Estamos no Natal.

Acredite-se ou não em Deus feito homem. Acredite-se ou não num menino que veio ao mundo para nos trazer uma mensagem. Acredite-se ou não que nasceu de uma virgem chamada Maria. Acredite-se ou não na sua mensagem radical de amor. Acredite-se ou não na ressurreição.

Acredite-se ou não, a verdade é que é por esta ocasião que procuramos alguns dias de férias. Acredite-se ou não, é por esta ocasião que juntamos as nossas famílias. Acredite-se ou não, é por esta circunstância que fazemos uma consoada. Acredite-se ou não, é por este ensejo que procuramos quem não vemos tão frequentemente, mas recordamos. Acredite-se ou não, é por este período que trocamos presentes. Acredite-se ou não, é por esta altura que engalanamos as nossas cidades com luzes. Acredite-se ou não, é por esta altura que fazemos por todo o lado árvores de Natal. Acredite-se ou não, é por esta ocasião que recebemos inclusive um subsídio a que designamos de subsídio de Natal. Acredite-se ou não, é por esta ocasião que fazemos jantares de Natal de empresas e de amigos e que procuramos encontrar-nos mais enquanto pessoas. Connosco e com os outros. Seres humanos… no essencial.

No final do dia, pouco importa se acreditamos ou não. A verdade é que ninguém, acreditando ou não, nega os factos históricos. Como nega que a essência da mensagem, o amor, faça sentido. Como ninguém poderá negar que a palavra é cheia do que de mais humano e mais interessante existe no mais íntimo do homem. Como ninguém é capaz de declarar “isso é fácil” ou negar que se trata de uma aproximação de total entrega, tal o grau de disrupção. Quando alguém nos diz “amai-vos uns aos outros” ou “amai o próximo como a ti mesmo” estará, no mínimo, a provocar um riso (de incapacidade), a criar algum desconforto ou a procurar um sentido para tudo quanto vivemos. Ninguém poderá negar – como mínimo – alguma perplexidade, alguma perturbação. Porquê? Para quê? Importa muito pouco a explicação global, para não dizer que não importa nada (pelo menos neste artigo), mas antes importa a mensagem e a essência da mensagem. Que mais não é que uma mensagem universal, pessoal, sociológica e antropológica. Que mais não é que uma forma de estruturação, positiva, de valores e de carácter dos e para os homens.

Desta mensagem à ética na vida humana – pessoal, profissional – vai um passo. E à ética empresarial e nas empresas e entre os seus profissionais idem. Quando as universidades se preocupam com a ética, preocupam-se com a ética e a sua dimensão humana, pessoal e profissional. Preocupam-se não necessariamente com a ética no sentido de a ensinar (duvida-se, inclusive, da sua eficácia, se ensinada) mas, antes, para a levar ao diálogo e ao pensamento (e porque não admiti-lo à consciência) dos seus estudantes e atuais e futuros profissionais. Ter presente a ética aquando da decisão é já um passo. Despertar mentes e consciências para ela é um primeiro objetivo. Viver a dúvida e a inquietação da incorreção e do que poderá causar nos outros, humanos como nós, é essencial para a verticalidade e uma praxis organizada.

É nessa medida que a ética – e poderá dizer-se que não é, nem tal existe, uma ética cristã (que poderá ser antes uma moral até porque uma moral segue antes ensinamentos e práticas recebidos e então ter-se-á uma moral cristã; discordo deste tipo de aproximação mas não é esse, também, o objetivo deste artigo) mas apenas a ética do bom costume (natural?), a que remonta à antiguidade grega, da portabilidade de carácter e que é, inclusive, uma ética racional. Seja qual for a forma pela qual lhe queiramos chegar é indiferente, como referi, acreditar ou não no Natal do Deus menino para fazer uso dessa ética. Apenas, ou talvez, o facto de o Deus menino lhe conferir um brilho suplementar.

Mas não é despiciente recordar, aí sim, a ética e a ética do carácter por ocasião do Natal. Porquê? Porque mesmo podendo correr o risco de misturar ética com moral, a verdade é que existe um código de conduta para profissionais (ética? moral? importam os efeitos práticos). Que não se esgotam no que abaixo se diz (porque muito mais princípios subjazem a essa ética) mas nele procuram alguns do pilares e estruturação das decisões. Dez pequeninos grandes princípios (alinhados com a mensagem e a comemoração do nascimento deste Natal) éticos que apresento como partilha, o meu presente escrito e sem quaisquer subterfúgios ou meias palavras, para relembrar neste Natal e que alinham bem precisamente com o espírito, e a essência, do Natal. Acredite-se ou não.

A liderança pelo exemplo – liderança democrática, liberal, idealista, paternalista, relacional, autocrática, visionária, entre várias outras, são, apenas, alguns dos muitos exemplos de estilos de liderança. Não se esqueça que, qualquer que seja a liderança em estilo e prática, talvez uma das dimensões mais marcantes ao nível do homem seja passar a mensagem por via do exemplo. O exemplo tem a força dos atos e não apenas das palavras. O exemplo é forte e molda o carácter dos demais que com o exemplo convivem. Fazem certamente falta mais exemplos e melhores exemplos aos homens e às empresas. E, como é próprio do homem, sabe bem apontar o mau exemplo e interioriza, paulatinamente, o bom. É assim vantajoso que o tenha em consideração, o bom exemplo, na decisão futura, e tenda, de alguma forma, a replicá-lo, a enobrecê-lo e a engrandecê-lo. Nada melhor que aprender a distinguir o bom do mau pela receção e pelo acolhimento do exemplo positivo.

O erro e a humildade do seu reconhecimento – Errar é humano. A falibilidade é um básico da natureza imperfeita do homem. Mas reconhecer o erro supera esse mesmo erro. Pelo seu reconhecimento se melhora e evita o erro futuro. Se aprende. E, porque não e reconhecendo uma boa parte da influência da ética (moral?) cristã – ou da ética, tout court? – se ao reconhecer-se se faz dele evidência pública e se pede perdão. Uma forma de resgate da dignidade mas, igualmente, uma forma de prática da humildade.

A honestidade intelectual – A honestidade intelectual como atitude. Boa atitude. O seu significado passa, de uma maneira geral, pela honestidade com que se adquire, analisa e transmite uma ideia ou uma solução (e se decide em conformidade). Essa honestidade intelectual implica i) não empolar a força dos argumentos próprios mas, paralelamente, reconhecer-lhe as fraquezas; ii) constatar e aceitar a existência de ideias e práticas diferentes; iii) mostrar abertura para debater ideias e soluções; iv) recolher fraquezas nos argumentos próprios; v) assentir na possibilidade do erro; vi) acolher argumentos contrários, críticas e debate construtivo; disponibilidade basilar para ouvir; vii) receber e aceitar as consequências e, bem assim, os erros e as virtudes das decisões e soluções próprias; viii) não simplificar e/ou desvirtuar argumentos, ideias e soluções de outrem; ix) separar as pessoas das suas ideias. As pessoas são as pessoas. As ideias as suas ideias. As soluções as suas soluções. As decisões as suas decisões. E as pessoas merecem o respeito de pessoas e a dignidade que se associa aos seres humanos.

O trabalho bem feito – Que acaba, igualmente, por ser um exemplo. O trabalho é para se fazer bem e sempre bem. Nem todos os resultados são bons ou os melhores. Porém, o esforço deve apor-se-lhe e com ele, trabalho, conviver. Dignificando o ser humano. Dando-lhe o brilho da responsabilidade cumprida (ou procurada). Sustentando a boa atividade diária e conferindo uma consistência comportamental ao longo do tempo. Fazer bem mas procurando fazer bem sempre.

As pessoas primeiro – O homem, as pessoas, o ser humano acima de tudo. Pode parecer meio ingénuo ou meio desadequado quando se pretendem resultados. Essencial, porém, quando o que se gere, quem se gere, são pessoas com qualidades, várias qualidades, e, obviamente, defeitos. Mas o essencial é falar, liderar, lidar primeiro com pessoas e só depois com os resultados que essas pessoas serão capazes de registar e atingir. As pessoas, enquanto pessoas, presidem elas próprias aos resultados. Porque são elas que os produzem. Porque são as pessoas que geram e sustentam os resultados.

A liberdade condicional – Primeiro a liberdade. Depois a condição ou o condicional. Não há liberdade quando não condicional. Condicional à liberdade dos outros. Que termina quando começa a dos outros. O que significa que a liberdade não é uma concessão sem restrições. É uma concessão dada com limites. Liberdade para agir, sim. Liberdade para escolher, sim. Mas não quando essa liberdade se sobrepõe à liberdade dos outros enquanto seres humanos. Enquanto pessoas.

Não, não vale tudo – Porque não vale. Os fins não justificam os meios. As vitórias são vitórias quando legítimas. Quando não legítimas são engodos, farsas, falsas vitórias, hipócritas demonstrações de que é possível o resultado…sem na realidade o ser.

O feedback – O feedback, dado e recebido, partilhado e compartilhado, ajuda. Constrói. Fortifica e esclarece. Emenda e corrige. Quando sério, organiza a atuação e a decisão futuras. E sempre que feito com reforço positivo estimula e puxa por mais e melhores resultados.

O alinhamento – Que implica partilha. Apurado com a partilha e a comunicação para que não floresçam mal entendidos. Becos sem saída. Desestruturação nas ações, nas práticas. O alinhamento implica feedback, implica comunicação e não autismo. Usualmente fonte de pequenos poderes e territórios, que ausentam ou inibem a comunicação (protecionismo e terreno fértil dos inseguros), que minam e atrasam resultados porque assentam em interesses individuais em detrimento dos coletivos.

O contributo para o ambiente de trabalho – O ambiente e a envolvente de trabalho. Que serão melhores com um “bom dia”, um sorriso, uma “boa tarde”, uma cara alegre, umas palavras de reforço positivo, umas palavras elogiosas, umas palavras de alento, uma disponibilização de tempo para que os outros tenham mais tempo. Está-se e é-se melhor porque faz e se cria melhor ambiente. Melhor envolvente. Mais propícia ao trabalho e à partilha. Que não é o mesmo que ser-se vulnerável à intriga e ao gossip de corredor. Mais e melhor ambiente implicam mais e melhor entrega, mais e melhor feedback e reforço positivo sempre que ele existir.

Goste-se ou não, acredite-se ou não, aqui ficam os meus votos de um Santo Natal.

Professor Catedrático, NOVA SBE – Nova School of Business and Economics, crespo.carvalho@novasbe.pt