Um português que passe uns dias em Bruxelas a conversar com diplomatas dos Estados-membros, funcionários da Comissão ou deputados europeus, ouve, mais tarde ou mais cedo, a questão: “Então o vosso PM quer ir para Presidente do Conselho Europeu?” A minha resposta imediata é que António Costa não é o meu PM. Nunca votei nele, nem tenciono algum dia votar no PS. Mas, como português, preferia vê-lo no Conselho Europeu em vez do actual Presidente, Charles Michel.

Aliás, as críticas a Michel multiplicam-se, especialmente as vindas dos seus pares no Conselho Europeu. Lidera mal as reuniões, foi incapaz de criar um consenso forte sobre o Fundo de Recuperação Europeu. Está completamente ausente das negociações com o Reino Unido. Há cada vez mais saudades de Donald Tusk e muitos líderes europeus começam a arrepender-se da escolha feita no final de 2019. Ao contrário de Von Rompuy e de Tusk, Michel pode ser um Presidente do Conselho Europeu de um só mandato.

Se assim for, o seu sucessor será um dos líderes dos governos europeus. Não será, seguramente, um político do centro-direita porque a Presidente da Comissão Europeia é da CDU (PPE, em termos europeus). Além disso, em Janeiro de 2022, o actual Presidente do Parlamento Europeu, David Sassoli, socialista, chegará ao fim do seu mandato. O seu substituto será, muito provavelmente, Manfred Weber, alemão do PPE. Por isso, quando Michel terminar o seu mandato, no fim do primeiro semestre de 2022, a presidência da Comissão e a presidência do Parlamento Europeu serão ocupadas por dois políticos do centro-direita (e alemães). Os socialistas vão exigir a presidência que sobra, a do Conselho Europeu.

Além dos políticos, os equilíbrios geográficos são igualmente importantes na União Europeia. Com dois presidentes alemães, terá que ser um político do sul a substituir o belga Michel. Só existem dois PMs socialistas do Sul da Europa, Pedro Sanchez e António Costa. Sanchez nunca poderá substituir Michel, porque o Alto Representante para a política externa é igualmente espanhol, Josep Borrell.

O facto de Borrell ser socialista poderia impedir Costa de chegar a presidente do Conselho Europeu, normalmente os dois lugares são ocupados por uma pessoa do centro-direita e um socialista. Mas esse argumento deixa de ser válido, a partir do momento em que a Presidente da Comissão Europeia e o Presidente do Eurogrupo são ambos da mesma família política, o PPE (centro-direita).

Para Costa, a questão decisiva será a substituição de Michel. Se os líderes europeus decidirem substituir Michel, Costa terá boas possibilidades. Macron será o decisor mais importante, assumindo que é reeleito presidente francês em Março de 2022. Tal como Michel, Macron é do grupo liberal (Renovar a Europa). O presidente francês será decisivo para os liberais aceitarem não ocupar nenhuma das três presidências. Ou então, Macron faz um acordo com Merkel para um liberal ocupar a presidência do Parlamento Europeu e, mais uma vez, Weber seria o grande derrotado. De uma forma ou de outra, Macron será uma figura chave.

Resta saber se será o timing certo para António Costa. Nos primeiros seis meses do próximo ano, durante a presidência portuguesa do Conselho, será um tempo de campanha para Costa. Mas depois terá que aguentar ainda um ano, com uma crise económica e social duríssima em Portugal. E deverá ser capaz de aprovar o Orçamento para 2022, o que será uma tarefa muito complicada. Mas Bruxelas vale mais um ano a aturar o Bloco e a esquerda do PS. Se o conseguir, é provável que Costa abandone Portugal para Bruxelas em Maio de 2022. Seria uma boa notícia. E uma óptima oportunidade para Portugal voltar a ter uma maioria de direita.