Aviso prévio
Considerem-se desde já advertidos, amigos leitores, que este texto está longe de ser politicamente correcto. Fica o aviso!

Muito se tem escrito e faladado sobre carne ultimamente! Infelizmente, pelos piores motivos. Esta obstinação desenfreada pelas causas ambiental e animal passa agora pela demonização dos verdadeiros amantes de carne – refiro-me ao alimento, claro.

Mas o mais azucrinante é que os seguidores desta tendência ultravanguardista, ou se quisermos, os verdadeiros guardadores da causa ambiental, como despudoradamente se assumem, não percebem, ou não querem perceber, que a vida sem carne – uma vez mais, refiro-me ao alimento – não tinha gracinha absolutamente nenhuma. Seria uma profunda sensaboria!

Numa entrada do seu diário, datada de 7 de Julho de 1930, Evelyn Waugh – grande romancista britânico do século XX – presenteia-nos com a seguinte passagem: “Lunched at Sovrani’s with Frank after a morning with D’Arcy. Excellent cold duck with foie gras. I enjoyed this luncheon […]” [1]. Imaginem, queridos amigos, o desenxabimento desta mesma passagem se, em vez daquele tão apetecível repasto, o autor de “Brideshead Revisited” se tivesse deliciado com um não menos mouth-watering hambúrguer de soja, acompanhado por uns maravilhosos quiabos tostados! É que apetece logo, não é?

E em “Guerra e Paz”, magna obra de Tolstói, certamente que o Conde Rostov manifestaria semelhante entusiasmo ao saber que, certa noite, em vez de se deleitar com um suculento “sauté de perdizes au madère” [2], antes seria brindado com um salteado de beringela – digamos aubergine para tornar o prato ainda mais sedutor – com raspas de lima, para conferir a almejada frescura que o prato reclama.

E a excitação que seguramente os nossos Infantes Reais experimentariam em 1880 se, em vez de um belo banquete composto por “vacca braisée com choucroute”, “arroz de substancia com gallinha”, “filetes de vitella à Basilic” e uns “boudins de gallinha com demi glace” [3], fossem generosamente regalados com uma quinoa com legumes salteados, um húmus de beterraba ou um seitan estufado com cenoura e cogumelos. É caso para dizer “venha o diabo e escolha”, certo?

O combate feroz ao consumo de carne mais não é do que um combate frontal e assumido a parte da nossa herança cultural! É um combate feroz e assumido a toda a filosofia epicurista do joie de vivre. E isso, meus queridos amigos, não podemos permitir!

É que a falta de comiseração destes novos revolucionários pelos verdadeiros carnívoros é de tal forma acérrima, que chega ao ponto de nos impor a ideia de que um regime alimentar vegetariano é profundamente equilibrado e que a carne não faz qualquer tipo de falta na dieta do ser humano. Nutricionalmente, não tenho conhecimentos para rebater esta ideia. Mas emocionalmente, meus amigos, a conversa é outra!

Haverá, por acaso, maior alegria do que aquela primeira facada dilacerante num bom corte de carne, grelhado vuelta y vuelta, ainda a fumegar?

Haverá, por acaso, maior conforto do que uma garfada generosa de leitão, acabadinho de assar e ainda com a pele estaladiça e crocante, que parece cristal, e que em poucos minutos se vai derretendo na nossa boca?

Haverá, por acaso, maior prazer do que saborear uma boa perdiz de escabeche, generosamente mergulhada num banho cheio de azeite, vinagre e especiarias em perfeita harmonia?

A estas questões, que deveriam ser retóricas, prontamente nos respondem os nossos amigos activistas com a maior das condescendências: “Que alegria? Que conforto? Que prazer? Não sabes que tens o seitan, que é a «carne branca» dos vegetarianos e que é muito parecida com a galinha?” ou “Pff…Vê-se mesmo que nunca experimentaste «tempeh!»”.

E aqui chegados, meus queridos amigos, a nossa reacção só pode ser uma: “Quero cá saber do «seitan» e do «tempeh»”. Palavra de honra! Que alimentos estes, sem personalidade alguma, que se temperados e cozinhados de determinada maneira “até ficam com um sabor e textura parecidas com a da carne”! Que falta de caridade para com o palato de um amante de boa carne.

Meus queridos amigos: quer queiramos, quer não, é inegável que a carne é um elemento fundamental para alguém que gosta de viver e que não se limita a existir. E disso tão bem nos relembra o nosso Eça, cada vez mais esquecido, no bonacheiro diálogo entre o Frei Genebro e o irmão Egídio, quando este último, atormentado pelo pecado da gula e pelo seu desejo por um bom naco de carne de porco, recebe a mais comovente das respostas: “Pecado? Aquele que, por tortura, recusa ao seu corpo um contentamento honesto, desagrada ao Senhor. Não ordenava Ele aos seus discípulos que comessem as boas coisas da Terra? O corpo é servo; e está na vontade divina que as suas forças sejam sustentadas, para que preste ao espírito, seu amo, bom leal serviço” [4].

Posto isto, meus queridos amigos, só me resta dizer-vos uma coisa: comam carne! E sejam felizes!

O autor não segue a grafia do novo Acordo Ortográfico.

[1] Evelyn Waugh, The Diaries of Evelyn Waugh, Edit. by Michael Davie,  Phoenix.
[2] Lev Tolstói, Guerra e Paz, Editorial Presença, Volume I, 2.ª Edição.

[3] Ana Marques Pereira, Mesa Real – Dinastia de Bragança, Edições Inapa. 

[4] Eça de Queirós, Contos, Frei Genebro, Editora Livros do Brasil.