Foi há quatro anos atrás, andava eu pelos meus cinquenta. Estava em frente à televisão e ouvi-me pensar, como quem fala alto sozinho: “Ao que isto chegou!”. Não me lembro do que é que, em particular, me levou ao muito geral “isto”, outro nome, é claro, para Portugal. Mas recordo-me perfeitamente do que a mim me disse mal me ouvi pensar assim: “Meu Deus, estou velho!”. (Notem, por favor, as duas exclamações.) Uma frase como aquela, uma frase típica de velho, nunca tinha pensado vir a dizê-la. Pior ainda: senti-la. Mas disse-a e senti-a.

Não é que os tristes sinais da quase provecta não se tivessem já devidamente manifestado. Os vários orgãos do corpo, por exemplo, ganham, com a idade, uma existência independente, em conflito com o seu legítimo proprietário. Aí onde antes havia unicamente um corpo, com os seus defeitos e as suas virtudes, passa a haver uma colecção de entidades distintas, cada uma reivindicando com zelo o direito à nossa atenção. Começamos a dizer: “os meus pulmões”, “o meu coração”, “o meu fígado”, e por aí adiante. E ficamos a pensar na possibilidade de todas essas trajectórias autónomas acabarem, por assim dizer, a chegar a acordo num ponto essencial.

Mas contra estas coisas pode-se pouco. Em contrapartida, a bela juventude do espírito é susceptível de métodos mais fáceis de preservação. É preciso é diagnosticar depressa a origem do mal e tomar as medidas adequadas. A fortitude não é o meu forte, confesso, mas compreendi rapidamente e agi em consequência. A televisão faz mal e convém moderar o seu uso. Pode parecer pueril como caminho para a salvação, mas não o é assim tanto.

Em meados do século passado, um filósofo alemão escreveu um livro chamado A dificuldade de dizer não. O título é excelente e designa um problema bem real. É dificílimo, nas coisas banais da vida, dizer não. A nossa tendência natural é a de aceitar, e depois inventar umas clausulazinhas para moderar a nossa aceitação, como quem não quer a coisa. Pior do que dizer não, só dizer “não sei”. “Onde fica a rua tal?” O mais provável é a pessoa a quem perguntamos, no caso de não saber, nos fornecer uma indicação vaga que nos leva a lado nenhum. O “não sei”, para ser pronunciado, exige a criação de uma intimidade particular que nos proteja, uma abertura do coração exclusivamente dirigida a quem pergunta, quase uma confidência: “Sinceramente, não sei.” Mas tão ou mais fascinante que a dificuldade em dizer não é a facilidade de acreditar.

E aqui entra, de novo, a televisão. Não há nada no mundo onde a facilidade de acreditar nas coisas mais improváveis seja tão patente como na televisão. A televisão é um compêndio perfeito daquilo que Montaigne chamava pensamento a crédito e inimiga absoluta de qualquer veleidade de cepticismo. Tomemos, por exemplo, as doenças. Pelas minhas contas, e a acreditar no que a televisão nos disse nos últimos anos, entre doenças mortais, maleitas graves, doencinhas assim-assim e queixumes sortidos, a população portuguesa já devia ter desaparecido da terra há muito tempo. Mas a televisão acredita, e nós acreditamos também. Todas as questões complexas que implicam, pela sua própria natureza, a coexistência de pontos de vista em conflito, são amputadas de um dos aspectos e apresentadas sob uma única perspectiva, como por exemplo o saber se o “aquecimento global” tem origens humanas ou não. Mas a televisão acredita que sim, que tem, e nós acreditamos também. Isto para não falar da absoluta superioridade moral da esquerda sobre a direita. A esquerda representa o Bem e a direita opõe-se ao Bem. A televisão acredita, ó se acredita, e nós acreditamos também.

O último objecto de desmedida crença televisiva é António Costa. A acreditar na televisão, António Costa encontra-se na situação única de nos salvar de tudo o que há de mau e de nos guiar de novo para a felicidade. E isso, aparentemente, pelo simples feito de se poder tornar secretário-geral do PS. Isto surpreende. Não que António Costa não possa, obviamente, ser melhor secretário-geral do PS do que Seguro. Não sou cliente da casa e até, nos últimos anos, dei comigo a não suportar ver socialistas felizes, temendo o espectáculo do sorriso do Dr. Almeida Santos a flutuar perpetuamento no céu azul, mas não excluo à partida (embora não me pareça provável) voltar a votar PS, coisa que já não me acontece há muito tempo. O que surpreende é a intensidade da crença depositada em António Costa, algo que salta aos olhos na televisão. Ou não surpreende, sendo a televisão o que é.

Dir-se-á que o mesmo se passa com a imprensa escrita. Mas não é a mesma coisa. Num jornal pode-se saltar uma notícia ou um artigo, e, de resto, encontramo-nos intelectualmente mais prevenidos face ao escrito do que face à imagem. É como nas conversas com amigos. Podemos discutir, ou mudar de conversa, ou adiar conversas, em benefício da amizade. Com a televisão não. Ela entra em casa com o seu pensamento a crédito e põe-nos a pensar a crédito.

Longe de mim achar tontamente que a televisão é um malefício absoluto. Ninguém é obrigado a vê-la, e, além disso, há obviamente nela coisas óptimas. O problema é que, em doses excessivas, nos irrita, nos faz perder o sentido das proporções e nos magoa pela credulidade que exibe. E uma pessoa apanha-se a dizer “Ao que isto chegou!”. Como se entre nós e “isto” não houvesse a distância que nos salva.