de bloquistas ou comunistas. Exemplos do que ocorre por todo o mundo ocidental.

Resumindo, o curso da história retirou razão de ser à fragmentação da esquerda em tendências. A direita (minimamente) inteligente e decente deve atuar de acordo com o princípio da realidade olhando para a esquerda como é, um tronco moral e histórico comum.

A razão pragmática ou instrumental

A razão pragmática ou instrumental não é menos fundamental do que as anteriores para que as sociedades se possam libertar de disfuncionalidades e atrasos. A portuguesa como outras.

Desde a revolução francesa (1789) e, seguramente, desde a revolução soviética (1917) a esquerda tem crescido por cissiparidade. Quanto mais ela se subdividiu, mais forte e hegemónica se tornou. E quanto mais assim foi, tanto maior a desgraça dos povos. E foi a ingenuidade da direita que deu esse trunfo de mão beijada à esquerda, uma direita ocidental tornada irresponsável por continuar a insistir em tamanho erro, crescentemente inadmissível desde o final da guerra fria.

Em Portugal, Rui Rio é o exemplo mais anacrónico da ilusão de separar a esquerda democrática ou moderada da esquerda radical para se aproximar da primeira imaginando que isso possa ser benéfico para o que quer que seja. Daí que, nesta última leva dos desastres sucessivos das governações socialistas, o PSD ficará para sempre corresponsável. Se os militantes lúcidos que vão restando no partido não percebem isso, também não perceberão mais nada.

Não é necessária especial perspicácia para entender que a esquerda trata a direita como uma só – de forma manifesta ou latente, toda a direita para a esquerda é má, ignorante, neoliberal, fascista –, estratégia cujo impacto no pensamento de senso comum é de extrema eficácia, o que se traduz em resultados eleitorais. O senso comum simplifica e será sempre inevitavelmente redutor na interpretação das mensagens. Quem estuda o pensamento social sabe que isso só é problemático quando não se dá atenção ao papel do primado moral na condução do destino das sociedades. É por isso que é em sociedades moralmente falidas, dominadas por relativismos, que a esquerda vive como peixe na água.

E como é que a direita boazinha responde? Aceitando ser tratada e descartada pela esquerda como uma só, enquanto trata a esquerda com as tonalidades que esta gosta e impõe. Essa direita boazinha inútil em Portugal corresponde provavelmente a metade do PSD e do CDS.

Nota final

André Ventura tornou-se o primeiro político em Portugal com capacidade efetiva de inverter a situação: passar a tratar toda a esquerda como uma só e fragmentar a direita, a cissiparidade que permite a afirmação social de um campo político. É tempo da esquerda provar do seu próprio veneno. Se e o Chega conseguir associar o que já conquistou a um conservadorismo convincente nas questões sociais e culturais e a um não menos convincente liberalismo no campo económico terá condições únicas para crescer no espaço político português e, eventualmente, poder vir a ganhar eleições a prazo.

Não se tenham ilusões. A estabilidade do jogo partidário é proporcional à sustentabilidade do progresso económico. Na matéria, a sociedade portuguesa não se confunde com a norte-americana, inglesa ou alemã. André Ventura abre a autoestrada para o futuro de Portugal enquanto Rui Rio vai apagando luzes e fechando portas.