Incêndios

António Costa, a vela e o fogo

Autor
167

No ato da criação do Mundo, Deus descansou ao sétimo dia. No caso do incêndio que assolou a zona algarvia, António Costa, ao sexto dia, veio descansar os portugueses.

A imagem tinha tudo para correr bem. A reflexão tinha sido longa. Cinco dias a maturar no reino dos tweets. Ao sexto dia, a comunicação pública não de uma epifania – a sorte que os crentes têm de as ideias lhe chegarem sem trabalho – mas de uma construção do pensamento costista.

No ato da criação do Mundo, Deus descansou ao sétimo dia. No caso do incêndio que assolou a zona algarvia, António Costa, ao sexto dia, veio descansar os portugueses. Afinal, aquele fogo, malgrado as várias frentes, representava uma exceção única no sucesso da política governamental de combate aos incêndios.

Depois, veio a lume – expressão pouco aconselhável na atual conjuntura – a imagem tão longamente elaborada: a vela de um bolo de aniversário todos nós apagamos com um sopro. Uma imagem claríssima, ainda que os céus algarvios estivessem cobertos por nuvens escuras de fumo. Nuvens tão espessas que exigiam a evacuação de povoações e tiravam os veraneantes das praias.

Nada que incomodasse a criatividade costista. A um governante é lícito invocar festas de aniversário no meio da desgraça alheia. Uma figura de estilo é isso mesmo. Só não compreende quem não quer ver. Ou quem quer ver e não enxerga bem devido às listas de espera para uma consulta de oftalmologia no Serviço Nacional de Saúde. Contas de um rosário que não convém desfiar. Se as listas de espera são a perder de vista, há que saber adaptar-se. Escolher outra doença. Há especialidades – poucas, é certo – onde a espera pela consulta é curta.

Voltando à questão da imagem, talvez não seja abusivo dizer que tem muito a ver com o facto de António Costa se preparar para apagar a vela de mais um orçamento. Os últimos meses têm sido passados a treinar o sopro. O primeiro-ministro não quer imprevistos. Já mandou imprimir os convites. Teve de se empenhar para convencer os convidados que se fingiam descontentes. Aqueles que ameaçavam faltar à festa, mesmo estando mortinhos por serem convidados.

Por isso, fizeram exigências. Aquelas que sabiam que, mais milhão menos milhão de euros, António Costa estava disponível para atender. Não é altura apropriada para olhar para o fundo do cofre, ainda que o discurso oficial já não esconda, pontualmente, essa inquietação.

Os convidados querem ajudar a apagar a vela. Só que, ao contrário da imagem costista propagandeada em Monchique, a vela não se apagará de um sopro. Verdade que o Governo recusou colocar no bolo orçamental uma vela daquelas que, mal se apagam, voltam a reacender. Uma escolha a que não foram alheios os reacendimentos habituais nos incêndios reais. Só que os parceiros bateram o pé. Na impossibilidade de usarem esse tipo de vela, exigiram que ao lado da vela, fossem colocados dois daqueles pauzinhos que se consomem enquanto vão deitando pequenas faúlhas.

Um fogo-de-vista momentâneo e inócuo. Até porque o Governo de António Costa revelou-se solidário com os fracos resultados dos alunos nos exames nacionais de Matemática e errou os cálculos que lhe permitiriam o controlo do SIRESP.

A continuar assim não demorará muito para que Costa confirme as palavras de Henry David Thoreau: «o melhor governo é o que absolutamente não governa».

Professor de Ciência Política

Todos queremos saber mais. E escolher bem.

A vida é feita de escolhas. E as escolhas devem ser informadas.

Há uns meses o Observador fez uma escolha: uma parte dos artigos que publicamos deixariam de ser de acesso totalmente livre. Esses artigos Premium, por regra aqueles onde fazemos um maior investimento editorial e que mais diferenciam o nosso projecto, constituem a base do nosso programa de assinaturas.

Este programa Premium não tolheu o nosso crescimento – arrancámos mesmo 2019 com os melhores resultados de sempre.

Este programa tornou-nos mesmo mais exigentes com o jornalismo que fazemos – um jornalismo que informa e explica, um jornalismo que investiga e incomoda, um jornalismo independente e sem medo. E diferente.

Este programa está a permitir que tenhamos uma nova fonte de receitas e não dependamos apenas da publicidade – porque não há futuro para a imprensa livre se isso não acontecer.

O Observador existe para servir os seus leitores e permitir que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia. Por isso o Observador também é dos seus leitores e necessita deles, tem de contar com eles. Como subscritores do programa de assinaturas Observador Premium.

Se gosta do Observador, esteja com o Observador. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Angola

Marcelo, banhos de multidão e história revisitada

José Pinto

Os banhos de multidão não traduzem por inteiro o estado das relações entre Portugal e Angola. O desanuviamento só é de saudar se for acompanhado por medidas concretas e não se limitar a frases feitas.

PSD

Rui Rio e o interesse nacional

José Pinto
117

O eleitorado do PSD já percebeu, parece que ao contrário do líder do partido, que manter Costa à frente dos destinos do país não serve em nenhuma circunstância o interesse nacional. Bem pelo contrário

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)