Na madrugada de 21 de Julho, no final do Conselho da Europa, mais uma vez o Sol despontou sobre um ridente porvir. E os raios dessa aurora forte foram como beijos de mãe, que nos guardam, nos sustêm, contra as injúrias da sorte. A voz dos egrégios avós fez-se de novo ouvir nos nossos corações. Finalmente, vamos poder marchar de novo. Contra canhões, contra bretões, contra holandeses, contra o que nos apetecer.

Lá custou, mas foi. E eu, que penso a curto prazo, confesso que fiquei aliviado. Até porque aquela nova regra do cumprimento cotovelar lembra irresistivelmente as já longínquas cordialidades trocadas entre Paulinho Santos e João Vieira Pinto nos campos de futebol, e suspeito que em certas madrugadas destes dias em Bruxelas a semelhança tenha sido grande. Ficaria mais aliviado, é verdade, se com o dinheiro todo que chega viesse também a polícia, que não tenho confiança nenhuma na gente que nos governa e pouquíssima em quem aspira, se aspira, a substitui-la. Mas entre isso e a miséria, o desemprego maciço e a quantidade indescritível de desgraças que se avizinhavam, não hesito. Claro que tudo tem um reverso. E o reverso não é propriamente o ideal para o amor-próprio. É o nosso bem conhecido sentimento da inferioridade de Portugal, que nestas ocasiões partilho com muita gente.

Não me refiro aos festejos nacionais por causa do milagre da segunda vinda de Jesus. Em Portugal, só um louco ou um místico é que não estariam à espera de mais uma manifestação da menoridade que é a célebre “paixão” pelo futebol. A tal inferioridade exemplificou-a, melhor do que ninguém, Fernando Medina. Para o presidente da câmara de Lisboa, os Países Baixos e “os seus amigos forretas” (é impressionante como Medina imita os hábitos vocabulares do seu chefe) “estão a fazer o papel do Reino Unido”. Medina que, com o seu ar lisinho de menino bem-comportado, contribui como pode para o descrédito do regime, mede os inimigos pelo grau em que os governantes europeus se preocupam em representar os seus povos e em defender os interesses destes. O que dá bem a ideia de como, apesar de certas aparências em contrário, tais preocupações lhe são por inteiro alheias. Medina é a inferioridade a falar pela inferioridade, autoretratando-se.

João Miguel Tavares, no “Público”, notou que “depois da pedinchice, celebramos com altivez”. É o resultado natural desses “beijos de mãe” que, como notava Henrique Lopes de Mendonça, “nos guardam, nos sustêm, contra as injúrias da sorte” e nos fazem pressentir “um ridente porvir”. Que é como quem diz: “Brade a Europa à terra inteira: Portugal não pereceu!”. A conjunção da pedinchice e da altivez é um clássico, que uma expressão portuguesa, de resto, define exemplarmente: pobre e mal-agradecido.

Se estou de acordo com o grosso do artigo de João Miguel Tavares, há, no entanto, um ponto relativamente ao qual não posso evitar uma divergência por assim dizer teórica. Escreve ele: “Como bem intuiu Hergé, seremos sempre os Oliveira da Figueira da União Europeia. Os vendedores de objectos exóticos, os organizadores de grandes eventos e os distribuidores de brindes inúteis. Na cabeça dos nossos políticos, não damos para muito mais”. Ora, é verdade que o génio de Hergé apanhou alguns traços essenciais nossos através da figura do senhor Oliveira da Figueira. Acontece, no entanto, que estão longe de serem os piores e que aquilo a que assistimos hoje em dia releva do pior.

Senão, vejamos. Oliveira da Figueira, português das Arábias, tenta vender a Tintim gravatas sortidas e um conjunto de sabres (“verdadeiras lâminas de Toledo”), oferecendo como brindes um despertador, uma escova de dentes e uma esferográfica. E, findo o encontro, Tintim acaba carregado de compras tão diversas quanto inúteis: esquis, tacos de golfe, um papagaio na sua gaiola, uma cartola, uma casota de cão e mais algumas coisas. É um sucesso, até porque Tintim se ilude sobre a sua própria imprudência: “Felizmente, não me deixei ir na conversa dele. A tipos como este, acaba-se quase sempre por comprar uma data de coisas inúteis”. A história repete-se com os beduínos do deserto. E, noutra aventura, com a promessa de se tornar o fornecedor exclusivo do emir Ben Kalish Ezab (“Seria o coroamento da minha carreira”), entretém os empregados do Dr. Müller com uma infinita história de fazer chorar as pedrinhas da calçada. Dito por outras palavras: o senhor Oliveira da Figueira é, à sua maneira, um português empreendedor e com sucesso no seu, admito, pouco glorioso, mas honesto, ofício.

Não me parece que Oliveira da Figueira represente bem António Costa e os seus. Não é, também, que veja o nosso primeiro-ministro como uma encarnação do infame Rastapopoulos – embora o ministro Santos Silva ofereça algumas semelhanças espirituais com o seu homem de mão, Allan. Pela minha parte, vê-lo-ia mais como o vendedor de apólices de seguro Serafim Lampião. Numa entrevista, Hergé explicou a génese da personagem. Um dia, em Bruxelas, recebeu em casa a visita de um vendedor ambulante que lhe entrou pela porta dentro e, apontando o sofá, lhe disse: “Mas sente-se, sente-se…”, antes de iniciar a sua demonstração. Comentário de Hergé: “O importuno em todo o seu esplendor”. Serafim Lampião, com toda a sua insuportável família (detalhe importante), invadindo Moulinsart como o vendedor ambulante havia invadido a casa de Hergé, parece-me, apesar de tudo, mais próximo de António Costa do que Oliveira da Figueira. O importuno em todo o seu esplendor tem hoje em dia por missão levantar de novo o esplendor de Portugal.