Crónica

Apenas leia o raio do meu e-mail /premium

Autor
1.063

O frenesi da nossa era faz com que as pessoas estejam tão, mas tão impacientes e superficiais a ponto de não conseguirem ler dois ou três parágrafos com um mínimo de atenção.

Eu não sei bem o que está acontecendo, mas tenho sensação de que estamos entrando na era de um novo tipo de analfabetismo, que parece não poder ser derrotado nas escolas. É algo novo, que ainda tentamos entender- ou que talvez ainda tenhamos esperança de não ser bem assim.

A situação é a seguinte: você manda um e-mail de três parágrafos para uma pessoa, geralmente com conteúdo relativo a trabalho. Um minuto (literalmente sessenta segundos) de atenção seria mais do que suficiente para uma pessoa normal compreender a mensagem. Mas já não estamos falando mais de pessoas normais.

O que acontece? A pessoa não lê. Ela simplesmente pesca algumas palavras e te responde sem grande atenção, dizendo coisas que não respondem direito o que você perguntou, não encaminham para frente o assunto central, nem resolvem os temas que precisam ser resolvidos. Chega a ser inacreditável, parece que estamos conversando com a parede.

E aí então o trabalho volta de novo para as nossas mãos: explicar- de preferência sem xingar a pessoa- que não foi isso que você escreveu, pedindo que ela releia o conteúdo com atenção e te responda o quanto antes. Quando você percebe, dois dias de trabalho já escoaram pelo ralo por causa desse novo formato do analfabetismo, que atinge inclusive pessoas com MBA e PhD.

O frenesi da nossa era faz com que as pessoas estejam tão, mas tão impacientes e superficiais a ponto de não conseguirem ler dois ou três parágrafos com um mínimo de atenção. Faz-se uma espécie de “leitura dinâmica”- que na verdade é não ler porcaria nenhuma- num misto de falta de atenção, com falta de consideração, com inabilidade profissional.

Eu cheguei a contar. Só nessa semana isso me aconteceu 5 vezes. Com pessoas no Brasil e em Portugal. Com pessoas de 26 e de mais de 50 anos. Dessa vez nem dá pra culpar só os millenials. Expressões como “não foi isso que eu escrevi” e “acho que você não leu minha mensagem com atenção” já poderiam ficar direto no CTRL+V.

Eu sei que o mundo não está facilitando para ninguém. Enquanto o nosso e-mail está na tela, o telefone toca, o instagram está aberto, a cabeça está pensando no almoço, mensagens de whatsapp pipocam no alto do visor, a impressora cospe os papéis, o chefe cobra o relatório. Não é fácil manter a atenção, eu sei. Mas são três parágrafos, não é um tratado de filosofia, sabe?

Mais uma vez sou remetida para a frase: o difícil não é matar um leão por dia, o difícil é desviar das antas. Juro, eu só quero trabalhar. Não deveria ser tão difícil assim. Por favor: apenas leia o raio do meu e-mail. Só isso, nada mais. Pela atenção, obrigada.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: [email protected]
Amor

A coragem necessária para amar de longe /premium

Ruth Manus
3.562

O problema não é apenas não poder abraçar. É não sentir o cheiro, não segurar a mão, não passar os dedos entre os cabelos. É não poder olhar nos olhos da pessoa para saber se tudo está realmente bem.

Crónica

Não chame uma mulher de meu anjo /premium

Ruth Manus
3.285

É muito mais fácil chamar uma mulher pelo nome. Ou de você. Ou de tu. Ou de senhora. Reserve seus tratamentos “carinhosos” para quem esteja com alguma vontade de recebê-los.

Crónica

O melhor país do mundo /premium

Alberto Gonçalves
2.118

Os poucos que assistem à farsa com o horror que esta merece aproveitam para se despedir do melhor país do mundo a fingir que não é uma vergonha, nas mãos de criaturas que não têm nenhuma.

Crónica

Os idiotas polivalentes /premium

Paulo Tunhas

A sociedade, para o idiota polivalente, é uma superfície lisa onde todas as diferenças não apenas são artificiais (como, em certa medida, de facto o são), mas também elimináveis da primeira à última.

Crónica

As cidades capturadas /premium

Maria João Avillez
226

Um dia Veneza será afogada pelos turistas, Barcelona fechará as portas, o Monte de São Michel soçobrará, Roma sucumbirá. E Florença talvez já tenha colapsado sem que ainda não se tenha dado por isso.

Crónica

Episódios da política portuguesa /premium

João Marques de Almeida

Uma conversa em Belém. Outra na São Caetano à Lapa. E um telefonema por causa da Web Summit. Não se assustem: qualquer semelhança entres estes episódios e a realidade é pura coincidência.

Crónica

Não chame uma mulher de meu anjo /premium

Ruth Manus
3.285

É muito mais fácil chamar uma mulher pelo nome. Ou de você. Ou de tu. Ou de senhora. Reserve seus tratamentos “carinhosos” para quem esteja com alguma vontade de recebê-los.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)