Ainda me lembro quando José Sócrates, regressado do seu exílio parisiense, fez o seu reaparecimento na televisão. Muito me ri com a expressão “narrativa de direita” com que o antigo primeiro-ministro se referia à profunda crise em que tinha deixado o país. Mal sabia eu o que nos esperava.

Se a expressão “narrativa” na boca de José Sócrates parecia uma piada de mau gosto, a verdade é que com António Costa se tornou num programa de governo. O primeiro-ministro, mais do que governar, narra uma história que só existe na publicidade do Partido Socialista. Confesso que gostaria bastante de viver no país que habitualmente Costa descreve. Infelizmente vivo no país que ele supostamente governa. Qualquer semelhança entre os dois é pura coincidência.

O país da narrativa socialista virou a página da austeridade, tem um Serviço de Saúde que funciona, os transportes são uma maravilha e a economia nunca esteve mais sólida. O país real vive com a maior carga fiscal da democracia, um SNS onde pacientes morrem à espera de fazer exames, uma rede de transportes com supressões diárias e uma economia pouco mais que estagnada.

Muitas vezes nos últimos anos temos ouvido descrever António Costa como um grande político. Não consigo perceber porquê. Um grande político é um grande orador, como Francisco Louçã ou Paulo Portas; um grande ideólogo, como Álvaro Cunhal; alguém capaz de ganhar eleições, como Cavaco Silva; uma pessoa corajosa diante das ameaças, como Mário Soares; um governante capaz de sacrificar os votos pelo bem do país, como Passos Coelho. António Costa é um péssimo orador, a única ideologia que lhe é conhecida é a que lhe abrir a porta do poder, não conseguiu ganhar as eleições legislativas, desaparece sempre que acontece algum problema no país e tem passado os últimos quatro anos a sacrificar o país em nome dos votos.

Se com isto quero dizer que António Costa não tem qualidades? Não, é evidente que tem. De facto, conseguiu perder eleições e mesmo assim governar, levou até ao fim a legislatura com o apoio de dois partidos que sempre desprezou e, apesar do estado lastimável do país, continua a liderar as sondagens. Se o primeiro-ministro não é um grande político, não deixa de ser um extraordinário ilusionista, talvez um dos melhores do mundo.

Luís de Matos conseguiu que todo o país acreditasse que ele conseguia acertar nos números do totoloto. Contudo António Costa conseguiu convencer boa parte do país que a austeridade tinha passado! David Copperfield atravessou, em directo para o mundo, a grande muralha da China. Mas António Costa conseguiu destruir o Serviço Nacional de Saúde com o apoio total da esquerda. Se Costa não tem qualidades para competir com os grande políticos, tem sem dúvidas qualidades suficientes para se comparar aos grandes ilusionista da actualidade!

De facto os últimos quatro anos foram um enorme número de magia. Por um lado, António Costa distraiu o público com aumentos do salário mínimo e das reformas, a diminuição dos horários da função pública, a diminuição do preço dos passes. Ao mesmo tempo aumentou brutalmente os impostos indirectos, deixou aumentar os tempos de espera em todos os serviços públicos e diminuiu o investimento público. As pessoas ouviram António Costa e acreditaram que tinham mais dinheiro e mais tempo, quando na prática estão mais pobres e demoram mais tempo a fazer o quer que seja (do cartão de cidadão à espera pelo autocarro). Só não é o truque de magia perfeito porque ao contrário dos seus companheiros ilusionistas, António Costa é bastante evidente nos truques que usa.

Contudo, mesmo essa falha no número de magia a que Costa chama governar é colmatada pela sua extraordinária equipa. Por um lado tem as suas duas assistentes, Catarina e Jerónimo, que vão ajudando a entreter o público. Se no tempo de Passos tudo o que governo fazia era um ataque aos trabalhadores, neste novo tempo os trabalhadores é que são injustos quando atacam o governo (basta pensar na greve dos enfermeiros!).

Como qualquer artista contemporâneo, o primeiro-ministro conta com uma grande equipa de apoio. E como bom português (pensemos em Cristiano Ronaldo por exemplo) António Costa prefere confiar na família a confiar nos profissionais. O que se perde em competência ganha-se em fidelidade (ao bom estilo Corleone).

Para além dessa equipa mais próxima e familiar, chamada governo, o primeiro-ministro conta também com o apoio de uma equipa mais alargada, que ajuda a manter a sua narrativa, mesmo quando a realidade se começa a impor. Teria sido impossível para António Costa manter a ilusão de um país idílico, sem o auxílio inestimável da comunicação social. Jornalistas e opinadores têm sido essenciais para os arriscados truques de magia de Costa. Reparemos como ele consegue chegar ao fim desta legislatura sem nunca ser confrontado com o facto de terem morrido mais de cem pessoas em incêndios depois do governo mudar as chefias da protecção civil; ou com o roubo de armas em Tancos, cuja resolução se revelou um crime maior do que roubo em si; ou com a morte de pacientes à espera de exames médicos ou de operações; ou com as constantes mentiras que diz publicamente (basta consultar qualquer site de fact checking para verificar o número assustador de vezes que António Costa mente nas declarações públicas que faz). Uma equipa profissional que consegue sempre evitar ligar o primeiro-ministro a todos os escândalos dos últimos quatro anos é essencial para o seu sucesso.

Infelizmente o país parece estar condenado a mais uns anos de narrativa socialista. Mais uns anos onde nada é o que parece, tudo é o que o primeiro-ministro disser. E ao contrário de Luís de Matos ou David Copperfield, o preço do sucesso do grande ilusionista António Costa é pago por todos nós.

Mas  como qualquer artista, também António Costa vive do público. Por isso dia 6 de Outubro o povo pode escolher se quer voltar a ter um governo ou se prefere continuar com o ilusionismo.