Há uns anos ouvi de um meu professor, psicanalista, a frase «só puxa dos galões quem não tem co***es».

Ao propor a obrigatoriedade da utilização da app Stayaway Covid, o Primeiro-Ministro derrota um dos principais propósitos desta aplicação, ser um dever cívico não coercivo.

Para além da discussão sobre a inconstitucionalidade e o comportamento anti democrático, a aplicação faz sentido numa altura em que é fulcral o rastreio da propagação. Sem dados de identificação que comprometam a privacidade, de acordo com quem a desenvolveu, esta app permitiria a determinação do risco de exposição através da avaliação da proximidade com casos diagnosticados positivos. A ideia é boa. Mas só funciona se toda a gente diagnosticada se inscrever. Não sei é explicá-la ao meu pai e convencê-lo a trocar o seu telemóvel de há seis anos por um smartphone com letras pequenas que ele não consegue ver. E talvez o problema não esteja na falta de qualidade do equipamento telefónico, mas na falta de qualidade do aparelho político.

A falta de credibilidade da população nas medidas mais recentes e nos recursos propostos para controlo da pandemia é um fenómeno crescente que não tem mistério algum. As constantes incoerências como a não permissão de aglomerados com mais de cinco pessoas em restaurantes ou espaços públicos e comerciais, mas o mesmo não se poder aplicar aos transportes públicos; impedir a realização de concertos mas aprovar festas-comícios; justificar a não utilização de máscaras numa fase inicial de propagação com o perigo de uma falsa sensação de segurança; elogiar o comportamento da população durante o confinamento mas impor a obrigatoriedade de registo numa plataforma quando esta não está sequer afinada para a sua função, tudo isto serve para descredibilizar instituições basilares e destruir possibilidades com algum potencial de eficácia.

A confiança é construída com base na consistência, na clareza, no respeito e na coerência entre o que é anunciado e o que é feito. Sem esta relação coesa não há confiança.

A app não funciona porque a base em que tem de se apoiar, a confiança, colapsou. A sua eficácia não é levada a sério. E com razão: desde que foi lançada, em Setembro, foram introduzidos cento e vinte e três códigos.

Para mudar um comportamento, é necessário explicar o objectivo da acção que se pretende implementar, como é necessário formar para uma vivência de cidadania baseada na consciência da responsabilidade individual no impacto da vida colectiva.

Menos galões, mais…